No chão do Presépio, o nosso próprio chão
Osmar C. A. Ferreira
Cada Presépio é único. Ele nasce do lugar, da cultura e da memória de um povo.
O que é peculiar, nas diferentes tradições culturais, é justamente essa apropriação do chão: cada comunidade coloca na cena do nascimento de Jesus um pouco da sua própria história.
Nas tradições latino-americanas, por exemplo, o Presépio ganha cores fortes, tecidos vivos. O rosto do Menino se faz ameríndio. No Nordeste do Brasil, a modelagem em barro é enriquecida pelas mãos habilidosas de mestres e mestras tradicionais, que dão ao Presépio a textura da terra e os rostos do sertão. Em Nápoles, as figuras são trabalhadas com grande precisão, seguindo técnicas transmitidas de geração em geração. Na Provence, no sul da França, os pequenos santons são modelados em diversos ateliês, cada um com seu estilo particular.
Em muitos desses presépios – napolitanos, provençais, latino-americanos – aparecem também personagens que não estão nos Evangelhos: pessoas do cotidiano, da vida corrente… É a vida concreta de cada povo que se aproxima da manjedoura. Assim, o Presépio se torna um espelho: o mistério do Natal entra em nossa própria terra, na nossa casa, no nosso tempo.
Em sua bonita Carta Apostólica sobre o Presépio, Papa Francisco destaca esta particularidade, trazendo um sentido orante e teológico para esse costume:
Muitas vezes, as crianças (mas os adultos também!) gostam de acrescentar, no Presépio, outras figuras que parecem não ter qualquer relação com as narrações do Evangelho. Contudo esta imaginação pretende expressar que, neste mundo novo inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a criatura. Do pastor ao ferreiro, do padeiro aos músicos, das mulheres com a bilha de água ao ombro às crianças que brincam… tudo isso representa a santidade do dia a dia, a alegria de realizar de modo extraordinário as coisas de todos os dias, quando Jesus partilha conosco a sua vida divina.
A santidade do dia a dia se faz presente – e se torna presente – nos Presépios ao redor do mundo. As figuras do cotidiano que colocamos ali – mulheres, crianças, jovens, trabalhadoras, trabalhadores – lembram que Jesus olha para cada um, cada uma, com amor, entra em seu trabalho, em sua casa, em sua rotina.
Armar o Presépio em família, na comunidade, na paróquia e em nossos cantinhos sagrados, torna-se então um jeito simples de recordar o Evangelho, onde Jesus se aproxima de quem está no dia a dia do esforço e do cuidado. Como na cena em que Ele encontra os pescadores enquanto trabalham:
Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago; os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: “Avance para águas mais profundas, e lancem as redes para a pesca.”
Lc 5,2-4
Assim também, diante do Presépio, deixamos que Jesus “suba à nossa barca” e olhe, com ternura, para tudo o que compõe o nosso cotidiano.
Fica o convite: com devoção e carinho, comecemos o nosso Presépio, onde nossas vidas se deixem encharcar pela vida de Jesus e do mundo ao nosso redor.
Osmar Ferreira é leigo, pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), comunidade Dom Luciano, Brasília (DF).
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

Maravilhosa reflexão! Amo o tempo de advento! O Presépio, a espera! Vem Senhor Jesus!
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