O Massacre dos Inocentes
Beatriz Avila Vasconcelos
Oração sobre Mt 2, 13-18
Quando Herodes percebeu
Mt 2, 13-18
que os magos o haviam enganado,
ficou muito furioso.
Mandou matar todos os meninos de Belém
e de todo o território vizinho,
de dois anos para baixo,
exatamente conforme o tempo indicado pelos magos.
Então se cumpriu
o que foi dito pelo profeta Jeremias:
“Ouviu-se um grito em Ramá,
choro e grande lamento:
é Raquel que chora seus filhos,
e não quer ser consolada,
porque eles não existem mais”.
O Evangelho de hoje, que traz o relato do massacre dos inocentes, é uma das passagens para mim mais dolorosas, mais incompreensíveis, uma passagem que me atinge de uma forma tão, tão pungente, que me arranca qualquer reflexão e me lança na desrazão da pura dor. Por mais que tenha buscado entender interpretações teológicas desta passagem, ouvido pessoas sábias, religiosos e leigos, falarem acerca dela, integrando-a na História da Salvação, a espada que transpassa meu coração ao ver diante de mim “Raquel que chora seus filhos e não quer ser consolada, porque eles não existem mais”, me enche de uma dor tão intensa que eu não consigo apreender nenhuma explicação, nenhuma homilia, nenhuma palavra. Não consigo, e Deus me perdoe por minha ignorância e pequenez, sequer pensar com alívio que Jesus foi salvo das mãos de Herodes. Porque eu, ao lado de Raquel, apenas pergunto: por que Deus salvou apenas Jesus, por que avisou apenas José e não os pais das demais crianças de Belém? Por que Jesus foi salvo e os meninos de menos de 2 anos da região de Belém foram assassinados? Qual a razão de tudo isto? Por que tanta dor, tanta loucura, meu Deus? Que salvação há de justificar tudo isto? Sem respostas, ao meditar sobre essa passagem, fico em estado de estupor, diante de Raquel, sem saber o que lhe dizer, apenas com meu coração dilacerado, que não poderá apaziguar sua dor.
Ao ler esta passagem do Evangelho hoje, em 28 de dezembro de 2023, intensifica-se ainda mais o dilaceramento, pois é impossível para mim ler esta passagem hoje sem pensar que, segundo a Agência da ONU para Refugiados Palestinos, em média, uma criança é morta a cada 10 minutos em Gaza AGORA, desde o início do conflito armado entre Israel e Hamas, iniciado em 7 de outubro deste ano. Em relatório da OMS apresentado em 10/12/2023, mais de 7.700 crianças foram mortas em Gaza deste o início do conflito. De lá para cá mais centenas de crianças morreram. Segundo a ONG Save the Children, nas três primeiras semanas do conflito (de 7 de outubro até o fim do mês de outubro), mais de 3.257 crianças foram mortas, incluindo pelo menos 3.195 em Gaza, 33 na Cisjordânia e 29 em Israel. Este número alcançado em 3 semanas de conflito supera o número de crianças mortas por ano no conjunto global dos conflitos armados em 20 países juntos, desde 2019. Na Segunda Guerra Mundial, a média de crianças mortas por dia era de 127, ao passo que na Gaza atual este número chega a 240 (dados da FEPAL – Federação Árabe Palestina do Brasil). Até o momento estima-se que sejam mais de 8.000 crianças palestinas assassinadas em pouco mais de dois meses! Dos mais de 20.000 palestinos mortos em Gaza desde o dia 07 de outubro, 70% deles são crianças e mulheres, sendo 40% de crianças, de acordo com o Ministério da Saúde em Gaza, controlado pelo Hamas.
Segundo o Unicef, as ameaças vão além dos confrontos armados e bombardeios. A falta de suprimentos essenciais, como água e energia, ameaça a sobrevivência de milhares de crianças palestinas, em especial bebês, que muitas vezes morrem por desidratação intensa. Também a paralisação de equipamentos médicos, como incubadoras, é outro fator que leva à morte de bebês em Gaza. E por fim, os efeitos psicológicos sobre crianças diante de um trauma desta magnitude são enormes: crianças que perderam suas casas, seus pais, seus irmãos, amigos, animais, crianças sem água e sem comida, crianças deslocadas, apavoradas, feridas… Quem poderá dar-lhes consolo, curar feridas tão profundas que irão, caso sobrevivam, acompanha-las por toda a sua vida?
Hoje de manhã ouvi a homilia de um padre sobre esta passagem do Evangelho de Mateus referente ao massacre dos inocentes. Ao buscar trazer o episódio para a realidade de nossos tempos, ele falou de forma geral das crianças mortas pelo aborto voluntário, uma pauta importante da Igreja e da sociedade civil, mas não mencionou uma única palavra sobre o maior massacre de crianças já ocorrido em um conflito armado e que está acontecendo AGORA em Gaza. Que silêncio é este, meu Deus? Que oração é esta, que lamenta crianças mortas por um tirano há 2.000 anos atrás, mas silencia diante dos massacres de inocentes de nosso tempo, inclusive este massacre que está ceifando milhares de vidas de inocentes no conflito entre Israel e o Hamas, em uma proporção nunca antes vista, no mesmo território por onde Jesus andou, pregou e curou? Consola-me que o Papa Francisco não tenha esquecido destes inocentes de hoje em sua mensagem de Natal, vendo nas crianças afetadas pelas guerras do mundo atual “pequeninos Jesus de hoje”.
Que os religiosos e os leigos cristãos possam romper com coragem este silêncio abominável sobre as mortes de crianças no conflito entre Israel e o Hamas, assim como em qualquer guerra, mortes tão dolorosas que nos fazem por vezes, como Raquel, até mesmo recusarmos a consolação, porque nossos filhos “já não existem mais”. Se esta passagem terrível do massacre dos inocentes de Belém teve que compor a História da Salvação, que seja ao menos para nos dar a capacidade de nos indignar hoje, de não silenciar este silêncio indigno, e, como Raquel, não aceitar uma consolação fácil diante do horror e do absurdo de uma criança morta pela sanha de domínio e de poder dos Herodes do nosso tempo. Uno-me à exortação do pastor luterano palestino Reverendo Munther Isaac, dita em sua homilia de Vésperas de Natal, na Igreja Evangélica Luterana da Natividade, em Belém, neste ano: “Parem este genocídio agora!”. Esta é a oração do nosso tempo.
Curitiba, 28 de dezembro de 2023
Beatriz Avila Vasconcelos é doutora em Filologia Clássica pela Universidade Humboldt de Berlim, mestre em Letras Clássicas (Universidade de São Paulo) e Licenciada em Letras-Português (Universidade Federal de Goiás). É professora na Universidade Estadual do Paraná (Unespar). É líder do Grupo de Pesquisa em Arte, Cultura e Subjetividades. Escreve poesia e dramaturgia.
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

Obrigada por essa reflexão tão lúcida e atual.
Eu me uno à sua indignação com essas mortes e esse silêncio… Na minha impotência, só posso rezar.
Rezo pelas “Raquel” de Gaza, cujos filhos são mortos por armas ou privações.
Rezo, também, pelas “Raquel” de Israel cujos filhos foram mortos ou sequestrados.
Rezo pelas “Raquel” da Ucrânia.
Rezo pelas “Raquel” da Venezuela e demais países que não cuidam de suas crianças, inclusive o Brasil…
Infelizmente massacres de inocentes continuam acontecendo, depois de tantos séculos.
Rezo para que o amor vença, superando a violência que circula no mundo, especialmente sobre os mais frágeis..
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Indignação e vergonha!!!
Onde está a nossa humanidade?
Gratidão por texto tão lúcido !!!
O não dito se torna maldito!!!
Que o bem dito prevaleça!!!
Silenciar é negar!!!
Maria Inés Saadi de Tozatto
Rio de Janeiro
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