Jesus, o sem-teto

Osmar C. A. Ferreira

O DIA MUNDIAL DOS POBRES — instituído no encerramento do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, pelo Papa Francisco, em 2016 deseja, na expressão do Papa, favorecer uma atenção crescente às necessidades dos últimos, dos marginalizados, dos que têm fome. O momento litúrgico no qual o Bispo de Roma inseriu o Dia Mundial dos Pobres é provocativo: um domingo antes de Cristo Rei. Um Rei sem-teto.

Em íntima sintonia com o espírito dessa celebração, o escultor canadense Timothy Schmalz, concebeu e realizou em 2013 a instalação Jesus the homeless (Jesus, o sem-teto), escultura em bronze, de uma pessoa deitada num banco de praça, envolta num cobertor, com os pés descobertos, revelando os estigmas do Crucificado. A primeira instalação deu-se no Regis College, instituto de teologia dos jesuítas, em Toronto. Réplicas dessa obra estão presentes em diversas cidades do mundo. A imagem doada ao Papa Francisco, em 2016, foi instalada na entrada da Esmolaria Apostólica, no Vaticano. No Rio de Janeiro, sua inauguração ocorre nesse II Dia Mundial dos Pobres (2018), na Catedral Metropolitana.

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Jesus sem-teto (Cafarnaum, Israel). Foto: Regina Carvalho, 2018.

Timothy Schmalz, com sua obra de arte,  nos recorda que o encontro com o Rei se dá por meio do acolhimento dos últimos, dos marginalizados, dos que têm fome:

Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estive na prisão, e foste me ver. (Mateus 25,34-45).

Tradicionalmente denominam-se essas atitudes como obras de misericórdia corporal; poderiam também ser chamadas de coerentes atitudes evangélicas. Acolher, socorrer, proteger, nutrir, fortalecer, consolar os vulneráveis são exigências éticas de uma força maior que – no mais das vezes – chamamos de amor. Sem amor não seremos capazes de desvelar as chagas do Amado sob o cobertor.

Inácio de Loyola, nos Exercícios Espirituais,  propõe a meditação do Rei Eterno (EE 95-100) imediatamente antes da contemplação da Encarnação (EE 101-109). Só se compreende o chamado do Rei Eterno, a partir da contemplação da Encarnação, e vice-versa. Sua realeza e sua encarnação são consequências do amor incondicional que a Trindade derrama sobre nós (EE 102).

Esse amor, faz ecoar em nós três pequenas e insistentes perguntas (EE 53):

O que tenho feito por Cristo?
O que faço por Cristo?
O que devo fazer por Cristo?

Não são perguntas de acusação. São convites para ingressar numa dinâmica nova; num projeto novo e empolgante: seguir com Ele.

Jesus the Homeless atualiza para nós a expressão de Paulo aos coríntios ao referir-se a Cristo crucificado como escândalo e loucura. O impacto emocional da cruz parece ter se diluído em nossas piedosas devoções. A tortura sofrida pelo Nazareno, no percurso de sua paixão e morte, já não incomoda nossa sensibilidade embrutecida. A ideia-Jesus ficou etérea, desbotada e desencarnada.

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Jesus sem-teto (Rio de Janeiro, RJ). Foto: Lindalva Ferreira, 2018.

Um Cristo Rei é mais charmoso do que um mendigo sem casa, sem porvir. Mas a arte nos incomoda com a sua insistente provocação: Não encontrarás o Rei Eterno se não acolheres os últimos, os marginalizados, os que têm fome.

Diante da imagem de Jesus, o sem-teto, contemplando suas chagas, percebemos que é o Ressuscitado que está diante de nós, e pedimos que Ele socorra nossa fragilidade e perguntamos:

O que fiz ao Rei Eterno?
O que faço ao Crucificado?
O que farei a Jesus sem-teto?


Osmar Ferreira é bibliotecário, membro da Comunidade de Vida Cristã (CVX).

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Sou bibliotecário desde 1985. Nasci em Belém do Pará, moro em Brasília.

3 comentários Deixe um comentário

  1. Que bom texto.
    Amanhã será mais um belo momento para reflexão.
    Tantos sem teto, nesta cidade maravilhosa , mais um ocupará um banco de praça. Jesus o sem teto, despertará, o olhar atento, o questionamento consciente? Esperemos que sim.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Bom dia!
    Só li hoje… Obrigada por nós ajudar a refletir!
    É verdade que a cruz de Cristo parece ter perdido seu real significado e se tornado uma devoção piedosa… Oxalá essa obra nos acorde e retomemos o que fiz, que faço, que farei por Cristo…

    Curtido por 1 pessoa

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