São Romero da América, pastor e mártir nosso

Dalmo Coelho

San Romero de América,
pastor y mártir nuestro:

¡nadie hará callar tu última homilía!¹

 

Amanhã — 14 de outubro de 2018 — o Papa Francisco canonizará, em Roma, uma figura proeminente da história da Igreja Latino-americana: Oscar Romero foi Arcebispo de El Salvador e caminhou, humilde, manso e sincero, por essas terras em meados do século XX, época de grandes crises e de grandes esperanças. Santo do nosso tempo, seguiu a tradição cristã e a orientação do Espírito: não se calou ante a injustiça e a violência que oprimiam seu povo.icone romero

Nasceu Oscar Arnulfo Romero, em Ciudad Barrios, a 15 de agosto de 1917. Era tímido, solícito e contido; gostava de comer “tortillas con frijoles” sob a sombra de uma árvore. Foi ordenado sacerdote em 4 de abril de 1942 e logo nomeado para atuar junto à cúria de San Salvador, chegou a fazer os 30 dias dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. Dizem que nunca recusava um convite para celebrar: era um sacerdote dedicado, inteligente e muito devoto.

Foi nomeado bispo em 25 de abril de 1970. Atuou primeiro na capital, depois se mudou para Santiago de María, uma cidade interiorana no alto de uma montanha. À noite, via os trabalhadores temporários do café dormir nas ruas e tiritar de frio: abriu, então, as portas de uma velha escola da diocese para acolher aquelas pessoas e oferecia-lhes sopa quente. Passava horas conversando sobre as suas vidas e os problemas que enfrentavam e, aos poucos, com a experiência prática, foi percebendo as contradições que existiam no seu país.

Por fim, com a aposentadoria do arcebispo salvadorenho, seu nome superou alguns favoritos devido a conversas do clero com algumas famílias ricas e com setores do exército (que dominava a política àquela época): diziam “Romero é um dos nossos!”. Era de perfil conservador, via com reserva algumas resoluções da Conferência de Medellín (1968), mas tinha diálogo tanto com os jesuítas quanto com o Opus Dei. Foi nomeado arcebispo por Paulo VI em 3 de fevereiro de 1977.

Uma vez foi perguntado sobre as razões de sua mudança de posição: como passou de alguém identificado com a burocracia e com as elites para um bispo ao lado dos pobres? Ele respondeu: “Nasci em uma família pobre. Passei fome (…) Quando fui para o seminário (…) comecei a esquecer minhas origens (…) Comecei a criar um outro mundo (…) Quando fui para Santiago de María e deparei-me novamente com a extrema pobreza (…) Quando vi Rutilio morto (…) voltei uma vez mais para casa”. Ainda segundo ele, “foi uma evolução, não uma conversão”.

A maioria dos biógrafos concorda que o passo decisivo dessa mudança foi dado quando do assassinato do seu amigo de longa data, padre Rutilio Grande, que teve o jipe metralhado numa emboscada enquanto dava carona a um ancião e um adolescente. No meio das exéquias, celebrada pelo arcebispo, uma paroquiana amiga de padre Grande comentou: “parecia que as palavras de padre Rutilio tinham passado para Dom Romero!”. Talvez ele tenha testemunhado aquilo que Santo Agostinho dizia sobre como deve caminhar a Igreja fiel a Cristo: “entre as perseguições dos inimigos e as consolações de Deus”.

Declarou que só participaria de atos públicos do governo quando aquele assassinato fosse investigado, algo que nunca ocorreu, mas não recusava diálogos privados com membros do governo e do exército. Sempre aproveitava para denunciar a tortura e o desaparecimento de agentes de pastoral, de religiosas e de padres. Abriu-se para a Conferência de Medellín: com base nela e na realidade política, escreveu quatro Cartas Pastorais orientando o “agir” da diocese. Suas homilias dominicais eram ouvidas por dezenas de milhares de pessoas e eram constantemente interrompidas por aplausos²… sua veia profética o consagrou como “microfone de Deus”.

Martin Maier, jesuíta, via algumas semelhanças entre a vida de Romero e a vida de Jesus: ambos nasceram em meio à pobreza, na província de um país pequeno, viveram em profunda intimidade com Deus e rezavam à noite. Aprenderam o ofício de carpinteiro e o assassinato de um bom amigo tornou-se uma circunstância decisiva em suas vidas. Tornaram-se figuras públicas anunciando o Reino de Deus e o amor entre as pessoas. Tomaram o lado dos empobrecidos, tiveram conflitos com grupos das elites locais e a vida pública de ambos durou apenas 3 anos.

E assim, no dia 24 de março de 1980 (uma segunda-feira), em plena celebração quaresmal com pacientes terminais, enquanto elevava o vinho em oferta no altar do Senhor, ofereceu também a própria vida. Um atirador contratado o fitou e o alvejou  à altura do coração. A bala de fragmentação se espalhou pelo peito e de pouco adiantaram os esforços das irmãs e dos pacientes que rezavam com ele. À notícia do assassinato, nos bairros nobres da capital, fogos e buzinas foram ouvidos.

A túnica e a camisa com a marca da bala e manchadas de sangue até hoje são expostas no memorial constituído no Hospital da Divina Providência, local simples e em meio aos sofredores, com os quais fez a opção definitiva. A pequena Igreja salvadorenha comprovou na prática que “o sangue dos mártires é a semente de novos cristãos”. Mais tarde, Romero foi homenageado com uma imagem na fachada da Abadia de Westminster (20 mártires do século XX), teve sua vida registrada em filmes³ e, há poucos anos, durante a missa por sua beatificação, em El Salvador, um fenômeno meteorológico raro brindou a multidão presente: um halo colorido se formou ao redor do sol – seria um sinal dos céus?

 


Dalmo Coelho é engenheiro, peregrino e grapiúna

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Notas

¹ Em El Salvador, quando se fala de Brasil, logo lhe perguntam de samba, de Pelé e de… Casaldáliga. Ele, D. Pedro Casaldáliga, nos anos 80, pré-canonizou Monsenhor Romero em sua bela poesia San Romero de América, Pastor y Mártir nuestro.

² O Arcebispo costumava dizer que “é muito fácil fazer homilias genéricas, sem tocar em fatos concretos, mas as palavras soariam vazias (…) é muito fácil falar sem tocar em problemas concretos: não incomoda ninguém e não muda nada”

³ Há diversos documentários e filmes sobre a história de Romero: entre eles Romero (1989), dirigido por John Duigan com Raul Julia no papel principal.

Hagiografia Igreja Justiça e Paz

1 comentário Deixe um comentário

  1. Romero , mártire de uma época que a defesa dos pobres na América Latina foi para muitos receber sentenca de pena de morte para .
    infelizmente no terceiro milênio ainda se mantém esta barbárie .

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