Espiritualidade inaciana e a práxis da justiça

João Carlos de Carvalho Rocha

Na noite do dia 12 de novembro de 2019 tive meu primeiro contato com a espiritualidade inaciana. Atendia a convite para conversa com o Pe. Gustavo Valentim Assis de Paula, SJ, então reitor da Igreja da Ressurreição, situada no Colégio Anchieta, em Porto Alegre, na qual foi apresentada a proposta de estudo e aprofundamento no caminho de Santo Inácio de Loyola.

Em comum ao grupo presente à reunião o fato de serem todos pais de alunos anchietanos, a maioria com experiência anterior em outros movimentos de espiritualidade cristã. Embora também pai anchietano, frequentar as missas dominicais e procurar guardar o sentido religioso de datas como o Natal e a Páscoa, minha vivência religiosa não ia além. Mas me senti chamado por aquele convite, que se mostrou um ponto de reinicialização em minha vida, uma ressurreição.

Desde então a trilha vem se apresentando às vezes sinuosa, às vezes plana. O importante é a constância em percorrê-la e o senso de comunidade que se constrói no percurso. Desde outubro de 2022 participo do grupo A Caminho, que se reúne periodicamente para a oração, partilha de vida e vivência da espiritualidade inaciana. O nome reflete o desejo de seguir no caminho de Santo Inácio e a aspiração de vir a pleitear uma futura admissão como pré-CVX. Iniciou seu percurso com a orientação do Pe. Vicente Zorzo, SJ, e atualmente tem como assessor espiritual o Pe. Guido Valli, SJ.

A espiritualidade inaciana tem sido para mim veículo de reconexão com Deus, comigo mesmo e com a comunidade. Os Exercícios Espirituais trouxeram uma compreensão íntima de Deus que não sabia possível. A proposta de ser contemplativo na ação, e, em especial o “Chamamento do Rei Temporal” (EE 91-100), me fez refletir sobre como dar testemunho dessa espiritualidade e como servir ao Reino. Concluí que dar testemunho pela consagração do meu trabalho, embora não fosse a única maneira de expressar essa espiritualidade, era a forma imediata e que se impunha, sob pena de ser um sinal de contradição.

Aqui cabe um esclarecimento relevante, de natureza pessoal: sou membro do Ministério Público há 35 anos, os 4 primeiros como promotor de justiça e depois como procurador da República. É inevitável, para quem dedica sua vida profissional a promover a justiça, a interação dialética, de um lado, entre os valores que se adota e a forma como vê o mundo, e de outro, o exercício profissional prático. Daí o título desse relato.

O momento em que entrei em contato com a espiritualidade inaciana coincide não apenas com a pandemia, mas com a aguda polarização da sociedade brasileira, com conhecidos reflexos no sistema de justiça. Por sua vez, no campo jurídico esse processo de polarização se expressa especialmente de três maneiras:

  1. adoção de comportamento ativista por alguns operadores do Direito, levando à politização do jurídico e a judicialização da política;
  2. uso de meios jurídicos com desvio de finalidade, em uma lógica de amigo/inimigo, o que passou a ser denominado como guerra jurídica (lawfare);
  3. tentativa de cooptar instituições permanentes para objetivos conjunturais e, por vezes, pessoais.

Embora muitos tenham se sentido atraídos pelas narrativas sedutoras que buscam reduzir o certo, o bom e verdadeiro de forma unidimensional, a natureza redutora dessa radicalização tem levado à perda do sentimento comunitário, à erosão do respeito ao outro, à instrumentalização de procedimentos e regras, ao fomento da desconfiança generalizada. E, portanto, ao aumento da injustiça em nome da justiça. Tudo obra do mal espírito.

No meio dessa turbulência encontrei suporte no Princípio e Fundamento, e, em especial, no princípio da indiferença inaciana (EE 23,5). Ao contrário do que sempre compreendera por indiferença, trata-se aqui não de egoísmo, ou da passividade, mas de identificar, dentre a diversidade de opções aquela que possibilita realizar o Magis. Indiferença que permite se colocar disponível para realizar a vontade de Deus, para se colocar a serviço do Reino. A indiferença inaciana é essencial ao discernimento e ajuda a agir justamente porque promove o desapego, que, por sua vez, propicia a leveza e esta, ao ampliar a compreensão da liberdade, melhora naturalmente a tomada de decisões. É claro que para haver discernimento se pressupõe a prévia ordenação dos afetos. E foi no trabalho inicial com os afetos, através da prática orante, que comece a sentir os efeitos transformadores dos Exercícios Espirituais, os quais irradiaram para todos os aspectos da vida.

E assim, passei a me ocupar cada vez menos com as grandes e pequenas oscilações do cotidiano, procurando a simplicidade e a prontidão no trabalho, fixando-me na justiça como equidade. E passando a dedicar o tempo disponível daí resultante, em outras atividades, colocando-me a serviço, assumindo, com alegria, novas missões, novas ocasiões para dar testemunho, na medida em que foram surgindo, nas áreas de sustentabilidade socioambiental, na prevenção ao assédio e a discriminação, no apoio a atividades nas áreas de educação, saúde e direitos humanos, na coordenação da área criminal da Procuradoria Regional da República na 4a. Região, e, mais recentemente, no atendimento jurídico a populações de rua. Essa última atividade, ainda em seu início, situa-se no âmbito da Resolução CNJ 425/2021, que instituiu no poder judiciário brasileiro a Política Nacional de Atenção a Pessoas em Situação de Rua.

O trabalho encarado como doação se torna mais leve, mais prazeroso, e o Espírito provê os meios para a sua realização. E faz retomar a possibilidade de uma justiça que se faz próxima, que não se encastela em palácios, que fala com as pessoas na mesma língua, olhando nos olhos. Se conseguir contribuir um pouco com esse processo, devo a essa caminhada, que começou singela, mas tem resultado em um encontro espiritual e comunitário, que expandiu minha jornada como cristão e cidadão.


João Carlos de Carvalho Rocha é leigo, pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), Grupo A Caminho, Porto Alegre (RS).

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Imagem: Lígia de Medeiros. Voleio. Azulejos.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

1 comentário Deixe um comentário

  1. Muito bom ver como a espiritualidade inaciana favorece a abertura a Deus e se reflete na vida cotidiana.
    Muito obrigada por compartilhar essa caminhada!

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