Ano de 2024 é ápice da crise climática

O ano ainda nem terminou, pois estamos no mês de outubro; mas para efeitos comparativos carrega um passivo de destruição ambiental sem precedentes. Alguns prognosticam sobre o que virá pela frente, que poderia ser ainda mais grave; mas este vaticínio nada nos previne se não ‘cair à ficha’ da responsabilidade ética e política em torno de verdadeiras ações concertadas de caráter anticíclico, referindo-me aqui a ciclo ecológico e não à reversão econômica das fases depressivas do ciclo econômico.

2024 têm sido pródigo em exemplos macrorregionais das catástrofes climáticas – no Sul nos meses de julho/agosto com enchentes extraordinárias, principalmente no RS; seguidas com a grande queimada do Pantanal, e sem solução para esta houve propagação autônoma em todo o Centro Oeste de secas e queimadas gigantescas; sem esquecer da Amazônia, também vítima de secas e queimadas neste segundo semestre.

Em termos de população e território abrangidos ou sob permanente ameaça, temos praticamente o País inteiro sofrendo conseqüências de um ciclo adverso de mudanças climáticas; de certa forma indefesa perante fenômenos, que se não os desconhece de todo; não esta informada sobre suas causas, nem de como se proteger face à freqüência e intensidade das sucessivas catástrofes. E estas, para se tornarem reversivas ou tratáveis em suas conseqüências mais devastadoras, dependem notoriamente de ação pública organizada.

Ora, se nos defrontamos há pelo menos duas décadas com manifestações pontuais desses fenômenos, atualmente ampliados significativamente; observamos no mesmo período histórico deste Século XXI outro ciclo de caráter econômico – o da especialização primário-exportadora no espaço rural, que carrega agravantes de peso à crise climática; alertando-nos gravemente sobre o virar as páginas estrategicamente, também do ciclo econômico.

Em sentido pedagógico 2024 nos dá lições amargas daquilo que poderia vir pela frente, se continuarmos a trilhar o mesmo paradigma de economia antiecológica que temos trilhado neste Século, de forma ultra concentrada. E não é preciso ser especialista no clima para constatarmos, que não estávamos preparados para enfrentar as catástrofes sucessivas de 2024. Mas nos próximos anos – 2025/2030-, e daí para frente estaríamos?

Há que se fazer destaque em matéria de ações anticíclicas, admitindo com base na informação pré-existente, de que já existe um ciclo instalado de mudanças climáticas; para o qual precisamos de ação pública concertada para nos defendermos dos seus agravos sobre a vida em geral; como também de ações de caráter reversivo desse ciclo instalado. E ações dessa natureza demandam planejamento político sobre atividades econômicas notoriamente implicadas na alimentação do ciclo das crises climáticas.

Não bastam declarações oficiais de boa vontade contra a crise ecológica e mesmo a ação assistencial às vítimas das catástrofes, conquanto necessária, não previne as novas catástrofes em cadeia que se acumulam para futuro. E tampouco se enfrenta a crise com operações de “caça as bruxas”, a exemplo do que promoveu neste início de outubro o Secretário de Agricultura de São Paulo – Guilherme P. Filizzola, contra a climatologista Luciana Gatti do INPE, tudo girando em torno das declarações da Dra. Luciana sobre causas e tratamento pelo governo estadual dos incêndios rurais em São Paulo, que apontava sobre óbvias ligações das queimadas em geral com setores criminais ligados a um braço idem do Agro.

O governo federal detém graves responsabilidades, pelo menos para preparar o ambiente das políticas públicas, tendo em vista ações anticíclicas; para o que precisa se libertar de amarras que o prendem no espaço rural às práticas antiecológicas do sistema Agro. Pois este também declinou em 2024 e declinará crescentemente com o aprofundamento da crise ecológica; embora continue avesso à transição ecológica.


Guilherme Delgado é doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Imagem: Guyer Salles (1942- ). Sem título. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2024.

Ecologia Economia Guilherme Delgado

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