Eleição 2026: polarização, Trump e o risco à soberania brasileira

A natureza do confronto eleitoral (2026)
adicionado ao condimento externo à moda Trump

O lançamento de duas candidaturas presidenciais disputando o mesmo campo ideológico – Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD), tendo por adversário provável o candidato à reeleição – Presidente Lula-; tenta capturar um sentimento eleitoral difuso e também algo confuso ao estilo – Oposição X “mais do mesmo”. Mas a única coisa mais ou menos segura ora desenhada pela conjuntura eleitoral é a forte probabilidade de que eleição principal não se resolveria no primeiro turno. Deverá sim polarizar para o 2º turno, com muitas das características da eleição presidencial de outubro de 2022 entre Lula e Bolsonaro.

Por seu turno, se há por um lado no processo eleitoral o desgaste real ou fabricado da imagem situacionista na linha do “mais do mesmo”, tendo em vista as notórias limitações de um governo de coalizão cujo partido ou coligação majoritários é um não partido chamado Centrão; do lado da Oposição não há como não colar a etiqueta da extrema direita, condimentada pelas suas notórias ligações externas com o governo Trump. Portanto, o 2º turno da eleição principal brasileira seria ultra polarizado, seja o candidato da oposição pintado de ‘Flávio’ ou caiado de Ronaldo, para enfrentar o candidato da situação.

Por outro lado, o condimento do governo Trump apoiando ou sendo apoiado pela extrema direita brasileira, algo que já ficou explícito nas iniciativas e declarações de Flávio Bolsonaro nesta fase preliminar da campanha eleitoral sobre direcionamento de ‘terras raras’ brasileiras, condiciona fortemente nosso processo eleitoral ao tema da soberania nacional. Isto tudo, agravado pelo comportamento externo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, influenciador de diversas e desastrosas intervenções do governo Trump no Judiciário brasileiro em 2024.

Candidaturas ao estilo terceira via no primeiro turno ainda podem aparecer, a exemplo do governador do Rio Grande do Sul (Eduardo Leite do PSD) ou das várias dissidências partidárias inconformadas com a decantada ‘polarização’;  ou ainda dos críticos às limitações do arranjo programático que ora se desenha nas duas correntes ideológicas principais. Mas por ora, faltam eleitores dispostos a apostar numa 3ª via, robusta o suficiente para chegar ao 2º turno.

Diferentemente do cenário eleitoral que aparentemente ora se conforma, a problemática política evidenciada neste quadriênio do Governo Lula, bem como do governo anterior, que pretende confrontá-lo no imaginário eleitoral; é muito mais complexa e grave.

Há crises institucionais recorrentes à governabilidade do Executivo pelo ultra ativismo orçamentário do Congresso, de caráter corporativo. E o Judiciário ultra solicitado a intervir, também padece de hipertrofia e outros problemas institucionais, questões plenamente sanáveis por reforma do Judiciário

Por sua vez o Poder Executivo cativo de hegemonia privadas do sistema financeiro e da economia do agronegócio é objeto de manipulação em suas finanças públicas e também da incapacidade de promover Reforma Tributária. Tal situação restringe políticas públicas em prol da igualdade social e da transição ecológica, a exemplo do Sistema de Seguridade Social e da política agrária. A chamada ‘pátria financeira’, como bem o demonstrou o caso do Banco Master, evidencia no particular como também no geral – sérias anomalias regulatórias que demandariam reformas estruturais do sistema de finanças públicas.

Mas todas estas problemáticas complexas de caráter político institucional e socioeconômico, com âncora clara no perfil distributivo da economia estão a requerer reformas estruturais em profundidade, sob pena de conduzir o País a ingovernabilidade completa já na próxima década. Por ora ainda não entraram nas agendas político-eleitorais. Mas são questões reais da vida política e social, que de alguma forma irão comparecer ao debate político de 2026. Resta saber como se explicitação essas questões incômodas, traduzidas à percepção popular (fila do SUS, grilagem de terras públicas, crises climáticas etc.) e como programaticamente serão sintonizadas no processo eleitoral.


Guilherme Delgado é doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (1984), atuando principalmente nos seguintes temas: agricultura, política agrícola, política social, previdência social e previdência rural.

Imagem: Tikashi Fukushima (1920-2001) — Vento e mar, 1960. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

Guilherme Delgado Política

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