Santo Inácio de Loyola em minha vida pessoal e profissional

Zuleis Knoth Adam

Considerando a minha profissão, gostaria de compartilhar um pouco do meu encontro com o modo de vida Inaciano. Formei-me em Direito no final de 2000, ou seja, no século passado. No ano seguinte comecei a advogar. Tenho 49 anos e trabalho em uma empresa de mobilidade em Curitiba.

Quando pensava em Direito, imaginava uma Justiça idealizada e entendia como uma forma de ajudar as pessoas. A escolha também estava ligada à afinidade com a área de Humanas, pois gostava muito de História e via um estreito laço com o Direito.

Passados vinte anos de profissão, não vejo mais o Direito apenas como resultado da História, pois está mais próximo da sociedade imediata, caracterizado pelo que o coletivo pensa na atualidade. Os acontecimentos imediatos parecem ter mais efeito sobre o Direito. Não se trata de ser bom ou ruim, pois ao final do processo entre argumentos, contra-argumentos, disputas, provas e soluções, normalmente, chega-se a um equilíbrio. O maior obstáculo é superar e esperar os extremos se ajeitarem, em uma época de grandes dualidades.

  A História, lógico, não deixa de ter importância para o Direito, porém este não deixa de ser um reflexo da sociedade atual, sobretudo porque se trata de uma Justiça feita no presente, por seres humanos, que julgam e interpretam conforme leis com vigência atual, que também são feitas por homens.

O modo de viver inaciano entrou em minha vida em 2017 quando, em uma missa de domingo no Colégio Medianeira/PR, fui convidada a participar do Retiro Quaresmal, por um casal muito especial, que fazia parte da Comunidade de Vida Cristã (CVX). O Retiro foi um momento diferente, devido ao modo de ser das pessoas e à forma rezar.

Terminado o Retiro, comecei a frequentar os encontros aos domingos, iniciando o contato com as partilhas e os primeiros conhecimentos a respeito da vida de Santo Inácio. Era algo diferente e de muito valor para mim. A maioria absoluta dos participantes eram pessoas com vivência de muitos anos na CVX, quando não, pessoas que passaram uma vida inteira em formação. Nesta época, participei pela primeira vez de um “Lucernário”, foi um momento ímpar, por tudo que estava vendo, aprendendo, e, nas palavras de Santo Inácio: “saboreando”. Eram falados dos retiros de finais de semana e dos “maiores”, de quinze e trinta dias, e das Comunidades.

Iniciou a pandemia. Continuei assistindo as missas online. Foi assim que em 2019, em um domingo, foi lida uma das Cartas de Santo Inácio: “Abandonar todo o Cuidado a Deus”. Foi um momento marcante. Passei a buscar conhecer mais a respeito da vida de Santo Inácio. Foi a fase em que ocorreram modificações em minha vida, tais como o conhecimento do amor, a intensificação da fé, a importância da oração, o cuidado com minha família. Trouxe reflexos no trabalho. A importância da convivência com as diferenças e evitar julgamentos pessoais foram impulsionados. Intensificaram-se os Retiros online e os aprendizados com os “Passos da Oração Inaciana” e os “Exercícios Espirituais”. Finalizado um dos Retiros, fui convidada pelo meu Orientador a iniciar uma caminhada, o que me levou à “Pré-Comunidade Magnificat”, que trago com carinho em meu coração, lembrando sempre das partilhas e escutas, em que sentia a consolação, devido a troca de experiências de nossas vidas simples e cotidianas. A “Pré-Comunidade Magnificat” foi a primeira a ser formada on line. Dentre os participantes havia uma Religiosa, algumas pessoas com vivências Comunitárias outras não, uma envolvida com acolhimento de Imigrantes. Eram residentes de diversos lugares, Curitiba, São Paulo, Minas Gerais, um casal que mora nos EUA e outra residente no Canadá. Havia um objetivo comum, a disposição de viver em Comunidade e conforme os ensinamentos de Santo Inácio.

Guardo também na memória um Retiro que fiz na Casa de Retiros Santo André/PR, onde fui acolhida com muito amor e caridade. Foi uma experiência muito íntima, tendo trazido comigo, por indicação das Irmãs, um livro dos ensinamentos de Santo Inácio, com título “Escritos de Santo Inácio, O Relato do Peregrino”, do Pe. Luís Gonçalves da Câmara, que me encantou. Gostaria de compartilhar um pequeno trecho: “…certa vez ele ia, por devoção, a uma igreja que estava a mais ou menos um quilômetro e meio de Manresa. Creio que se chamava “São Paulo”, no caminho beirando o rio. Ele seguia todo entregue às suas devoções. Sentou-se por um momento, com o rosto voltado para o rio que corria embaixo. Então, estando ali sentado, os olhos do seu entendimento começaram a se abrir. Não que lhe viesse alguma visão, mas ele compreendeu e conheceu numerosas coisas, tanto espirituais como coisas que dizem respeito à fé e às letras. E isso com uma iluminação tão grande que todas elas lhe pareciam novas”.

A vida profissional, após passar pela experiência do convívio com a Comunidade, teve maior significado. Vejo hoje com cautela o resultado dos processos, pois a Justiça é subjetiva, depende da lei que esteja vigente na época do fato e do modo como o julgador fará sua interpretação. Atualmente há mais incertezas nas decisões do que no passado próximo que me era conhecido, ou seja, no início da carreira. Se a sociedade está em acelerada transição em relação aos valores morais, políticos e sociais, efetivamente ocorrerão reflexos, dúvidas e incertezas no Direito, seja no ramo penal, civil, trabalhista, processual etc.

Ser cristão e vivenciar o modo inaciano traz serenidade, resiliência, um olhar mais compassivo, além de ajudar no discernimento nas decisões do dia a dia.

Ser advogada é ser parcial, diferentemente do juiz que é imparcial e deve julgar sem pender para nenhum lado, pois a Justiça é cega, não devendo favorecer, sem base legal, determinada parte. Ser advogada é tomar partido. No meu caso, como advogada trabalhista de empresa, tenho o dever de defender o réu, muitas vezes, entendido como “quem causou o mal”. Essa defesa deve ser feita com discernimento e da melhor forma possível, porém sem abrir mão da lhaneza, pois caso haja deslealdade, refletirá na própria pessoa do advogado, nos clientes e nos demais processos. Dentro do que é possível, deve ser demonstrado que o ato ou fato está dentro da lei e, se não estiver, deverá ser restituído na medida correta, sem excessos.

Portanto, como tudo na vida, a modificação da “forma e modo de viver”, “sentir” e “realizar” acabaram refletindo em minha família e no trabalho. Reencontrar sentimentos esquecidos, conhecer novos e entender a minha própria história de vida e de família foram a razão maior da modificação pessoal. Esses sentimentos foram intimamente partilhados e entrelaçados com os alheios, tornando acessível a compreensão do estado das coisas.

Ser inaciana me permitiu e ajudou nas controvérsias, trazendo mansidão nas escolhas, sabendo que o resultado e a Justiça não dependem de uma só pessoa. Afinal, vivemos em sociedade e Deus cuida e sabe da necessidade de cada um. Ter um modo de vida inaciano trouxe um olhar para dentro e o desejo por amar a Deus.

Por tudo isso, sempre sou muito grata aos ensinamentos de Santo Inácio transmitidos por pessoas comprometidas com Deus, como o Princípio e Fundamento, o amor, ordenamento, interiorização, contemplação, discernimento, obediência, oração, e tantas outras vivências.


Zuleis Knoth Adam é bacharel em direito, leiga pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), Pré-comunidade Magnificat, Curitiba (PR).

CVX: Uma Vocação

Imagem em destaque: Lígia de Medeiros. Voleio.

Comunidade de Vida Cristã (CVX) Espiritualidade cristã Leigas e leigos

Ignatiana Visualizar tudo →

IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

2 comentários Deixe um comentário

  1. Obrigada por compartilhar de forma tão bonita sua experiência em perceber a ação de Deus na vida cotidiana, mediada pela espiritualidade inaciana. Você é muito abençoada!

    Curtir

Deixar mensagem para GINA TORRES REGO MONTEIRO Cancelar resposta