Sobre o infinito da coordenação nacional na CVX

Rafael Riva Finatti

Exerci a função de coordenador nacional da Associação das Comunidades de Vida Cristã do Brasil (CVX Brasil) por 776 dias, de 15 de novembro de 2021 a 31 de dezembro de 2023 – um período um pouco menor do que os 3 anos “normais” de uma coordenação, porém muito intenso e, ao mesmo tempo, gratificante.

Foram 776 dias infinitos enquanto duraram. Desejo experiências assim a todas as pessoas que se identificam com o carisma CVX.

É certo que é de todos nós a responsabilidade de fortalecer a comunidade a partir das fontes inacianas, com foco na missão do Cristo; é verdade também que se depositam muitas esperanças no trabalho da Coordenação Executiva Nacional (CEN). Por isso, P. Miguel, Helma, Ana, Marlene e eu procuramos responder à altura, e peço desculpas tardias caso não tenhamos atendido às expectativas.

Falarei um pouco do que eu vivi.

Cheguei à coordenação nacional cheio de ideias. Fui anotando-as com carinho desde quando estive na Assembleia Mundial no Líbano, em 2013, junto com o Sobrinho e o P. Jackson. Aquela experiência me ajudou a me reconhecer parte de uma comunidade muito maior, com muita história – e com uma maturidade enorme adquirida ao longo de anos de discernimentos.

Algumas destas ideias eu pude praticar entre 2013 e 2021 nas diversas funções que exerci na CVX Regional Sul: tesoureiro, coordenador, secretaria de formação, secretaria das juventudes, setor de comunicação, secretário regional… Nem tudo o que fizemos deu certo, “demos com os burros n’água” algumas vezes e tudo isso foi me ajudando a amadurecer aquilo que eu tinha a propor à CVX no Brasil.

Quando fizemos a transição entre as CEN em 2021, aproveitando o feriado emendado da República, lá em Salvador, tive três certezas: a de que estávamos no caminho certo, graças aos trabalhos de todos os que nos antecederam; de que precisávamos de algumas mudanças e que as ideias que eu tinha poderiam ser interessantes na busca pelo Magis; e a de que teríamos que trabalhar muito, em pouco tempo, para fazer tudo o que sonhávamos até o final do nosso mandato.

A partir disso, fomos dando um passo de cada vez, fazendo o caminho ao andar, como propôs Antônio Machado.

Ainda em Salvador, no primeiro dia de reunião da nossa Coordenação, definimos que precisaríamos ser uma pequena CEN: “comunidade executiva nacional”. Estabelecemos encontros quinzenais, com entre 1h30 e 1h45 de duração, para partilhar as execuções, angústias e alegrias – e não deixar que nada acumulasse. Este foi o nosso primeiro movimento.

O segundo passo importante, também definido já naquele dia 15 de novembro, foi alinhar entre nós os objetivos e os frutos que esperávamos alcançar. Isso norteou os 775 dias seguintes e nos fez lembrar, o tempo todo, que apesar de termos aspectos estruturantes a trabalhar, tudo aquilo só faria sentido se fosse em prol de uma missão maior. Procuramos não perder de vista a dimensão da nossa vida apostólica: “Sem obras, a fé é morta”, disse São Tiago – com endosso a posteriori de Santo Inácio. 

Vivíamos, porém, uma contradição. Num modelo ideal, a Coordenação Executiva Nacional tem este nome porque vai executar coisas que estão pré-definidas por um “ente” maior, isto é, a Assembleia Nacional. No entanto, ao menos desde que passei a me envolver mais com a CVX Brasil, as assembleias nacionais não definiam o que precisava ser executado, apenas quem devia executar. Reunia-se uma vez a cada três anos, por um final de semana; dava tempo de chegar, confraternizar um pouco, participar de uma ou duas palestras, partilhar uma vez nos grupos, aprovar questões burocráticas (nunca sem discussões), fazer uma festa no sábado à noite, eleger as novas lideranças… e já era hora de ir para a missa de envio – sempre com alguma pressa, porque os primeiros voos de volta para casa já sairiam logo depois do almoço.

Somos inacianos, não gestores de crise. Precisamos de tempo de qualidade para discernir. Mudar este contexto era importante, por isso chamamos ainda mais para perto as coordenações regionais e, junto com elas, definimos mudanças necessárias: Encontro Nacional estendido para 4 dias, no mesmo ano da Assembleia Nacional – e com postulados, um dispositivo tão inaciano quanto democrático para que cada membro/comunidade pudesse propor temas a serem deliberados e priorizados. Este foi o nosso maior e mais importante passo, o legado que deixamos para os próximos anos da CVX Brasil.

Os passos seguintes foram importantes também, mesmo os que não deram tão certo. Investimos num Catálogo Nacional atualizado anualmente e numa comunicação ativa e a mais transparente possível (inclusive com as publicações periódicas de nossas posições financeiras); procuramos fortalecer equipes nacionais, criar novas (isso não deu certo) e extinguir as que estavam inativas; demos voz ao Conselho Nacional e aos anseios da maioria da CVX, em comunhão com o Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), durante o difícil período eleitoral de 2022; direcionamos muitos recursos para ajudar brasileiros e brasileiras vítimas da pobreza, mas também projetos de ajuda humanitária internacional liderados pela CVX em outros países, e demos sequência à parceria com o Serviço Jesuíta de Migrantes e Refugiados (SJMR), com frutos pequenos, mas significativos; mantivemos a aproximação com o laicato nacional e provocamos esta proximidade nos níveis regionais; delegamos funções e assim acreditamos ter dado espaço para que outras lideranças também pudessem participar de eventos importantes para a CVX e a Igreja no Brasil. Tudo isso, entre outras ações, não necessariamente foi reconhecido positivamente por toda a comunidade nacional (algumas das iniciativas, muito pelo contrário!), mas o sentimento de consolação que vivemos enquanto CEN foi o sinal de que cumprimos aquilo que escutamos como vontade de Deus para as nossas vidas.

As tardes em Itapoã, no Encontro Nacional 2023, foram o clímax desta bonita história.

Finalizo pensando que, de minha parte, toda esta intensidade com que vivi as quase 111 semanas de coordenação nacional aprofundou um pouco mais a minha inevitável calvície.

No mais, apesar de em alguns (muitos) momentos eu ter ido dormir um pouco mais tarde, ou ter ficado longe da minha família por alguns dias por conta de viagens e outros compromissos da CEN, tudo foram “flores”, cheias de perfumes e mensagens de carinho advindas de diversos lugares do Brasil, presença de Deus, novas e lindas amizades e sentimento de dever cumprido (ainda que não tenha conseguido implementar nem metade daquelas ideias!). 

Vale explicar que o último passo relevante (antes da transição de cargos) que escolhi dar enquanto coordenador nacional foi o de não me candidatar à reeleição. Basicamente, sou antipático às reeleições, ainda que considere que algumas, dentro e fora da CVX, tenham sido boas. Procurei me manter coerente a isso, pois foi também fruto de minhas orações.

A CVX é o meu estilo de vida, sou grato demais por Deus ter me revelado este tesouro que é não só espiritual, como também apostólico e comunitário; e por ter vivido profundamente esta “paixão” na coordenação nacional entre 2021 e 2023. Foi, de fato, um “Em tudo amar e servir”.

Para terminar este relato, encontrei no Soneto da Fidelidade, de Vinícius de Moraes, uma boa forma de traduzir minhas experiências e sentimentos infinitos que tive na CEN:

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.


Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama


Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinícius de Moraes

Rafael Riva Finatti é leigo, pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), CVX Santo Estanislau Kostka, Curitiba (PR).

CVX: Uma Vocação

Imagem: Lígia de Medeiros. Voleios.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

4 comentários Deixe um comentário

  1. Que bonito ver como Deus se ccomunicou e como você respondeu, caminhando! Muito obrigada por compartilhar essa experiência que é pessoal, mas foi vivida comunitariamente.

    Ele continua falando! Que você continue ouvindo e sendo fiel!

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  2. Creio que foi muito frutífera a contribuição de todos vocês e permanecerão alguns legados e postulados que deveremos avançar, reconsiderar ou até mesmo retomar. “Caminante no hai camino, el camino se hace al andar”

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  3. Rafa querido, enorme gratidão por tudo o que Deus te revela nessa vocação e no quanto você se dispõe a amar e servir sob a luz do discernimento inaciano. Sim, você faz a diferença no mundo!
    Muito amor por você e tua família que te sustentou nesse período de dedicação a nós e à missão na CVX Brasil. Siga nessa missão no tempo de Deus e conte sempre com nosso envio e nossas orações enquanto comunidade. Muito amor por você e Deus te abencoe

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  4. Finatti

    Você é o cara da CVX. Não me esqueço da sua imagem lá em 2013 quando anunciou a sua viagem ao Líbano

    Pensei, esse menino vai longe.
    Parabéns pelo empenho a CVX, e toda a sua dedicação com toda a comunidade

    Deus estará te acompanhado por toda sua história

    abraços fraternos

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