Inácio de Loyola e seu binômio pragmático do amar e servir

Cyril Suresh, SJ

A espiritualidade missionária de Santo Inácio de Loyola (1491-1556) possui sua forma dinamizadora dentro dos verbos pragmáticos como amar e servir. Esses verbos que desembocam nas ações concretas são reciprocamente interligados. O termo grego “pragma” (πρᾶγμα) significa ação ou atividade que está relacionado com práxis (πρᾶξις). O que é prático, menos teórico, é pragmático. É um conjunto de considerações práticas que é vinculado à vida por meio da relação, da experiência e da missão.

Umas das pedras de toque que preciosamente coroa a experiência mística dos Exercícios Espirituais (EE) de Santo Inácio é a contemplação para alcançar o amor (EE 230-237). Ela fundamenta vocacionalmente a dinâmica culminante do amor e do serviço, isto é, missão universal de caridade. Para tanto, um exercitante quando busca recolher todos os frutos dos Exercícios Espirituais vai ser guiado por duas observações preliminares na contemplação para alcançar o amor:

O amor deve consistir mais em obras do que em palavras.

EE 230

O amor consiste na comunhão mútua, a saber, a pessoa que ama dá e comunica à pessoa amada aquilo que tem ou parte do que tem, e o que pode.

EE 231

O binômio do amar e servir que Santo Inácio compreensivelmente utiliza vai conduzir o exercitante ao conhecimento interior de si e do Senhor Jesus (cristocêntrico), ao fazer a vontade divina de Deus (teocêntrica), ao chamado da encarnação (eucarístico), e ao serviço apostólico da Igreja, Nossa Mãe (eclesiocêntrico). Coincidentemente esse binômio pragmático é um verbo gêmeo permutável que resumiria também a espiritualidade bíblica. Sem ele, nem judeus nem cristãos podem entender a santidade da vida revelada na Sagrada Escritura.

O verbo amar em hebraico é אהב (’ahab) que está traduzido em grego como ἀγάπη (ágape). Isso se remete ao amor gratuito, kénotico, despojado e generoso, sem fronteira. 

O verbo servir em hebraico é עבד (`abad) que está traduzido em grego como δουλόω (douléo). Isso se remete ao serviço voluntário, desejoso e magnânimo sem escravidão.

Esses verbos semanticamente se penetram e mutuamente se identificam como um duplo inseparável nos textos bíblicos. Por exemplo, o mandamento “amar a Deus com todo o coração” (Dt 6,5) é equivalente ao dizer “servir a Deus com todo o coração” (1Sm 12,24). Assim os verbos, amar e servir, são dois lados da mesma moeda, reciprocamente empregados pelos vocábulos אהב e עבד que estão registrados até num só versículo Deuteronômico. Por exemplo, Israel vai amar a Deus servindo-o com todo o teu coração e com toda a tua alma (Dt 10,12; 11,13). Então, amar a Deus significa servi-lo e servi-lo, amá-lo. Plenificando este estímulo pragmático, Jesus, por sua vez, não somente amou os seus discípulos até o fim, mas também, serviu-lhes lavando os pés deles durante a ceia derradeira (Jo 13,1-11).   

Inácio de Loyola, como sedento e faminto de Deus, manifestou uma grandeza e uma sublimidade do serviço por amor à Igreja. O binômio, “amar e servir”, é direcionado ao triplo aspecto de Deus, Divina Majestade, do mundo que foi criado por amor, e dos próximos seres humanos. Assim o cavalheiro Inácio se experimentou e descreveu o horizonte dos Exercícios no “Princípio e Fundamento” (EE 23)- o ser humano é criado para amar (louvar e reverenciar) e servir a Deus nosso Senhor e, assim, salvar-se. Ainda ele colocou nos Exercícios um colóquio purificador diante do Cristo Crucificado que desperta o desejo perfurante e evolutivo do amar e servir dentro da tentativa de responder pessoalmente à tríplice pergunta (EE 53):

  1. O que tenho feito por Cristo?
  2. O que faço por Cristo?
  3. O que devo fazer por Cristo?

Tal questionamento e procura intensa dos Exercícios tem o seu motivo de formar o ser humano não somente no intelecto, mas também nos afetos movendo para em tudo amar e servir à Divina Majestade, Deus Nosso Senhor (EE 130; 233; 363).

No seu caminho à cidade de Roma em 1537, entrando na capela de La Storta que ficava uns 15 km a distante, Inácio teve uma experiência mística na qual ele viu « o Cristo carregando a cruz, junto dele, o Pai que lhe dizia: “Quero que tomes a este como teu servidor”, então Jesus o tomava, dizendo: “Quero que tu nos sirvas”.

Autobiografia, 96

A pragmática do binômio, amar e servir, sem exceção, está direcionada a Deus, ao mundo (a casa comum) e aos seres vivos e próximos. Embora difícil, ele não é impossível neste mundo. O contexto atual da pandemia (Covid-19) evidencia, por um lado, a cegueira pessoal, a irresponsabilidade social, a ignorância coletiva, o atraso nacional etc. Isso vai aumentar, cada vez mais, o contágio das enfermidades, o sofrimento das pessoas doentes, a luta dos famintos, o sacrifício dos médicos e dos trabalhadores e tantos outros. Essa realidade crucial vai fomentar, também sem proporção, escândalo econômico, desrespeito humano, roubo, violência, brutalidade, terror, guerra, e outros. 

Por outro lado, o tempo de crise está criando novas oportunidades para amar e servir criativamente. Revelar-se o rosto verdadeiro da fragilidade humana e o esquecimento da responsabilidade para com Deus e com seu povo. O descuido enorme nas relações humanas causa muitas preocupações com a saúde física, mental e espiritual. O altruísmo excepcional é notável no trabalho solidário de distribuições das cestas básicas, de arrecadação dos alimentos e dos financiamentos, de apoio pastoral sustentando o povo negligenciado na miséria. Apesar de tantas dificuldades, o estímulo de amar e servir os próximos transborda no coração humano. A doação, tanto material quanto espiritual, continua efetivando a caridade em prol da saúde e do bem-estar do povo.

Amar Cristo servindo-o necessariamente vai levar ao carregar da cruz imposta no seu corpo místico — o povo de Deus. O Cristo continua carregando sua cruz no sofrimento da humanidade. Na comunhão mútua ninguém está sozinho para carregar a cruz. A solidariedade universal e o amor fraterno, juntos descobrem que o jugo de Cristo é suave e o fardo dele é leve (Mt 11,28-30). Os seguidores que conforme os Exercícios desejam amar e servir a Cristo vão indispensavelmente amando e servindo o povo sofrido e sufocado, doente e ignorante, desprotegido e destruído, abandonado e desamparado, em todas as situações. O que satisfaz os exercitantes são somente o serviço, a honra e a glória da Divina Majestade (EE 16).


Cyril Suresh Periyasamy é padre jesuíta, vigário da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em João Pessoa (PB). Ensina Sagradas Escrituras no Seminário Arquidiocesano da Paraíba. Nasceu na Índia, onde graduou-se em matemática e fez pós-graduação em filosofia. No Brasil, graduou-se em teologia na Faculdade dos Jesuítas de Belo Horizonte, onde fez mestrado em teologia bíblica. [saiba mais]

Imagem: Timoteo Jose M. Ofrasio SJ — Visão de Inácio de Loyola em La Storta, 1991.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

2 comentários Deixe um comentário

  1. Que profundidade nos é dada pelo Padre Cyril,SJ, analisandos os verbos amar e servir, a partir das máximas dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, com os fundamentos bíblicos no Nono e Antigo testamentos, fundamentados na Parábola do Pai – Jesus presentes na Bíblia do primeiro versículo do Gênesis, até o último.o versiculo do Apocalipise de Sao João

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  2. Gosto muito dos seus textos, Padre Cyril.
    Mas este cenário me assusta e preocupa muito:
    “O contexto atual da pandemia (Covid-19) evidencia, por um lado, a cegueira pessoal, a irresponsabilidade social, a ignorância coletiva, o atraso nacional etc. Isso vai aumentar, cada vez mais, o contágio das enfermidades, o sofrimento das pessoas doentes, a luta dos famintos, o sacrifício dos médicos e dos trabalhadores e tantos outros. Essa realidade crucial vai fomentar, também sem proporção, escândalo econômico, desrespeito humano, roubo, violência, brutalidade, terror, guerra, e outros.”
    Como nos sairemos como verdadeiros e fiéis seguidores de Jesus Cristo?
    Grande abraço.

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