Rezando na janela: uma proposta feminina de oração

Renata Beltrão

Um dos principais desafios da época atual para quem se dispõe a cultivar um relacionamento mais fecundo e a sós com Deus é conseguir manter a regularidade na oração.

A proposta de quase todas as escolas espirituais é rezar todos os dias, no mesmo lugar e no mesmo horário. Ao sugerir que a oração obedeça a um horário e um local determinados, a uma métrica predefinida, os místicos e mestres da espiritualidade sabem bem que os frutos advindos serão de boa qualidade.

No entanto, na vida moderna, acumulamos muitos afazeres e nem sempre conseguimos cumprir com fidelidade o “desafio” proposto. Principalmente, nós, mulheres: precisamos de tempo para nós mesmas, para cuidar da carreira, da casa, da família, dentre outras tantas demandas.

Se você está com dificuldade de encontrar um tempo favorável para a oração, mas deseja seguir em frente na caminhada espiritual, podemos fazer mais uma tentativa para ajudá-la nesse processo. De fato, somos capazes de fazer tudo que desejamos, desde que organizemos nosso tempo para administrar melhor as nossas agendas.

A proposta é simples: a partir do planejamento semanal das atividades, estabelecer, ao longo de cada dia, quatro janelas de oportunidades, quatro momentos possíveis para fazer diariamente minha oração. A partir desse quadro geral, terei a clareza de que é preciso aproveitar, idealmente, a primeira oportunidade. Caso não me seja possível, terei ainda outras três ocasiões, o que deverá despertar em mim o compromisso de dedicar-me à oração tão logo seja possível, para que as janelas acabem por não se fechar.

Vamos combinar: assim como os dedos de nossa mão não são iguais, os dias da semana também não são. A agenda de segunda dificilmente é igual a de terça e assim por diante. Marcar nossa oração para os mesmos horários todos os dias pode ser lindo e incrivelmente pedagógico mas, para muitas de nós, pode simplesmente não funcionar.

Por isso, nossa proposta é, no início da semana, montarmos nosso planejamento:

HORA SEG TER QUA QUI SEX SÁB DOM
               
               
               
               
               

 

Escolho um dia para tirar de folga, ou melhor, para me dedicar a uma outra forma de oração, a chamada “oração extensiva”, da qual falaremos em outra oportunidade. Preencho esse meu quadro com os compromissos preestabelecidos e sinalizo quais meus momentos potenciais de oração (quatro momentos por dia). Assim ficará para mim claro que terei que fazer um deles e que, ao deixar passar a primeira janela de oportunidade, preciso me esforçar para usar a próxima ou criar outra.

O passo mais difícil é encontrar esses quatro momentos ao longo de cada dia. Como dissemos antes, somos tão atribuladas! Mas é necessário ser sincera com você mesma para perceber por que está com dificuldades de estabelecer essas janelas, uma vez que consegue desempenhar outras tantas atividades regulares em sua vida. Muitas pessoas com uma agenda mais atarefada que a nossa conseguem dedicar um tempo diário de oração. A razão? Porque de fato priorizaram esse momento a sós com Deus e consigo mesmas em suas vidas. O primeiro passo, sem dúvida, é a decisão interna.

Nesse ponto, é preciso mergulhar mais a fundo em nós mesmas e perceber a razão de nossa dificuldade. Uma possível resposta é que ainda não compreendemos, de maneira visceral, a importância da oração. Se a enxergarmos como uma obrigação do cristão ou uma tarefa a mais, entre tantas outras obrigações, dificilmente encontraremos tempo. Mas se a percebemos como aquele tempo de qualidade que dedicamos a nós mesmas, tempo que nutre nossas raízes, que dá integridade ao nosso ser, que pacífica nossa mente, que nos dá centro e foco, que recarrega nossas energias espirituais e nos capacita para lidar com nossa própria realidade, aí a oração deixa de ser uma atividade a mais e passa a ser uma dimensão constitutiva e essencial de nossa saúde psíquica e emocional. Será um tempo que nós faremos questão de nos dar, pois sem ele os outros não farão sentido, serão uma sequência de afazeres que muito nos ocuparão, mas faltará aquela perspectiva que lhes dá significado.

Entra aqui um outro ponto: o que rezar? Muitas de nós aprendemos que a oração precisa partir de um texto bíblico que nós, de tanto o ouvir nas missas, já sabemos de cor. A gente se esquece ou não aprendeu que a Bíblia foi escrita a partir da história de um povo com seu Deus. O ponto de partida é a história, é a vivência, é a relação. Por isso, é preciso rezar a própria vida, a própria realidade e não a realidade do povo hebreu. Não que a Bíblia não tenha algo a nos ensinar. Muito pelo contrário. A partir da leitura da minha realidade, lerei o texto bíblico e ali encontrarei as respostas, ou melhor, as pistas das respostas às minhas questões. Em outras palavras, a matéria da oração deve ser a própria vida, até que a vida se torne oração.

Outra perspectiva pode ajudar: a palavra oração é feita de duas partes. A primeira “ora” tem raiz no verbo latino que significa “escutar”. A segunda, tem a ver com ação. Ouvimos para saber o que fazer. Escutamos a Deus, num tempo dado a ele com exclusividade e atenção, para que saibamos o que ele quer que façamos. Ora (escuta) e ação, Marta e Maria na mesma pessoa. É por isso que Jesus exalta Maria, que se pôs aos seus pés para escutá-lo, e não o ativismo atrapalhado e frenético de Marta. Para saber o que fazer, precisamos escutar, nos conectar com nossas fontes. Só a partir daí teremos certeza do que precisamos fazer e, mais importante ainda, nossas ações e projetos terão sentido.

Outra vantagem dessa proposta é que a organização semanal ajudará você a cumprir seus outros objetivos. Ajudará também a perceber como sua vida está organizada, o que tem sido de fato prioridade. E isso será muito revelador. Somos nós que temos de ser senhoras de nosso tempo e não o contrário. Estabelecer para nós mesmas ao longo do dia tempos e oportunidades de oração significa que estamos de fato priorizando nossa vida interior, alimentando nosso espírito, o que nos pacificará e ajudará a lidarmos com o restante de nossa agenda de maneira mais integrada, harmoniosa e equilibrada.

Não se preocupe se nesses encontros a oração for “mal feita”, árida ou não aparentar frutos. O tempo passado a sós com Deus nunca é perdido. Já dizia Santa Tereza: “A pior oração é aquela que não é feita”. Aos poucos, esses momentos se tornarão mais saborosos e você mesma perceberá que não poderá passar um dia sequer sem eles.

Agora é com você. O primeiro passo sem dúvida é o mais difícil. E o mais necessário. Oferecemos aqui uma proposta válida de crescimento pessoal que, temos certeza, está ao seu alcance.

Ao organizar seus horários e estabelecer oportunidades diárias para a oração, tenha a certeza de uma coisa: Deus mesmo estará te esperando na janela.

Espiritualidade Informes

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