Votando com sentido

Maria Clara Bingemer

Acordei na segunda feira, 31 de outubro de 2022, com  a sensação de espanto e a surpresa dos sobreviventes. As eleições haviam acontecido e o Brasil tinha novo Presidente.  O ar parecia mais puro e era possível respirar.  O medo se fazia longínquo e a vida retomava seu curso.  Lula era o presidente.

O tempo que precedeu esta segunda-feira foi de muita dor. O estresse era geral e agudo.  As pessoas viviam tensas  e  amedrontadas.  E de que tinham medo?  Que o pesadelo que já durava quatro anos continuasse.  E seguisse.  E se perpetuasse. 

As mensagens de ódio e violência se sucediam na internet, amigos rompiam relações, familiares se afastavam.  A divisão – sinal claro e inequívoco segundo a Bíblia cristã do sufocamento do Espírito da paz, da alegria e do amor – reinava impune, separando, fragmentando e destruindo.

Na véspera do pleito, o fôlego e o alento eram artigos raros, luxo para poucos.  A ansiedade fazia o ar espesso e irrespirável.  Nada parecia fazer sentido na angústia de não dar certo o imenso esforço de tantos para superar o momento vivido que se arrastava. O horizonte em vez de aproximar-se, fazia-se mais distante e fugidio. O desânimo se agigantava e crescia a letargia que não permitia esboçar sequer um gesto, um suspiro, pronunciar uma palavra.

À noite, decidida a tentar dormir, fui olhar pela última vez o computador. Ali tudo mudou.  Li as palavras: “Honre os mortos com seu voto”.  “Vote por eles e por elas”.  “680 mil pessoas não são um número.” E tudo começou a fazer sentido. Não, não era possível que tudo aquilo tivesse sido em vão.  Não era possível que o desprezo  e o pouco caso que foi cuspido em cima da dor de mães, de filhos e filhas, de irmãos e irmãs, pudessem vencer.  Não era possível que os mortos que não puderam ser chorados e homenageados permanecessem insepultos e que sua memória fosse uma e outra vez pisoteada e escarnecida pela insensibilidade cruel que tomou conta do país durante e após a pandemia, ceifando, além de vidas, a dignidade e a honradez dos sobreviventes.

O que foi dito ao profeta Ezequiel diante dos ossos ressequidos em que se tinha transformado a casa de Israel enquanto atravessava o exílio foi repetido a meus ouvidos: “Filho do homem, poderiam esses ossos retornar à vida?”  Sentia-me tão desprovida de fé quanto o profeta, mas a pergunta era insistente. E o coração escutava mais que os ouvidos.

Foi então que aconteceu uma profunda comunhão.  Eu não estava mais sozinha, debatendo-me com um voto em cuja eficácia não acreditava.  Comigo estavam eles e elas.  O padre jovem e dedicado, colega de docência, que morreu logo no começo da pandemia porque não abriu mão de distribuir alimento para os pobres de sua paróquia.  A mãe da amiga que disse à filha na porta do hospital “Fala para seu pai não se preocupar não.  Já já volto para casa”.  E nunca mais foi vista nem ouvida pelo esposo desolado e pela filha em prantos.  A menina de 15 anos que a televisão mostrou em foto, ao mesmo tempo em que revelava o desespero dos pais ao saber que não havia resistido ao vírus.

Estavam igualmente os médicos cuja face já fazia uma unidade indissolúvel com a máscara cirúrgica e que, às vezes,  não suportavam e choravam.  Ou caíam doentes eles também. E eram levados junto a seus pacientes para o misterioso país das lágrimas, deixando atrás o grito de dor e o desespero impotente dos seres queridos. Estavam todos, uns e outros, eles e elas.

E os que queriam abrir os caixões, os que se debruçavam sobre eles, fechados sobre os rostos amados.  E os que sufocavam em Manaus enquanto o oxigênio não chegava.  E os que se deitavam no chão das enfermarias porque leitos não mais havia.

E a enfermeira Mônica, que qual nova Eva, deu à luz a esperança, filha menor do Bom Deus ao receber em seu braço a primeira picada salvadora da vacina graças à teimosia de um governador que enfrentou as forças do mal. 

Votar por eles e por elas.  Com eles e com elas.  Isso tinha sentido, fazia todo sentido. Realizar o gesto de pressionar a tecla que se uniria a tantas outras e que significaria o fim da barbárie e a nova estação da liberdade e do cuidado com a vida. Os mortos não eram destinados à cova escura  como pretendia o discurso abominável de quem os tratou com desdém e frieza.  Estavam vivos e eram multidão.  Eles ganharam essa eleição.  O Brasil nunca poderá pagar a dívida que com eles contraiu.

O Deus da vida que permitiu aos ossos dos israelitas exilados readquirir força e vigor fez ouvir sua voz e sentir a força de seu braço no Brasil.

Ó meu povo, vou abrir os vossos túmulos;…Sabereis, então, que eu é que sou o Senhor, ó meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos e vos fizer sair deles, quando eu colocar em vós o meu espírito para vos fazer voltar à vida…

Com todos esses filhos do povo brasileiro, votamos com sentido.  Que o Senhor da vida nos permita, a partir de agora, viver com sentido, experimentando em nossa boca o agridoce sabor da liberdade e reconstruir a memória e a alma desta combalida nação.

2 de novembro de 2022


Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro desde 1982. Autora de Teologia latino-americana:raízes e ramos (Editora Vozes), entre outros livros.

Imagem: Oswaldo Goeldi (1895-961) — Rua Molhada (xilogravura)


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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

3 comentários Deixe um comentário

  1. O texto mais verdadeiro e com tamanho sentido, chorei, um choro de tristeza pelos que não tiveram a chance de sobreviver ,mais também um choro de alívio e gratidão a Deus

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  2. Meu nome é Eloisa e pertenço a uma congregação religiosa e em vista da missão da Congregação tenho vivido desde 1999 fora do Brasil, nas Filipinas e nos últimos 7 anos na Franca, na nossa Casa Mãe… a questão politica nunca me interessou muito, tanto que nestes anos todos nao havia me dado ao trabalho de transferir meu titulo de eleitor para o pais onde morava… uma influência positiva da comunidade de irmãs francesas me fez “crescer” muito na consciencia critica e politica, na capacidade de “comentar” a realidade de maneira objetiva, ampla… e acabei sendo convertida… tanto que nas eleições de 2018, vivi uma profunda frustração por nao poder votar e “dizer” que “aquele” nao era o meu candidato… esta experiencia me tirou do lugar e comecei os tramites para transferir o titulo de eleitor para Paris… Moro atualmente numa cidade distante 6 horas de trem… nos dois turnos de 02 e 30 de outubro, viajei ida e volta, 6 horas, e fiquei mais de 3 horas de pe na fila para poder votar… para dizer qual candidato carregava o projeto de governo que eu sonhava para o meu pais… o resultado muito me alegrou… e acima de tudo, agradeço a Deus, esta experiencia profunda de viver o compromisso como cidadã brasileira e com muita ESPERANCA! Mesmo que o resultado tivesse sido diferente, nao sentiria nenhum arrependimento das horas consumidas no exercício do direito à votar.

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  3. Prezada Maria Clara!
    Muito oportuno seu texto neste momento de recrudescimento do reacionarismo e sua simbiose mortífera e destruidora com o fascismo.
    Já há algum tempo venho me perguntando com frequência e também a poucos amigos que me restam com expansão de raciocínio: “onde estavam essas pessoas, qual o disfarce que usaram para convivermos com elas por tanto tempo sem sentirmos ou desconfiarmos do que realmente eram”. Parodiando aquele ator do Casseta e Planeta, da Globo, que ante à sua incredulidade e espanto com o comportamento de seu filho no quadro que encenavam, perguntava: Aonde foi que eu errei?
    Pois é. Aonde foi que erramos para hoje estarmos carcomidos pela decepção, angustiados pela incredulidade, separados de quem um dia foi tão importante pra nós, e de defrontarmos com a realidade de que “acabou”, não dá mais para sermos juntos o que fomos,,,a traição nos submergiu.
    Outro fator de espanto está dentro da própia igreja…
    Independentemente do voto explícito que é até secreto, como pessoas que defenderam e continuam a defender em redes sociais esse nefasto mandatário podem exercer atribuições, como por exemplo, o Ministério da Eucaristia?
    Como defendem os crimes desse nefasto, vide Pandemia por exemplo, como podem distribuir o Corpo do Cristo a nós? Considero uma heresia…se o Cristo estivesse hoje humanamente entre nós, esses defensores do nefasto não fariam parte de seu grupo….
    Não sei se há conhecimento da cúpula da igreja sobre isso…mas convivemos com isso em nossas paróquias.
    Agradeço por receber seus ótimos textos….

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