A opção de ser livre, com ou sem coronavírus

Diário de um desespero – ou quase – XII

João Carlos Pereira

Quando eu acreditava em um monte de bobagens, sobretudo nas práticas supersticiosas de virada de ano, tipo usar cueca não sei de que cor, pular sete ondas (caso estivesse na praia, coisa que jamais aconteceu),  jogar moedinha, de costas, pela janela, para atrair dinheiro graúdo (onde já se viu isso?) ou comer  romã, arroz de lentilha e guardar caroços de uva na carteira, ainda tinha ânimo para elaborar uma ridícula lista de resoluções para o ano que ia chegar.

Era tanta idiotice, meu Deus, que não sei como não surtei de forma grave. Planejava ações quase impossíveis e as anotava no papel, como se estivesse assumindo compromisso gravado na pedra. Por não poder honrar quase nada, mergulhava na tristeza provocada pela falsa incapacidade e me achava o último dos últimos. Foi assim que começou minha história de dissimulações, para tentar sobreviver às frustrações que eu mesmo moldava. Estamos a oito meses de 2021 e minha única preocupação séria, neste instante, é sobreviver. Emagrecer vai ser missão para a vida toda – talvez até consiga reduzir uns quilos -, mas  não vou cair na paranoia outra vez.

Custei muito a me libertar de costumes absurdos da passagem de ano e, na primeira vez em que abri mão de qualquer sandice, fiquei mal, porque eram medos arraigados em mim, mas rapidamente entendi que a cueca amarela só me traria dinheiro, se eu metesse a mão na massa e trabalhasse mais. O mesmo valia para uma sequência ilógica de busca artificial de prosperidade. Caso vestir branco, usar roupa nova e fazer amuletos servisse para alguma, estaria todo mundo bem na foto e, em pouco tempo, a Serasa perderia razão de existir.

Se a reclusão forçada durar até meio do ano,  acho que podemos cancelar 2020 e chamar 2021, porque vida nova demanda ano novo. Quando isso acontecer,  estarei com minha roupinha de sempre, a mais confortável, de preferência um pijama folgadão, os chinelos de tira e um copo de vinho na mão para comemorar o fato de, pelo menos, haver chegado inteiro a uma esperança renovada.

Do mesmo modo como de 31 de dezembro para 1º. de janeiro não traço planos, assim que a televisão avisar  que está tudo liberado e o vírus foi contido, não terei projetos a realizar como obsessão. Claro que estou doido para ir à missa, bater perna no supermercado, comprar livros, encontrar com a querida turma do antiquário que frequento, organizar reuniões às sextas e aos sábados em casa, na sacada de um parente ou na sala de alguns poucos amigos, ir ao Ver-o-Peso,  comer peixe frito na rua,  voltar para a academia (tanto aquela onde, por questão de saúde, caio na piscina e a Paraense de Letras) e, deliberadamente, não fazer nada.

Sinto falta de ver gente e, em especial, de algumas pessoas, mas não vou me jogar no estouro da boiada. Assim que a vida abrir a porteira, terei tanto para fazer, que não saberei direito por onde começar. Algumas coisas colocarão em xeque as lições da pandemia e verei se o tempo que fiquei em casa prestou para meu aprimoramento ou somente para meu engordamento.

O aprendizado forçado servirá para começar a amar mais e melhor aqueles a quem telefonava na busca de compensar minha solidão. A solidariedade não poderá ser apenas promessa feita no instante de agonia e virar conceito vazio. Viver como gente e não como figuração será um compromisso. O dinheiro que não pude gastar agora, porque não tinha onde, deverá ser melhor utilizado com o que, de fato, valer a pena. As pessoas carentes continuarão carentes do mesmo jeito (ou pior) e minhas carências poderão ser as mesmas (ou piores, também). Espero que a prisão domiciliar faça de mim um ser humano melhor. Se não fizer, serei mais uma dessas criaturas a quem Deus deu asas e não quis aprender a voar. Para ser dessa maneira, prefiro tropeçar numa calçada, mal coloque os pés na rua, cair de cara numa colônia de coronavírus e entrar para as estatísticas dos mortos.

Esse tempo de graça e de reconciliação, que os católicos conhecem (e infelizmente não valorizam tanto) chamado de Quaresma, foi ampliado para todos, sob o nome de pandemia.  A travessia de 40 dias – tudo a ver, simbolicamente, com quarentena – deve levar o homem a uma passagem que, metaforicamente, se dá na Páscoa, como transição de uma vida antiga para uma nova. Todos nós estamos atravessando nosso deserto e, se chegarmos ao fim sem nenhuma mudança significativa, restarão somente as marcas do sol inclemente na pele, além das queimaduras e consequências piores.

Há muito, sim, para depois do jardim. Mas acho que, liberado da proibição de sair, livre da tornozeleira eletrônica, experimentado o luxo da prisão domiciliar, curtido a breve alegria da semiaberta, na forma de saidinhas eventuais, para ir ao dentista ou comprar algo indispensável, vou querer fazer aquilo de que, de fato, mais gosto: ficar em casa.

Sair por sair, me danar por aí, esbarrar feito um doido na multidão, acompanhar o genial Epaminondas Gustavo, como propôs numa de suas falas mais divertidas e me socar num Pedreira-Condor (existe essa linha?) lotado, para dar voltas e voltas pela cidade, não consta dos meus planos. Vou desejar, sim, o silêncio da casa vazia, com todo mundo cuidando de sua vidinha, e eu, da minha.

De preferência, deitado na rede.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

Imagem: Wassily Kandinsky (1866–1944) – Circles in a Circle, 1923

Crônica

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