O Reino de Deus se manifesta nas ações comuns da vida

Margarida Monteiro

– Vó, o que tá escrito ali? Quem escreveu aquilo?

No espelho do banheiro está colada a oração de Santa Teresa d’Ávila, já faz alguns anos. Essa oração me marcou tanto que resolvi prendê-la naquele espelho bem grande, como a me lembrar que tudo passa pela entrega. Foi com essa pergunta que Carolina e eu começávamos uma das conversas mais importantes das nossas vidas.

Carolina, minha neta, na época com 5 anos, ficou curiosa em saber por que aquele papel estava ali, colado no espelho.

– Quem escreveu isso foi uma moça chamada Teresa d’Ávila, já faz muito tempo. Ela também já virou estrelinha como sua irmã Mariana. Elas moram juntas com Jesus.

Mariana, 2 anos mais nova, faleceu aos 18 meses, em janeiro de 2021, em consequência da Covid.

Continuando nossa conversa, prossegui:
– A Teresa escreveu uma oração bem bonita que diz assim: “Quando você estiver muito chateada, triste, desanimada por algum motivo, se você se aborreceu com algum amiguinho ou amiguinha, se você entregar tudo nas mãos de Jesus, tudo vai passar porque o amor de Deus não muda”. Sabe de uma coisa, Carolina? Jesus é como se fosse mágico.

Na mesma hora seus olhinhos brilharam, curiosa por saber que mágica era aquela.

– É, vó?

– Sim, Jesus está, ao mesmo tempo no coração de cada um de nós, no coração da mamãe, do papai, do vovô, da vovó, da Mariana…

– Da Mariana não precisa, né, vó, porque ela já mora com Jesus.

Depois de ficar em silêncio, refletindo sobre tudo aquilo, completou:
– Então quer dizer que Jesus dá um pedacinho dele pra cada um de nós, é vó?

Respirei fundo, segurei a emoção e respondi:
– Isso, Carolina, você acertou em cheio! É isso mesmo! Jesus dá um pedacinho dele pra cada um de nós, mas continua sendo o Jesus inteiro

Naquela conversa, Carolina acabava de perceber, na pureza do seu coração, o verdadeiro sentido da comunhão.

Dia 16 de janeiro de 2023, missa de 2 anos do falecimento de Mariana, na igreja do colégio Santo Inácio. Era a primeira vez que Carolina entrava em uma igreja, acompanhada da mãe e de mim. Apesar de minha nora ter sido católica de missa e comunhão e de meu filho ter seguido a fé católica, ambos se dizem, atualmente, espíritas kardecistas. Não batizaram as filhas.

Nunca levei Carolina a uma igreja, embora sempre conversássemos sobre Jesus e nossa Mãe Maria. Confesso que estava um pouco apreensiva.

Chegamos cedo e a mãe começou a explicar para a menina que eu ajudava na missa a distribuir “um pãozinho de Jesus”.

– Carolina, tá vendo aquela casinha lá em cima com uma portinha?

É ali que Jesus fica guardado. Ele se esconde nos pedacinhos de pão.

A missa seguia e, lá pelas tantas, Carolina vira-se pra mãe:
– Mamãe, eu quero ser batizada.

Foi a maior surpresa que eu podia ter ouvido.

Quando a missa terminou, levei-a ao altar, bem pertinho do sacrário e mostrei:
– É aqui dentro que Jesus fica guardado porque ele é muito precioso.

Na saída, mandou um beijo pra ele.

Aproveitei a ocasião e perguntei:
– Você quer ser mesmo batizada?
– Quero, vó.
– E você sabe o que é Batismo?
– Não, vó.
– Então, todos somos filhos de Deus, e, se queremos pertencer ao grupo dos amigos de Jesus, pedimos para ser batizados.

Carolina confirmou que queria ser batizada como as primas. Achei aquela oportunidade ímpar para poder apresentar Carolina à fé de Jesus Cristo. Lembrei-me das palavras do Papa Francisco: “Ouvir o próprio coração para saber o que acontece, que decisão tomar, formular um juízo sobre uma situação, é preciso ouvir o próprio coração”[1].

Quando, semanas depois, perguntei a minha nora se Carolina seria batizada, a resposta foi negativa, alegando que Carolina nunca mais tocara no assunto.

O tempo foi passando e as surpresas de Deus, “as coisas inesperadas de Deus”, continuaram a acontecer.

Quero abrir um parêntese para dizer que fui apresentada à espiritualidade inaciana, aos 8 anos, embora, à época, não tivesse essa consciência. Mas a essência da espiritualidade ficou fortemente gravada em mim. O colégio onde estudei até entrar para a faculdade, Sacré Coeur de Jesus, no bairro Laranjeiras, era da congregação Sociedade do Sagrado Coração. Foi ali que aprendi a tudo entregar, sem reservas. Eu, bem pequena, com 8 anos, na igreja do colégio, num altar lateral, a freira nos ensinava o que era entregar tudo, de verdade, no Coração de Jesus.

Só fui me dar conta disso há 27 anos, num retiro inaciano. Foi aí que percebi que a base que eu havia recebido estava ali, quietinha, como que decantando tudo dentro de mim.

Logo minha acompanhante espiritual convidou-me a conhecer a CVX. Quantas surpresas, o quanto de inesperado foi surgindo em minha vida.

Num dos momentos de oração pessoal, o Senhor me falava: “Esteja atenta!” Achava que era alguma coisa grandiosa que poderia acontecer. E, como Elias, percebi que Deus estava na brisa suave (I Reis19,12), nos pequenos acontecimentos do dia a dia.

Em março deste ano, comemoramos, aqui no Rio, o Dia Mundial da CVX com um retiro de fim de semana indo e vindo. Mais uma vez o inesperado de Deus se pôs a caminho: Carolina precisava ficar comigo porque os pais tinham um compromisso e o jeito foi levar Carolina para o retiro. Expliquei pra ela que as pessoas se reuniam para rezar, em silêncio. Impressionante como essa menina manteve o silêncio o dia todo. E fomos as duas para a capela, rezar. No meio da oração, Carolina tornou a falar: “Vó, quero ser batizada”.

– Carolina, você tem que pedir pro papai e pra mamãe. Tem que pedir muito, bastante.

No final da missa desse dia, tivemos uma confraternização da nossa CVX-Rio. Era já fim de tarde, quando meu filho veio buscar Carolina. Correu pro colo do pai e falou:
– Papai, eu quero ser batizada. Eu quero ser batizada. Eu quero ser batizada.

Depois dessa “insistente insistência”, Carolina foi batizada no dia 03 de junho, com a presença da família e da minha comunidade CVX Virgem Oferente.

A leitura orante das Catequeses sobre o Discernimento, do Papa Francisco me levou a relatar esses acontecimentos da minha vida. “Habituar-se a reler a própria vida educa o olhar, aguça-o, permite notar os pequenos milagres que o bom Deus realiza para nós todos os dias”[2].

Na comunhão (comum união), Cristo se dá a nós e nós nos damos a ele, em resposta ao seu amor.


Notas

[1] Papa Francisco. Catequeses sobre o discernimento 2. Um exemplo: Inácio de Loyola. 7 set. 2022.

[2] Papa Francisco – Catequese sobre o Discernimento 6. Audiência Geral, Praça São Pedro, quarta-feira, 7 de setembro de 2022.


Margarida Monteiro é leiga, pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), Comunidade Virgem Oferente, Rio de Janeiro (RJ).

CVX: Uma Vocação

Imagem: Lígia de Medeiros. Bandeiras e Bichano.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

4 comentários Deixe um comentário

  1. Que texto saboroso!!! Posso ouvir Carol perguntando!!!!
    Obrigada por compartilhar a importância de ver os sinais de Deus no cotidiano!

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  2. “Estar atenta” diz o Senhor à Margarida em oração. E que atenção amorosa ela desenvolveu para cada pequeno momento da vida! Catequese de vó é coisa muito séria. E viva. Obrigada, Margarida, por me trazer ao chão da vida com seu relato. “Eu estarei convosco até os confins da terra”, repare, escute, ouça, coloque uma oração no espelho. Tudo é Graça.

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