Verdadeira conversão — Lc 5,27-32

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Lc 5,27-32. Jesus encontra Levi sentado na coletoria de impostos e o chama para segui-lo. Levi, sem hesitar, levanta-se, deixa tudo e passa a ser seu discípulo. Em seguida, oferece um grande banquete em sua casa, reunindo outros cobradores de impostos e diversas pessoas consideradas “pecadoras”.

Esse gesto provoca escândalo. Os fariseus e mestres da Lei murmuram e questionam: por que Jesus come com publicanos e pecadores? Segundo a interpretação rigorosa da Torá, essas pessoas eram vistas como impuras, indignas de convivência religiosa.

Mas Jesus responde com palavras que revelam o coração de sua missão: “Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores para a conversão.”

No texto original em grego, a palavra “pecado” carrega o sentido de “errar o alvo”. Já “conversão” é metanoia, isto é, mudança de mentalidade, transformação do olhar e da atitude diante da vida. Assim, Jesus não condena; Ele convida. Convida aqueles que estavam “errando o alvo” – vivendo segundo a lógica da opressão, do poder e da exclusão – a reencontrarem o verdadeiro sentido da vida no Reino de Deus. Converter-se é acertar o alvo: é alinhar o coração ao projeto divino de justiça, misericórdia e fraternidade.

O próprio nome “Levi”, de origem hebraica, que quer dizer “meu coração”, pode ser associado ao vínculo profundo ao projeto divino. Podemos contemplar essa cena imaginando que Levi abre o coração ao chamado de Jesus. Aquele que era visto como impuro e excluído torna-se discípulo. Isso nos revela algo essencial: Jesus vai ao encontro dos que estão à margem. Ele não espera que estejam perfeitos; aproxima-se porque sabe que muitos dos excluídos têm o coração aberto para acolher o Reino.

A Campanha da Fraternidade deste ano também nos chama à conversão. Inspirada nas palavras do prólogo do Evangelho de João – “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) – recorda-nos que Deus armou sua tenda no meio da humanidade. Se Deus veio habitar entre nós, então toda pessoa faz parte do plano de Deus e precisa viver com dignidade. Fé e compromisso social caminham juntos. Lutar por justiça e dignidade, é tornar visível a presença de Deus que habita no meio de seu povo.

Ao mesmo tempo, somos convidados a cuidar de nossa morada interior: nosso coração, nossas atitudes, nossas escolhas. Se Deus habita em nós, nossa vida deve refletir essa presença, promovendo inclusão, respeito e justiça.

Estamos no tempo da Quaresma, tempo favorável para abrir o coração como Levi. Tempo de rever nossos alvos, de corrigir a direção, de permitir que a graça de Deus transforme nosso modo de pensar e agir. Que possamos, com humildade, aceitar o chamado de Jesus e colaborar na construção do seu Reino aqui e agora.

Que o Senhor nos conceda a graça da verdadeira conversão. Amém!


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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