As três condições para entrar no Reino de Deus

Santo Oscar Romero

Queridos irmãos:

Introdução

A segunda leitura que ouvimos hoje descreve a verdadeira atitude de um cristão que vai à Missa no domingo. É uma carta aos cristãos que tinham se convertido do judaísmo, mas que, na hora da perseguição, e sentindo saudades de sua antiga religião judaica, estavam em grave perigo de abandonar sua fé. É a estes a quem se endereça esta carta, cujos capítulos 3 e 4 seriam uma bela leitura para este tempo dos cristãos salvadorenhos.

Os capítulos 3 e 4 (Hebreus) comparam a peregrinação no deserto… o caminho da libertação para o “Descanso”.

O autor da carta remonta às origens do povo hebreu, quando Moisés os tirou do Egito; durante quarenta anos tiveram que atravessar o deserto para chegar à Terra Prometida. Esse episódio de Êxodo também serviu, no Antigo Testamento, como uma motivação para a esperança quando os israelitas foram deportados para outro exílio: a Babilônia. Os profetas lembravam do prodígio de Deus que os tirara do Egito, que eles tiveram confiança de que um novo Êxodo da Babilônia para uma Terra Santa. Oscar Romero - Cartaz na UCA

Essa mesma comparação é a usada por São Paulo nesses dois capítulos, mas não mais se referindo ao povo judeu, mas aos judeus que já se converteram – como nós – ao cristianismo. Ele diz: “Tudo isso era apenas uma alegoria: a libertação do Egito, caminhar no deserto, chegar ao Descanso do Senhor”. Este era o nome da Terra Prometida: o Descanso do Senhor! É uma alegoria dessa libertação que o povo cristão está lutando para obter do pecado. A longa peregrinação pelo deserto é a nossa vida, onde há muitas tentações contra a fidelidade, contra a confiança, contra o poder de Deus. Lembra quando, junto às rochas do deserto, eles estavam com sede e estavam rebelando-se contra Moisés porque ele os havia tirado do Egito? Foi uma hora difícil na peregrinação e é por isso que esse lugar foi chamado de “Lugar da Tentação”. No entanto, Deus fez maravilhas, fez a água fluir da rocha e continuou a peregrinação.

Sentido de “Descanso”… “Dia do Senhor”

Nosso descanso não é a Terra Prometida, o nosso descanso é o céu, o santuário onde este novo Moisés, Jesus, entrou com toda redenção abrindo a porta para todos aqueles que desejam ser salvos.

Nem todo mundo entrou

Mas, assim como os peregrinos do deserto, nem todos chegaram à Terra do Descanso. Por causa de seus pecados, Deus condenou à morte muitos israelitas que saíram do Egito e não tiveram a alegria de alcançar o destino da peregrinação.

Só entraram aqueles que acreditaram e perseveraram

Mas aqueles que tiveram fé e aqueles que nasceram no deserto durante os quarenta anos e se associaram àquele povo de fé e de esperança na promessa de Deus chegaram ao Descanso.

Então, a Carta aos Hebreus nos lembra um Salmo que comemora este fato e diz: “Se hoje vocês ouvirem a voz do Senhor, não endureçam os seus corações!” É aqui que se encaixa esta passagem que se leu, o que nos diz isso. “A Palavra de Deus é viva e eficaz, mais cortante do que a espada de dois gumes e penetra até a divisão da alma e do espírito. Juntas e medulas são divididas. Julga os desejos e as intenções do coração. Nada está oculto, tudo é patente e descoberto aos olhos daquele a quem teremos que prestar contas”.

Com esta motivação, São Paulo quer encorajar os cristãos a não esmorecer na fé, porque a Palavra que Deus vai nos alimentando, de domingo a domingo e sempre que a refletirmos em família ou em comunidade, a Sagrada Escritura é a Palavra que alimenta, é a Palavra que julga, é a Palavra como espada que penetra na intimidade do coração, até onde alma e espírito se distinguem.

Essa é uma distinção muito discutida na Bíblia, mas parece que quer dizer: se o homem não é apenas corpo e alma, mas essa alma, parte espiritual do homem, se abre em uma capacidade de receber um Novo Espírito: a Vida Divina de Deus. Então, até lá essa Palavra penetra, precisamente para preencher essa potencialidade do homem que só Deus pode preencher.

Assim, a Carta aos Hebreus convida os cristãos, não só os judeus, mas também nós, convertidos a esta fé, a tornar nossa Missa dominical verdadeiramente em um dia de alimento em nossa vida espiritual. Hoje, esta exortação tem um grande apelo: Dia do Senhor, Dia de Descanso, é como uma alegoria que olha para a longa história de trabalho humano para dizer-lhes o grande Descanso que os espera. Cada domingo, quando viermos à Missa, sintamos que a peregrinação do nosso deserto se detém junto às fontes da Palavra e nos alimenta! Vamos nos alimentar para que a semana que começa nos encontre otimistas e animados!

Atualidade… Eficácia… Profundidade

Que ninguém permaneça na peregrinação do deserto, que ninguém vá abandonar a confiança no Senhor. Assim chegamos àquele Deus que nos fala no diálogo da Palavra Divina durante nossa Liturgia da Palavra até o dia em que sua Palavra Viva, penetrando no mais profundo de nossas intenções nos julgue e nos dê um lugar em seu Descanso Eterno. Que não sejamos excluídos do resto, que não estejamos entre aqueles que morreram no deserto e não alcançaram a Terra Prometida.

Esta é a minha grande peregrinação como pastor e é nisso que vocês me animam com a sua atenção, com a sua perseverança, com o desejo de ir nos alimentando – vocês e eu – dessas Palavras Divinas. Assim, prestamos homenagem, hoje, à segunda leitura e com essa fé na Palavra de Deus e a confiança para sermos sempre fiéis apesar das tentações e perseguições, das lisonjas ou dificuldades do mundo, procuramos, hoje, estudar um problema de muita atualidade, focalizando o Evangelho e a Primeira Leitura

O problema deste domingo… atualidade para a crise do país.

O problema muito atual que acredito ser a causa da crise do nosso país – como já apontamos tantas vezes – é um problema de hierarquia de valores. Há aqueles que dão valor absoluto às riquezas, à propriedade, ao poder político, às coisas da terra. Em vez disso, hoje, Cristo nos ensina que o único valor absoluto é Deus e seu seguimento.

Portanto, na minha Quarta Carta Pastoral, digo que, entre os serviços que a Igreja oferece hoje à crise de El Salvador, está esta grande contribuição: denunciar as idolatrias da nossa sociedade, relativizar o que muitos adoram como ídolos e como absoluto. Essa é a Palavra de Cristo hoje: remover um grande obstáculo para implantar o Reino de Deus!

Se aqui se prega, queridos irmãos, com toda a clareza que, certamente dói aos idólatras das coisas da terra, não é para fazer mal, nem fazer demagogia: é porque Cristo nos ordena, pregadores, para proclamar o verdadeiro Reino de Deus entre os homens, e para denunciar todo pecado que se oponha ao Reino de Deus… É para isso que nos chama hoje a Missa desse domingo, quando, em suas leituras, podemos encontrar como tema de nossa reflexão esse trio:

AS TRÊS CONDIÇÕES PARA ENTRAR NO REINO DE DEUS *

  1. Cumprir os mandamentos
  2. Espírito de pobreza e desprendimento
  3. Seguimento de Jesus (o principal)

Aqui sintetizo a Palavra Divina; e tomara que eu, primeiro, e vocês, comigo, nos convertamos verdadeiramente ao Reino de Deus. E em meio a tanta ninharia que nos faz perder a perspectiva do Divino, não nos percamos, mas saibamos colocar tudo o que o mundo considera como absoluto, como grande valor como o topo da hierarquia de interesses, em seu devido lugar: não como ídolos para adorá-los, mas como servos do homem para alcançar o Reino de Deus.

Catedral de San Salvador, 14 de outubro de 1979.

 

(*) segundo a passagem do jovem rico – Mc 10, 17-30 – nota do tradutor.

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XXVIII Domingo do Tempo Comum – Ano B
Das homilias de Oscar Romero
Tradução de Dalmo Coelho.


Dom Oscar Romero (1917 – 1980), foi arcebispo de San Salvador no período de 1977 a 1980, foi canonizado pelo Papa Francisco no dia 14 de outubro de 2018.

Comentário ao Evangelho Espiritualidade Igreja Justiça e Paz

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