O que São Francisco Xavier tem a nos dizer

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº30

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

Neste começo de dezembro celebramos o dia de São Francisco Xavier. Um santo jesuíta, que era companheiro de Santo Inácio e que junto com outros companheiros – entre eles São Pedro Fabro, fundaram a Companhia de Jesus. Pensando nos desafios que São Francisco Xavier teve que enfrentar como missionário no século XVI, eu vejo muitos paralelos com os desafios de ser cristão no século XXI, com a espiritualidade do século XXI, que é o tema central deste nosso podcast.

São Francisco Xavier se tornou o padroeiro dos missionários porque logo no início da Companhia de Jesus ele foi designado pelo papa para evangelização das Índias – em apoio também à expansão portuguesa naquela região. Dedicou-se de corpo e alma à evangelização da Índia e vasta região oriental, o Japão e faleceu tentando entrar na China. Uma obra missionária e um zelo apostólico espantoso e impressionante. É difícil não admirar a entrega e a energia deste espanhol nascido em Navarra.

Muitos são os paralelos com o século XXI. Xavier se depara com companheiros de viagem às Indias, com os comerciantes e militares portugueses e com a estrutura colonial portuguesa e espanhola. Gente declaradamente cristã, mas muito longe do reino, com práticas anti-reino. Xavier tem fortes embates com essa gente e pede ao rei de Portugal muitas punições e correções. É como hoje: muita gente se diz cristã, mas está muito longe do reino de Jesus. As maiores dificuldades de Xavier, para surpresa dele mesmo, foram com os que se denominavam cristãos. Acho que hoje em dia ele teria o mesmo problema. Às vezes nós nos assustamos com o que fazem os cristãos. E nos choca o fato que as sociedades que se dizem mais cristãs são também as mais desiguais e mais injustas. Tenho certeza que Xavier iria denunciar isto hoje em dia, como ele fez no passado.

Xavier promoveu também uma prática de evangelização participativa, onde todos e todas podiam participar dos ritos, festas e ensino. Muitas de suas práticas não foram bem recebidas em Roma naquela época. Mas hoje o papa Francisco tenta também abrir-se à participação ao buscar uma igreja mais sinodal, mais inclusiva. A tarefa, portanto, ainda não terminou.

Outro paralelo que vejo entre Xavier e nosso mundo atual é que ele teve que enfrentar realidades e povos multiculturais – e produzir frutos neste mundo multicultural. Também neste quesito, Xavier sofreu resistências da estrutura hierárquica da Igreja da época. Mas ele se manteve firme na idéia de que a fé tem que se manifestar na cultura local, ou seja, a inculturação da fé se dá em meio a uma diversidade de expressões. E por isso ele é referência até hoje para a ação missionária.

Xavier também teve que se relacionar com outras religiões, sociedades plurirreligiosas, com outras tradições. E buscou o diálogo interreligioso, quase que inaugurando a prática do diálogo, entendendo que o Espírito Santo age em todas as religiões e todas as realidades.

A adaptação da linguagem à realidade das pessoas era uma de suas principais características, adaptava as orações, as práticas, e até as datas de Natal e Páscoa ele chegou a mudar no sul da Índia, para não coincidir com as atividades de pesca e permitir que todos participassem. É o que deveríamos estar fazendo hoje, adaptando-nos à linguagem cibernética, em uma sociedade mediada pelo virtual, profundamente desigual e secularizada. Precisamos de linguagens novas para tocar o coração das pessoas.

Todo cristão deve ser um missionário dizia Xavier. Acho que vale a pena mergulhar no que fez São Francisco Xavier para nos inspirar de como falar com as pessoas sobre os problemas do século XXI, e sobre como pôr em prática as encíclicas Laudato Sí e Fratelli Tutti.

Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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