Espremendo, o modernismo ainda tem caldo

Ligia de Medeiros

Brasília tem o título de Patrimônio Histórico da Humanidade, sua arquitetura e urbanismo são incensados pelo mundo afora. A cidade que foi erguida sem passado, sem mar, sem montanhas, sem vegetação exuberante, teria que ter a ajuda de artistas para construir a sua identidade com o uso de uma linguagem própria. A urbs a ser criada precisaria se amparar na sua iconografia, solução encontrada para que a população criasse um vínculo de pertencimento ao lugar. Participaram do projeto de Lúcio Costa e Niemeyer, outros arquitetos e artistas do porte de Burle Marx, Athos Bulcão, Ceschiatti, Bruno Giorgi, Mariane Peretti. Foi pensando nisso que os seus projetistas apostaram na arte e na arquitetura para criar laços de afeto e de reconhecimento entre os moradores com a sua cidade.

Athos Bulcão trouxe a azulejaria, material usado no Brasil-Colônia e revisitado pela arquitetura modernista brasileira que, partindo da tradição, criou uma nova estética para a nossa arquitetura – autóctone, original, e bem adaptada aos nossos costumes e padrões. E o azulejo, que nasceu nos países árabes, e, no ocidente vingou nos ibéricos, se adaptou muito bem às nossas condições climáticas, que igualmente demandavam um material que oferecesse proteção para a insolação. Alguns modernistas, os mais funcionalistas e rígidos na interpretação da linguagem, torceram o nariz pelo viés decorativo da arquitetura desenvolvida pela escola brasileira, mas o tempo mostra quem venceu, e provou que a arte e a arquitetura modernistas, aliviando as linhas ortogonais, acrescentando as curvas, cores e brasilidade, ganharam projeção e o reconhecimento dos expertos.

Os brancos volumes organizados nos amplos espaços e arquitetados em prédios, monumentos e lugares públicos receberam a arte colorida, alegre e que casava tão bem com as nossas características e cultura. Athos abriu portas para que artistas continuassem a linguagem que virou a marca da cidade.

Sendo modernista, admiradora do Athos Bulcão, e amante de Brasília, fica fácil demonstrar o caminho que percorro para desenvolver a minha estética. Abaixo, alguns exemplos aplicados na azulejaria. As referências usadas estão na própria arquitetura – seus edifícios e monumentos, nas linhas e padrões típicos da cidade, na natureza do cerrado – flora e fauna tão peculiares, e até mesmo no seu passado: Brasília, apesar dos seus 60 anos, precisa fazer um resgate da memória para não perder o vigor do caminho percorrido.

 AZULEJARIA 

Brasília, julho de 2019


Lígia de Medeiros é artista, designer, educadora e carioca.

Arte e Cultura

2 comentários Deixe um comentário

  1. Sou fã apaixonado pelas obras de Lígia, há muitos anos. Elas me trazem, curiosidade, prazer estético e uma vontade de querer sempre mais peças vinda dessa grande artista,

    Curtido por 1 pessoa

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