O que se espera da mulher católica nas próximas eleições
Pe. Paulo Lisbôa, SJ
Nas semanas passadas, mais exatamente no dia 18 de setembro, a Liturgia diária indicava o texto de Lc 8, 1-13 como ajuda para a participação na Celebração Eucarística. Os versículos são de certo modo inovadores para aquela época em que Jesus aparecia ensinando ao povo. Lucas agrega à longa apresentação de uma doutrina nova (Lc 4-14-9,50) a presença de mulheres que com os Doze o ajudavam, até materialmente, no anúncio do Reino de Deus. Fato por demais estranho, já que acontece numa sociedade que se dizia religiosa, mesmo que excluindo, ignorando, rejeitando e desrespeitando as mulheres.
Ao pensar e rezar sobre o significado da extensão temporal da maneira sem precedentes de Jesus ser acompanhado por mulheres nas suas viagens apostólicas, veio-me um movimento interior de escrever algo particular e próprio sobre o tema delicado da questão de gênero, especialmente em nosso ambiente eclesial católico. As linhas que seguem são o resultado dessa minha interiorização dos versículos lucanos acima lembrados.
Não posso, porém, deixar de antes de escrever qualquer coisa a respeito do que me propus nesta crônica, preciso manifestar minha admiração em ter percebido a coincidência ou continuidade daquele movimento sentido, com a leitura que fiz quase a seguir, de uma reportagem de Andrea Minsart, publicada por El País de 17/09/26 e que Notícias do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) reproduziu no dia 18 de setembro último. O título que IHU traz contém um questionamento para a sociedade atual: “Segundo a ONU, as mulheres estão perdendo poder em um mundo cada vez mais hostil à igualdade”.
Eu coloco essa questão especialmente para os fiéis católicos praticantes, às vésperas das Eleições majoritárias. Está comprovado por sérias estatísticas que as mulheres brasileiras são a maioria do eleitorado no país. Elas representam 52,84% do eleitorado que pode votar, ganhando do masculino que chega a 47,16%. E, por estranho que possa parecer, elas até hoje não estão conseguindo se aproximar de uma IGUALDADE com os homens em cargos públicos de comando. Por isso, as próximas eleições que se aproximam são mais uma oportunidade para que brasileiras e brasileiros votem com mais consciência cristã e sabendo que é possível uma modificação nesse placar eleitoral tão injusto.
Na presente crônica, sem querer ser um marqueteiro, desejo ser apenas a lembrança banal de que a escolha de candidatos para cargos públicos de poder, têm que levar em conta essa questão da justa paridade de gêneros, colocada acima. Sem entrar em questões de capacitação e merecimento, eu apresento aquilo que, como sacerdote, julgo ser o argumento mais forte para todo cristão: o ensinamento claro de Jesus e a sua prática política, até hoje não bem compreendida.
O relato lucano das discípulas que seguiam em paridade com os Doze (Lc 8,1-3) é paradigmático. Ele fala muito simplesmente da atitude constante de Jesus nos seus três anos de ensino público sobre a novidade de um “Reino” que valoriza as qualidades femininas, enquanto estas favorecem e completam o que é próprio do masculino. Quanto a este ponto, trago um pormenor que eu soube ultimamente. Uma teóloga católica, Philis Zagano, desde muitos anos pesquisadora da questão de gênero e que até foi uma das escolhidas pelo papa Francisco para compor a Comissão vaticana que estudava a questão do diaconato feminino, ela fez a seguinte afirmação: “Não apenas os cristãos, mas qualquer pessoa no mundo pode apontar para a Igreja Católica e dizer que as mulheres são pessoas de segunda classe e não merecem o mesmo respeito que os homens”.
A meu ver, a teóloga estava querendo fazer uma chocante constatação da realidade, ao dizer que também nós homens católicos ainda temos a tendência enraizada de um machismo muito comum e antropológico. Eu penso que tal constatação é uma ilustração muito atual do que uma mulher sente quando é desrespeitada e colocada de escanteio. E no nosso meio católico isso se torna uma ofensa ao Deus de Jesus Cristo, Criador e Senhor de todos, sem as distorcidas distinções de gênero.
Por tudo que eu procurei apresentar acima e compreendendo melhor a validade desse modo de proceder de Jesus ao acolher mulheres no seu séquito mais próximo, penso que posso indicar a seguir um processo seletivo, para a sua escolha nas próximas eleições. É então uma espécie de “discernimento espiritual inaciano”. Trata-se de dar um tempo maior à graça iluminadora do Espírito Santo, deixando que ela oriente seus passos para a escolha de candidatas a deputadas estaduais e federais e senadoras. Seis passos progressivos podem ser dados nesse trabalho introspectivo:
- Peça a graça ao Espírito Santo que liberte você de preconceitos.
- Pergunte-se onde esta mulher candidata coloca sua intenção política: no serviço para o bem da gente mais pobre ou para garantir uma posição social de maior segurança e poder?
- Complete esse 2º passo, escrevendo uma pequena lista de possíveis qualidades e defeitos que conhece dela, em termos de cuidados familiares femininos. Veja sua responsabilidade.
- Tente chegar a um perfil positivo dela e faça uma pausa de algumas horas para perceber melhor porque ela seria merecedora de seu voto.
- Ao retomar o trabalho mais introspectivo, retomando os quatro pontos acima diante do Senhor eu entrego a pessoa em questão, com a esperança de que Ele confirme essa mulher ao cargo.
- O último passo é você deixar-se confirmar, sentindo internamente a alegria espiritual, num agradecimento e entrega do resultado.
É claro que para esse processo há necessidade que você reserve um bom tempo, quanto possível longe das ocupações diárias estressantes. Também é importante que eu esclareça que esse meio do discernimento espiritual não é exclusivo para a escolha só das mulheres, é de muita eficácia também para a escolha dos candidatos homens. Realizando esse processo com boa vontade cristã, certamente você se certificará de sua eficácia espiritual, para a glória de Deus e de seu povo. Lembrar o “Sois o sal da terra e a luz do mundo…” em Mt 5, 13-16.
O meu objetivo com a presente crônica foi a de colaborar de certo modo, com as próximas eleições, mesmo abstendo-me de votar, por causa da idade avançada. O que posso então realizar é acompanhá-los em espírito nessa nova esperança que há no meio católico de um crescimento quantitativo-qualificativo de mulheres mais sintonizadas com as propostas da Doutrina Social da Igreja Católica neste nosso país. Ultimamente a presidência da CNBB em mensagem aos brasileiros e brasileiras publicada no dia 10 de setembro último, lembrou a beleza cívico-religiosa da boa votação ao afirmar: “É dever preservar as condições necessárias para eleições livres, serenas e confiáveis e para que haja o respeito à vontade soberana do povo brasileiro.
Desejo-lhe de coração esse augúrio episcopal, como um sinal a mais de que nosso Senhor quer a felicidade de seus filhos e filhas acima de tudo,
22 de setembro de 2026
IHS
Pe. Paulo Lisboa, SJ é licenciado em Letras e bacharel em Filosofia e em Teologia, é sacerdote jesuíta com grande experiência na formação de jovens jesuítas e na orientação dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE).
Imagem: Ateliê 15
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
