O significado de Francisco no Canadá

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº36

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

A defesa da Criação, nossa Casa Comum, e a construção da fraternidade na prática, são os dois pilares fundamentais da uma espiritualidade coerente com os desafios do nosso século. Uma espiritualidade que não seja plantada, engajada na vida, nos problemas e no caminhar da humanidade, certamente não está fundada nos evangelhos. Esta é a intenção das encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti. E o papa, neste final de julho de 2022, assumiu uma corajosa atitude de demonstrar isto na prática.

Em uma visita ao Canadá, especialmente organizada para visitar as comunidades indígenas daquele país, pediu perdão pelos erros cometidos pela igreja no processo de colonização. Haviam escolas em todo o Canadá com o formato de internatos, a maioria administradas por organizações católicas, para onde se levavam as crianças filhas de povos indígenas, de modo obrigatório, com o fim de erradicar e fazer desaparecer a cultura indígena no Canadá, inclusive com torturas e mortes. Estima-se que mais de 4000 crianças morreram nestas condições, enterradas anonimamente, e que, portanto, nunca voltaram aos seus lares. Tem-se registro que isto era praticado desde 1830, mas oficialmente desde 1883, avançando pelo início do século XX. Uma dor e sofrimento históricos para as populações indígenas, com feridas abertas até o dia de hoje.

O papa não apenas pediu perdão sobre estas atividades, mas pediu perdão também de modo mais amplo: pelo envolvimento da igreja em empreendimentos de colonização das potencias europeias que levaram ao extermínio muitas a muitas etnias e povos originários em todo o mundo, especialmente em nossa América Latina. A dimensão do gesto do papa Francisco é absolutamente profunda, notável e histórica!

Quantas vezes grandes figuras públicas pediram perdão por erros históricos, em uma honesta intenção de reparação de danos? Devemos ajudar nossas sociedades a transformar seu sentimento de culpa em um senso de responsabilidade, para o presente e o futuro. O papa não tem medo de reconhecer que muitas instituições religiosas – mesmo com pessoas boas – fizeram coisas terríveis e pecaminosas. Ele não fica surpreso ao saber que gerações de cristãos invocaram o nome de Deus encarnado, enquanto efetivamente destruíam a cultura dos povos indígenas, e não conseguiram ver a contradição. O pedido de perdão do papa é o começo de uma nova relação baseada no respeito, na cura de feridas e na reconciliação, porque qualquer processo de cura verdadeiramente eficaz requer ações concretas. Faz o que um verdadeiro seguidor de Cristo deveria fazer.

A fraternidade e respeito entre povos é o cerne da Fratelli Tutti, enquanto os povos indígenas e originários são os primeiros defensores da Criação, objeto central da Laudato Si. Nós precisamos dos povos indígenas. São eles os primeiros a reconhecer o sagrado na natureza – dimensão que precisamos urgentemente recuperar para salvar nossa humanidade imersa em um processo destrutivo sem precedentes e que nos está levando a grande sofrimento, incluindo a inviabilização das sociedades futuras. Novamente o papa nos dá o sinal de como devemos proceder agora, no nosso tempo: fraternidade humana e defesa da Criação.


Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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