Enchentes no Sul dramatizam questão ecológica nacional
Guilherme C. Delgado
Há pelo menos duas décadas, intensificada na última, temos tido sinalizações muito claras das mudanças climáticas, com especial destaque ao fenômeno invertido e simultâneo – da escassez e dos excessos de chuvas regionais-, com efeitos dramáticos ou catastróficos sobre populações locais.
Por sua vez, o ano agrícola 2023/2024 tem mostrado agravamento sem precedentes do referido fenômeno invertido, se consideradas – a seca revelada na Bacia Rio Negro – Solimões (Bacia Amazônica) nos meados de 2023 e a supeinundação do Rio Grande do Sul neste mês de Maio e 2024-, precedidas por chuvas excessivas no Vale do Taquari (RS) entre setembro e novembro de 2023.
O caso gaúcho em plena evidência no momento em que escrevo este artigo(8 de maio de 2024), pelos danos humanos, extensão territorial, amplitude demográfica e econômica já verificados neste início do mês, assume novo patamar no rol das tragédias ambientais recentes. E dentre outras consequências provoca a necessidade política de respostas imediatas de grande envergadura, que provavelmente terão efeitos ampliados na politização da Questão Ecológica subjacente em nível nacional, no sentido preventivo às crises e às respostas políticas condizentes.
O momento crítico do presente não deixa dúvidas sobre o potencial das tragédias ao estilo do Sul: nas regiões serranas, no vales e terras baixas de todo o País; e o seu inverso (secas) nos Biomas – Semiárido, Pantanal, Amazônia e Cerrados-, com que se completa a abrangência territorial nacional afetada por riscos climáticos acentuados.
O socorro imediato às vítimas é consensual enquanto política de reparação, reconstrução e alívio às muitas situações de perdas das vidas humanas e dos seus bens imprescindíveis, bem como da infraestrutura básica à manutenção e subsistência das populações. Mas se a tragédia é repetível a intervalos temporais cada vez menores, como temos observado ao longo deste Século, há que se politizar uma Questão Ecológica subjacente, clamando por respostas política de Estado, que é quem detém capacidade de planejar, prevenir e alterar rumos das coisas públicas neste campo dos riscos ambientais à tragédia humana.
O desenho de políticas preventivas aos efeitos das catástrofes ditas naturais tem dupla entrada:
- envolve medidas cautelares imprescindíveis para minimizar os efeitos das inundações, por exemplo, às populações mais vulneráveis;
- envolve medidas explícitas de transição ecológica na produção econômica do espaço rural, tendo em vista minimizar às causas conhecidas das mudanças climáticas, na linha dos Acordos do Clima.
O caráter local, regional e nacional dos riscos climáticos envolvidas clama por articulação interfederativa dessas políticas, que certamente tem primazia do governo federal (União) a tomar iniciativas e propor novos arranjos de política no domínio amplo das ações preventivas mencionado.
Por outro lado, há outra prioridade presente à situação ora destacada de articulação de políticas nacionais preventivas, mas que em grande medida independem do Estado: desinterditar o debate público sobre a Questão Ecológica, bloqueado seja pelo “negacionismo” ecológico explícito, seja pela banalização do tema, quando se trata de abordá-lo apenas por declaração retórica desprovida de conexão com políticas públicas essenciais, a exemplo das políticas agrícola e fundiária de Estado, capturadas para outras finalidades.
Finalmente, se o caso gaúcho suscita intenso debate político e midiático sobre políticas imediatas de reparação de danos reais, o que é plenamente legítimo; tão ou mais legítimo é o debate sobre prevenção desses danos, que não são obra do acaso ou de responsabilidade de São Pedro.
O debate das causas da alta danificação ambiental necessariamente tem caráter preventivo aos muitos riscos ecológicos envolvidos – climáticos, sanitários, alimentares etc-, que aqui estamos denominando de Questão Ecológica brasileira, pedindo passagem urgentemente nesta crise do Sul; e alertando-nos para duas prioridades políticas – desinterdito ideológica do próprio debate político e midiático e respostas políticas consistentes à transição ecológica, principalmente no espaço rural.
Guilherme Delgado é doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Imagem: Antonio Malta (1961- ). Sem Título 1, 1999.
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