O choro amargo de Raquel
Simone Furquim Guimarães
A leitura de hoje é Mt 2,13-18. O evangelista narra o episódio trágico após a visita dos magos ao menino Jesus. José recebe a mensagem do anjo do Senhor de que Herodes irá matar Jesus, por isso deve fugir para o Egito. Não encontrando o menino, Herodes manda matar todas as crianças menores até dois anos de idade, em Belém e nos arredores.
O evangelista nos apresenta a história da infância de Jesus permeada de ameaças, perseguições e fugas. Tem um tom trágico, pois narra também o choro de tantas mães e avós devido à morte de seus filhos. Mateus remete ao profeta Jeremias que fala do choro amargo de Raquel (cf. Jr 31,15), avó das tribos do norte (Efraim e Manassés). Estas tribos foram mortas ou exiladas pelo império Assírio, no período do Antigo Testamento.
O que o evangelista nos ensina é que os impérios opressores sempre farão chorar as mães de Israel, assim como fez chorar as mães dos meninos hebreus mortos pelo Faraó do Egito (cf. Ex 1,15-22);
Assim também hoje, assistimos o choro amargo de tantas mães que perdem seus filhos por governantes opressores. São mães indígenas, de Guajajara, de Tuyuca, de tantas tribos; mães que perdem seus filhos e filhas na palestina, na faixa de Gaza, dilaceradas por bombas e balas; mães que perdeam seus filhos no Líbano, Síria e Ucrânia; e tantas outras que sofrem por guerras; todas elas, apesar de viverem no século XXI, ainda sofrem o mesmo contexto de opressão vividas no tempo bíblico.
Hoje, os faraós, os herodes, são todos aqueles que matam vidas e matam a dignidade de vida das pessoas quando praticam ações que violam os direitos das pessoas. “Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação: Raquel chora seus filhos; e não quer consolação, porque eles já não existem” (v.18).
Mas diante de tantas violências, Deus está presente. É ele que intervém na fuga de seu filho para o Egito. É Ele que o chamará de volta para terra onde mana leite e mel. “Do Egito chamei o meu filho” (cf. Os 11,1).
Para o evangelista, Jesus é também o Novo Moisés: foi salvo da tirania do Faraó (Herodes), libertará e conduzirá seu povo à terra prometida: o Reino de Deus.
Por meio dos ensinamentos do Evangelho podemos nos libertar das escravidões que nos aprisionam hoje e construir os sinais do Reino. Deus assim nos anima, anima todas essas mães, conforme nos diz o profeta Jeremias: “Reprime o teu pranto e as lágrimas de teus olhos! Porque existe recompensa para a tua dor” (cf. Jr 31,16).
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano B — Sábado. Santos Inocentes.
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