Rezando a parábola do Pai Misericordioso

Joana Eleuthério

Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso.

Lc 6,36-38

«A divina compaixão é assim: incondicional, assimétrica, unilateral. No centro do Evangelho, uma parábola, um homem. E o sonho de um mundo novo, que estende as suas asas aos primeiros três gestos do bom samaritano: viu, teve compaixão, fez-se próximoErmes Ronchi 

Rezando a bela parábola do Pai Misericordioso, veio-me a inquietante e desafiadora pergunta: Quem eu abrigo em meu coração e em minhas atitudes – o sacerdote, o levita ou o bom samaritano? — «A compaixão nela revelada não faz distinção de religião, nacionalidade, cor, raça ou idioma. O sacerdote, o levita e o samaritano – somos todos nós diante da miséria humana, ferida a margem da história» (Elisângela Pereira Machado). «A Misericórdia é o coração pulsante do Evangelho. É a primeira, a última e a única verdade da Igreja, de todas as suas doutrinas, cânones e ritos.», diz ainda essa autora.

Na oração do Angelus desse domingo, o Papa Francisco, comentou esse texto de Lucas, apontando-nos o ensinamento central de Jesus: «Ele  nos faz entender que não somos nós, com base nos nossos critérios, que definimos quem é o próximo e quem não é, mas é a pessoa em situação de necessidade que deve poder reconhecer quem é o seu próximo, isto é, quem usou de misericórdia para com ela.»

Essa Parábola de Jesus resume, de alguma maneira, a situação de tantas pessoas, vítimas inocentes da violência oriunda de nossos sistemas políticos, religiosos, sociais e econômicos que, uma vez excluídas da sociedade e de nossas comunidades, acabam maltrapilhas e famintas, totalmente abandonadas nas sarjetas de nossas metrópoles, ao longo dos intermináveis caminhos da vergonhosa história humana. Meu receio é que eu me torne também uma vítima – da normose social.

Lembro-me que já me senti muito mais afetada e incomodada com os moradores de rua, pedintes e maltrapilhos que encontrava em meu caminho. Hoje, fico cheia de dúvidas em relação ao que fazer. Por princípio, não gosto de dar dinheiro em espécie para ninguém na rua. Costumava comprar roupas, alimentos e outras coisas e levar para eles. Com a idade e com problemas de saúde que interferem muito em minha mobilidade, eu não tenho feito mais isso. É uma boa desculpa, que me deixa muito amargurada.

Por vezes, o pobre morador de rua acaba transformado em um mero obstáculo para nós, atrapalhando o trânsito nas saída das padarias e dos supermercados, atrasando-nos para os nossos compromissos. Na minha cama quentinha, em uma dessas noites de frio intenso que tivemos aqui em Brasília, me lembrei de um rapaz, provavelmente usuário de craque, que anda praticamente desnudo nos arredores da quadra onde faço pilates. Então decidi que iria tentar reencontrá-lo para então comprar roupas e levar-lhe um cobertor, passei a procurar por ele nas duas vezes por semana que ia naquela região para os meus exercícios. Comecei a temer que ele já tivesse morrido por consumo de drogas, como já ocorreu com dois outros jovens que tentei dar assistência e oferecer o mínimo que eu podia naquela época, ainda na década passada. Finalmente, na terceira semana de procura, vi-o de longe atravessando a rua no meio dos carros. Dessa vez, ele vestia inúmeros farrapos sujos e arrastava um cobertor não menos sujo. Rezei aliviada, ele deveria estar minimamente agasalhado para dormir nessas noites tão frias que temos enfrentado por aqui. Infelizmente não consegui alcançar o rapaz e nem o encontrei novamente.

Essa narrativa do Bom Samaritano é um puxão de orelhas para nós que nos consideramos seguidores de Jesus. Nessa parábola nos é apresentado um projeto de vida a partir dos pobres, excluídos e oprimidos. Como já disse alguém, a atitude que se espera de nós é a promoção da justiça e da verdadeira caridade – ações para além de intenções, proposições e de nossas crenças ou de nossas posições ideológicas ou religiosas para a construção um mundo melhor e mais humano.

Vendo uma entrevista do padre Júlio Lancelotti na semana passada, ele contou que muitas pessoas chegam perto dele para dizer que ficam sem saber o que fazer diante dos moradores de rua. Então, ele disse que o que o que as pessoas em situação de rua mais precisam é ser olhados nos olhos, precisam sentir que existem e que têm dignidade. Precisam se sentir agasalhados também pelo nosso olhar, não só por roupas e cobertores. O padre enfatizou: «Não fale mal do povo da rua, não os trate com desprezo

Peçamos a graça, implícita no convite de Elisângela, no texto citado acima:

Sejamos o samaritano que escuta o lamento, desce e resgata
a dignidade do outro, enquanto os demais, apenas passam pelo caminho,
distraídos em sua falta de capacidade de amar e de ter Misericórdia.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Imagem: Gorta [fome], 1946 – Lilian Lucy Davidson (1879-1954). Ireland’s Great Hunger Museum, Quinnipiac University.

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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