Qual o papel histórico do Papa Paulo VI?

D. Paulo Evaristo Arns *

Paulo VI começou suas atividades como Pastor supremo em pleno Concílio Ecumênico Vaticano II. Por isso mesmo, em primeiro lugar, lhe agradecemos de o Concílio ter sido levado a bom termo, porque ele, o Papa Paulo VI, assim o quis.

Quatro quintos do Concílio foram obra e orientação dele. Trabalho do mundo inteiro, claro, mas sob orientação dele. Depois, levou às últimas consequências este Concílio, quer dizer, aplicou as reformas concretas propostas pelos bispos do mundo inteiro.

Aliás, conviria lembrar a primeira mensagem do Papa Paulo VI, para avaliá-la hoje, após quinze anos. São cinco pontos. Deixem que eu os enumere. Reli, há pouco, essa mensagem:

  1. O Papa promete que há de empenhar-se pela paz em seu sentido pleno.
  2. Também pela união dos cristãos, como já o fizera João XXIII.
  3. Pela justiça social, no seu sentido profundo.
  4. Pela adaptação do Direito eclesiástico, quer dizer, da nova organização da Igreja para tempos mais exigentes, como são os nossos.
  5. Chegar àquilo que eu dissera acima, ou seja, assumir o Concílio com todas as suas consequências.

Vocês também gostariam de saber os pontos que mereceriam realce, não é mesmo? Vou indicar três aqui, embora seja difícil resumir.

  1. O diálogo com o mundo. Já durante o Concílio, saiu aquela Encíclica chamada Ecclesiam Suam, que fala sobre o diálogo interno na Igreja e o diálogo com o mundo. Creio que este foi o momento decisivo de todo o pontificado de Paulo VI e talvez de toda a ação da Igreja, daqui para o. Quem dialoga não impõe. Quem dialoga troca ideias e está sempre em contato, verifica, cresce com aquele com quem fala, afinal, estabelece no mundo a comunicação, que Jesus estabeleceu da parte de Deus.
  2. Depois, nada que nos impressione mais do que essa defesa intransigente da paz. Instituiu Paulo VI um “Dia Mundial da Paz”, logo no 1º dia do ano, e com mensagens cada vez mais empolgantes, mais decisivas. Também com conteúdo prático. Essas mensagens têm sido entendidas por todos os povos, inclusive árabes, hindus e outros. Parece-me que aí está um dos grandes méritos do Papa para o nosso tempo: a defesa da paz, mas não uma paz parada, e sim uma paz que signifique desenvolvimento, quer dizer, progresso de todos. Paz jovem e dinâmica. E, como ele nos diz, essa paz é possível. O Papa nos faz crer na paz.
  3. Não estranhem que eu diga assim: o Papa se empenhou realmente na defesa dos direitos humanos e de uma maneira muito ampla. Em primeiro lugar, contra o consumo, ou o simples prazer. A vida egoística. Depois, contra a tecnocracia, que oprime o homem e não deixa que os valores espirituais e morais tenham a primazia na convivência. Também contra os regimes de opressão e todas as formas de opressão. Quem reparou naquela porta de bronze inaugurada em 1977 na Basílica de São Pedro do Vaticano, chamada Porta do Bem e do Mal [1]? Estão aí as diversas formas de tortura. Tortura de que todos nós já ouvimos falar, até mesmo recentemente. Estão aí, gravadas no bronze. Do outro lado, as pessoas que defendem a humanidade, que lutam pelos pobres, que sofrem com os que sofrem.

Afinal, quando o Papa se propunha, no início de seu Pontificado, estar sempre ao lado daqueles que sofrem, já se antevia um grande programa.

Enfim, o que mudou mesmo, foi que o Papa nos levou a unir vontades, a aproximar espíritos, a soldar corações, como ele próprio dizia na Populorum Progressio. Oxalá consiga ele, ainda, nesse tempo que lhe resta, reduzir mais e mais as desigualdades, continuar combatendo as discriminações, libertar o homem da opressão, tornando-o assim capaz de ser o agente responsável do bem-estar material, do progresso moral e do desenvolvimento espiritual, como diz a Populorum Progressio, § 34:

Porque, qualquer programa feito para aumentar a produção não tem, afinal, razão de ser senão colocado ao serviço da pessoa. Deve reduzir desigualdades, combater discriminações, libertar o homem da servidão, torná-lo capaz de, por si próprio, ser o agente responsável do seu bem-estar material, progresso moral e desenvolvimento espiritual.

 

 


* Dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016) foi arcebispo de São Paulo. Sua atuação pastoral foi marcada por especial orientação em favor do povo da periferia, do mundo do trabalho, da formação de comunidades de base nos bairros e da defesa e promoção dos direitos da pessoa humana.

O texto acima é transcrito de:
ARNS, Paulo Evaristo. Em defesa dos direitos humanos: encontro com o repórter. Rio de Janeiro: Brasília/Rio, 1978. 223 p. p. 56-57.

 

[1] La Porta del bene e del male, Luciano Minguzzi (1911-2004).

Igreja

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