Fé e política em tempos de escuridão

Luiz Fernando Krieger Merico

A política brasileira vive momento de profunda perda de seu caráter civilizatório. A rigor, se poderia dizer que o processo político atual nos conduz à destruição mesmo do que um cristão poderia chamar de Reino de Deus.  Se o Reino é Deus operando na história, e se as diatribes da política reinante se dissociam totalmente da humanização da sociedade, é normal (ou deveria ser!!!) um cristão sentir-se perdido, confuso, frustrado e mesmo raivoso. Se para um cristão a grande mística da política é o serviço para a felicidade de todos, acompanhar cotidianamente as degradantes empreitadas contra os seres humanos geram não apenas desencanto, mas também desesperança.

Que empreitadas degradantes seriam essas? A apologia da violência, das armas, da aniquilação do diferente, a promoção da destruição do meio ambiente que nos sustenta (a Criação de Deus!!), o ódio contra a ciência e a educação, a ação articulada contra a inclusão de gênero,  o racismo explícito, o desprezo pelo acúmulo cultural de um povo e sua história, a manipulação da verdade nos meios eletrônicos, as contínuas manifestações de preconceitos contra nordestinos e contra indígenas, o desrespeito às leis e à institucionalidade. Tudo isto machuca e fere a humanidade. É um monte enorme de práticas anti-Reino.
Assusta mesmo!  

Confesso que sou um pouco como Tiago em Lucas 9, 54, “queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?”. É o que muitas vezes o discípulo tem vontade de fazer. Mas é importante escutar a resposta do Mestre: “o Filho do homem não veio para perder as vidas, mas para salvá-las”. Em tempos de escuridão, para salvar as vidas, podemos voltar ao princípio, ao Gênesis. No capítulo 3, 9, Deus passeando pelo jardim pergunta à Adão: “ondes estás?”. É a primeira pergunta de Deus na bíblia. Devemos fazer o exercício de responder esta pergunta continuamente. Onde estás tu? Quais as tuas condições? Que pensas? Como é a tua história? Situar-nos na história, perceber-nos em meio a uma história – eu dentro de uma perspectiva histórica. Logo em seguida Deus pergunta a Caim (Gn 4,9) “onde está teu irmão?”. Onde está meu irmão? Como ele vive? Como sobrevive? Meus irmãos são também assassinados, como Abel? Que faço por eles? Quais são suas necessidades? Como me coloco em uma dinâmica de construção do Reino a partir destas perguntas de Deus?  

Há também sempre presente, a tentação de esconder-se em um buraco – talvez colocando a cabeça dentro dele… Frente a um conjunto impressionante de agressões e violações, uma certa anestesia pode ser gerada levando ao imobilismo e ao perigo da aceitação de um “novo normal”. Alguns cristãos, tenho visto isto, podem inclusive dizer que não tem nada a ver com o fato de que no Brasil as pessoas lotam as ruas para dormir, e que fé e política não podem se misturar. Mas quando a religião é utilizada e manipulada para as práticas políticas anti-Reino, não vejo que estas pessoas fiquem indignadas…   

Se somos cristãos, somos seres de esperança e seres de atitudes proféticas. Não é nosso papel enterrar talentos, e sim lançar sementes continuamente e sem desanimar, que os frutos cem por um virão! Voltando uma vez mais ao Gênesis, Deus coloca um anjo com espada flamejante cuidando do caminho da árvore da vida (Gn 3, 24) para que os frutos dela estejam disponíveis para gerações, gerações e gerações. Esse é o papel do cristão em tempos de escuridão: guardar o caminho da árvore da vida, indicando rumos para a construção do Reino. Não nos esqueçamos que João, no capítulo final de suas visões do Apocalipse (Ap 22,2) vê a árvore da vida dando frutos e com suas folhas curando as nações!! Amigos no Senhor: avante!!


Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Imagem: O semeador, 1888. Vincent van Gogh (1853 – 1890). Kröller-Müller Museum.

Fé e Política Justiça e Paz

2 comentários Deixe um comentário

  1. Para mim, o cúmulo do paradoxo é um “cristão” ter votado no Bolsonaro. Grande parte dessa gente diz que o voto no “Bozo” foi por ódio ao PT. “Cristãos” odiando: mais um paradoxo.
    O último paradoxo são “cristãos” rezando para que esse governo dê certo.
    O positivo dessa crise humanitária em que o Brasil vive é descobrir quem são os “cristãos” de ocasião e os verdadeiros cristãos que mesmo na crise continuam a missão de Jesus, sendo sempre do lado dos mais pobres e vulneráveis.

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  2. Linda referência ao evangelho de Lucas na resposta de Jesus frente à frustração de Tiago.
    Faz ressonar outra passagem de Lucas (Lc 15, 1:7), em que a comunidade religiosa criticava o mestre por “receber e comer com pecadores”. Jesus os propõe pensar qual deles tendo cem ovelhas não largaria as 99 para ir atrás da que se perdeu?
    Portanto estejamos de braços (e ouvidos!) abertos às nossas irmãs e irmãos do outro lado do polo político, pois o céu tão pouco se alegra com 99 justos que não precisam de arrependimento (Lc 15, 7).

    Curtido por 2 pessoas

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