Deus-Oleiro e vasos existenciais

A minha primeira experiência como acompanhante de exercícios espirituais aconteceu entre junho de 2024 e março de 2025, por meio da oferta de Exercícios Espirituais na Vida Cotidiana (EVC) realizada pela CVX-DF no Centro Cultural de Brasília (obra dos jesuítas no DF). Acompanhei, durante 9 meses, um grupo de pessoas profundamente sensíveis e sedentas, junto das amigas e também acompanhantes Camila Bonfim e Daniella Pinho – tive o prazer de ter sido acompanhada por esta última na minha própria experiência de EVC, entre 2021 e 2022.

No decorrer do EVC, uma das exercitantes se mudou para Belém-PA. Conseguimos, porém, manter sua valiosa participação nas nossas partilhas, conectando-a aos nossos encontros de forma remota (online). A última partilha coincidiu com a volta dela aBrasília para visitar a família e, assim, ela pôde participar do encerramento de forma presencial. Teve a sensibilidade de trazer, para cada um de nós, presentes típicos de sua nova cidade, e dentre eles estava uma cuia de barro, utensílio muito utilizado na culinária paraense.

A minha cuia veio… quebrada. Eu logo percebi ao manusear a embalagem. Guardei-a disfarçadamente: não queria que a pessoa que me presenteou visse, tive receio de que ela se chateasse depois do esforço de trazer esse objeto de tão longe e com tanto carinho.

Na verdade, era um pouco de projeção: fui eu que me frustrei. Vi outras pessoas abrindo seus próprios presentes, e eles pareciam inteiros. Por que logo a minha cuia veio quebrada? Pensei que teria de jogá-la fora. Afinal, o que mais eu faria com aquele objeto despedaçado?

Terminado o encontro e superada essa questão (ou assim eu pensava), após as intensas emoções da partilha, eu voltava para casa dirigindo e digerindo tanta graça de Deus nesses 9 meses de acompanhamento… mas uma coisa não saía do meu coração: a cuia quebrada. 

Então eu me dei conta. Quase 4 anos antes, no meu próprio EVC, uma das orações mais marcantes e intensas havia sido sobre uma leitura do livro do profeta Jeremias (Jr 18, 1-6): o vaso e o oleiro. “Desci até a casa do oleiro e lá estava ele executando um trabalho na roda. O vaso que o oleiro fabricava de barro se estragou em sua mão. Ele fez um outro objeto conforme lhe pareceu mais conveniente (…)”.

Essa oração aconteceu no auge da 1ª Semana, num dos momentos mais críticos de desolação, em que senti a tentação de desistir do EVC. Tamanha era a dificuldade que eu atravessava que, revendo minhas anotações, percebi que a imagem do vaso da minha vida não era a de um vaso meramente deformado, como consta na leitura bíblica. Era a de um vaso quebrado. Em pedaços. Recebi, porém, a graça de uma imagem consoladora desse mesmo vaso sendo aproveitado, remoldado e transformado por Deus em algo novo, surpreendente e melhor. Algo bonito. Cheguei a desenhá-lo na época. Quanta esperança e paz isso me trouxe! Foi o fôlego que eu precisava para confiar e seguir em frente.

Ao relembrar isso eu entendi o porquê de, anos depois, já como acompanhante, ter ganhado uma cuia quebrada de presente. É o amor de Deus, num continuum que desconhece limite de tempo ou espaço, reverberando aqui e agora a consolação do vaso restaurado, que tanto me ajudou na minha caminhada de exercitante. 

Eu soube o que deveria fazer: rezar aquela cuia quebrada. Oferecer cada fragmento a Deus, e, depois, experimentar sua reconstrução pelas minhas próprias mãos, quase que numa aplicação de sentidos inaciana sobre a oração que eu fizera anos antes. Então acendi uma vela, peguei cola e comecei a trabalhar.

Não há imediatismo no reparo de um vaso quebrado. É um processo que exige paciência. Existe um encaixe perfeito para cada peça, que deve ser delicadamente testado até ser encontrado. Às vezes duas peças maiores não se encaixam porque uma lasquinha minúscula entre elas se perdeu, e é necessário procurar entre os farelos esse pequeno elo que possibilita a continuidade do conserto. E que satisfação ao encontrá-lo e reencaixar o que parecia perdido!

O processo foi fazendo nascer em mim um amor por aquele objeto. O mesmo que, inicialmente, me irritou e me trouxe um primeiro impulso de jogá-lo fora – é que não houve em mim a ternura que Deus tem desde o começo pelas nossas partes mais quebradas. 

Eu tive de aprender a apreciar essa cuia danificada, a me entusiasmar pelo processo de recuperá-la. Fui me afeiçoando à maneira única como ela se partiu, ao formato de cada peça. Cada rachadura me pareceu um traço exótico e belo. E à medida que eu conseguia, lentamente, encaixar cada pedaço em seu lugar, eu ficava mais alegre, eu acreditava que o resultado poderia dar certo. E dava certo. E eu sonhava.

Deus sonha. Ele sonha com a vida de cada um de nós. Cada vida humana é, para o divino, um projeto amoroso de reconstrução. Somos moldados pelas mãos hábeis e cuidadosas de um oleiro que não desiste dos vasos que somos: sempre há jeito, sempre há tempo. O verbo do Princípio e Fundamento é presente e ecoa pela eternidade: o ser humano é criado, continuamente.

Há alguns meses, coincidentemente, eu lia sobre a prática japonesa do Kintsugi, que significa, literalmente, “emendar com ouro”. Essa técnica zen-budista de reparo de potes quebrados não busca esconder os danos, mas evidenciá-los por meio da arte: os pedaços são colados com uma pasta que leva uma infusão de ouro em pó. O resultado é uma peça com diversas linhas douradas, única e exuberante, e mais valiosa do que a original. 

Esse é o ofício do Deus-oleiro: redimir o mundo e as nossas vidas, em toda sua complexidade, quebras e nuances. Tudo é acolhido, tudo é transformado. As nossas marcas são belas aos olhos de Deus porque contam uma história, e essas mesmas marcas são a matéria-prima de um futuro novo e surpreendente. Foi isso que o Senhor muito pedagogicamente me ensinou por meio da oração de reforma da cuia. Na verdade, “ensinar” não é um bom verbo, porque eu já sabia de tudo isso… O que aconteceu foi que eu senti, e, por isso, assimilei num nível muito mais profundo.

O ato sensorial de tocar as lascas desse vaso me fez tocar os pedaços da minha própria existência, e senti-la profunda e amorosamente reconciliada em Deus desde que fiz minha experiência de Exercícios Espirituais. E essa reconciliação continua se renovando, de forma inesperada e emocionante, por meio darecém-descoberta vocação de acompanhante espiritual, à qual o Senhor foi tão gentilmente me chamando.

Que interessante pensar que o objeto que reformei veio de Belém – Belém brasileira, mas que leva o mesmo nome de Belém onde nasceu Deus. Se nasceu Deus, podemos nascer nós, todos os dias. “Será que não posso agir convosco, casa de Israel, da forma como fez esse oleiro?”.


CVX: Uma Vocação

Imagem:Ana André. Da Série Universus nº 10, 2000. Bambu e pedra sobre parafina. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira

Comunidade de Vida Cristã (CVX)

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

3 comentários Deixe um comentário

  1. Que bonito, Mariana!

    Que possamos ter esse olhar amoroso para com a nossa própria história assim como para a história de nossos irmãos e irmãs (em especial com os que temos mais resistências)

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  2. Mari, que texto profundo e lindo! Muito obrigada por compartilhar conosco essa experiência tão profundamente inaciana de saborear a relação com Deus através da mística nascida do propósito de, ao colar a cuia, transformá-la… remodelá-la, torná-la ainda mais sua, pois agora tem seu jeito, seus toques, sua cara… ao passo que também a torna mais nossa, com a riqueza de podermos adentrar nessa partilha da experiência com o divino! Muito obrigada! Mesmo! ❤️

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