O destino e o amanhã de todos apenas nas mãos de Deus

Diário de um desespero – ou quase – LX

João Carlos Pereira

Em 1978, a escola de samba União da Ilha do Governador, do Rio de Janeiro, entrou na avenida, levando o tema “O Amanhã”. A letra é muito bonita, tão diferente das de agora, quase todas sempre tão iguais, muito pobres, e enumerava as possibilidades de se descobrir o futuro, como consultar cigana, desfolhar o malmequer, ler o horóscopo, pegar papelzinho da pata do periquito, num realejo já praticamente inexistente, e termina dizendo que o destino será como Deus quiser.

Acordei com essa música martelando na minha cabeça. Se duvidar, até sonhei com ela, porque não há nada mais agoniante, neste momento, do que o dia seguinte, o amanhã. Antes da pandemia, eu ousava apostar numa coisa chamada futuro. Hoje, essa palavra virou uma abstração, uma impossibilidade tão grande, que não consigo sequer pensar nela como uma simples amanhã, porque amanhã é algo muito abstrato e distante. Preso – literalmente preso – em casa, há mais de 60 dias, eu celebro a sexagésima crônica deste diário, não digo em paz, mas em plena aceitação.

Impossível escrever a palavra sexagésima, sem lembrar o sermão que o padre Vieira proferiu na Capela Real, em 1655, para fazer uma espécie de roteiro do gênero sermão, valendo-se da Parábola do Semeador, na qual Jesus fala da palavra de Deus, usando a metáfora dos grãos que caem em diferentes tipos de solo. A Palavra do Senhor nos leva à plena confiança, mas nós, homens de pouca fé, estamos sempre querendo saber o amanhã, esquecendo que o amanhã a Deus pertence.

Não sei como está sendo este tempo para os adivinhos, sobretudo para os que não conseguiram colocar em suas previsões para 2020 o quadro em que estamos vivendo. Uma tela tão gigantesca, tão monumental, não poderia passar despercebida de todos os métodos de comunicação com o além, para vislumbrar o ano novo. Quem falou em morte de famosos, já ganhou muitos pontos. Mas isso não vale. Teria que ter previsto a morte de celebridades e, no mínimo, dito que era tudo pela mesma causa.

Fui rever as previsões para 2020 e alguns videntes anteviram, de fato, muitas dificuldades, com luzes no segundo semestre. Outros erraram a mão completamente. Nenhum dos que busquei, contudo, sequer passou perto da palavra pandemia. Que falta faz uma Mãe Diná…

Além das cartas, das bolas de cristal e de todos os métodos de fazer previsões, imaginei que ninguém mais recorre à borra do café e às vísceras de animais para enxergar o que há de vir. São práticas muito antigas e talvez tenham caído em desuso. Talvez por ter dominado todo cenário do mundo é que ninguém conseguiu ver, com clareza, a covid-19. Ou sequer decifrado seus sinais. É como se aparecesse uma grande tela azul, ou da que cor fosse, e nela estivesse contida a informação, escrita em tinta do mesmo tom. Ficou bem à vista de todos, mas quem atentou?

Não estou dizendo que as previsões são charlatanices, porque há gente séria, muito séria no pedaço. Num mundo repleto de charlatães, eu mesmo conheço um senhor, grande sacerdote das religiões de matriz africana, finíssima sensibilidade, criatura de muitos méritos junto ao plano espiritual, doutor em Educação por Universidade portuguesa chamado Walmir Fernandes, que não chuta uma bola para fora. Ele não é adivinho, nem faz previsões, apenas escuta os Orixás e avisou, com todas as letras, que o primeiro semestre não ia ser brincadeira. E não está sendo.

Quando se trata de prever o amanhã, sempre me lembro de uma história do poeta Mário Faustino, narrada por Haroldo Maranhão, e que me foi contada pela saudosa e muito amada professora Albeniza de Carvalho e Chaves, a quem tive a honra de substituir na cadeira de Teoria da Literatura, na Universidade. Ela comentava sobre a genialidade de Mário Faustino e, ao mesmo tempo, destacava seu temperamento alegre, brincalhão. Um vez, enquanto procurava o endereço de uma lavanderia, num catálogo telefônico, nos Estados Unidos, o poeta topou com um nome cujo significado desconhecia: frenóloga.

Depois de descobrir que frenóloga era um tipo de vidente que revelava o passado, o presente e o futuro, apenas passando a mão na cabeça para explorar o formato do crânio, ficou animadíssimo para mangar da mulher. Ligou e, quando ela atendeu, as cartas que estavam em sua mão ficaram branquinhas. Aquilo não era um bom sinal. A frenóloga pediu-lhe então que fosse até seu consultório, naquele momento. Preveniu que a sala estava lotada, mas ele entraria imediatamente e não lhe seria cobrado um dólar sequer.

Certo de que se divertiria muito, Mário partiu e encontrou a sala de espera realmente lotada. Mal chegou, foi logo chamado para a consulta gratuita. A frenóloga disse tudo certo, do passado, do presente e do futuro. Infelizmente, ele não acreditou nas palavras premonitórias e não viveu para experimentar a glória que ela antevia, no campo da literatura. Mário Faustino seria, segundo lhe disse, um nome reconhecido e aplaudido internacional. Para que isso não acontecesse, viu apenas um único obstáculo: viagens de avião, num determinado período, especificado e bem desenhado: “não viaje de jeito nenhum, de tanto a tanto. Depois está liberado” .

Incrédulo, teimoso, desafiador, sabe Deus o que mais, Mário Faustino colocou os pés num avião que jamais chegaria ao seu destino. Chocou-se com o Cerro de las Cruces, na altura do Peru. Era o voo 810 de Varig, do qual não sobrou ninguém para contar a trágica história. A companhia ergueu um monumento no local, com o nome de todas as vítimas. Mario Faustino estava a bordo, a caminho de Nova Iorque, onde seria correspondente do “Jornal do Brasil”. Sua morte, no dia 27 de novembro de 1962, havia sido anunciada. Pena que não prestou atenção ao aviso.

Como isso se deu há 58 anos, provavelmente essa frenóloga já não seja mais nem um punhado de ossos brancos. Ela bem que poderia nos dizer quando o pesadelo coletivo vai acabar e, consequentemente, o futuro, o tal amanhã, o novo, vão acontecer.

Eu ando tão nervoso, tão ansioso, tão estressado, tão maluco com tudo isso, com notícia de morte chegando a cada minuto, que, se houvesse uma câmara de congelamento, me meteria dentro e só acordaria no começo de outubro. Se fosse haver Círio, beleza. Seria sinal de que houve o amanhã. Se não, ligaria o play e voltaria a dormir, até a pombinha voltar, trazendo um ramo de oliveira, da mesma forma como fez com Noé, para dizer que a vida havia florescido novamente.

Claro que não sou Noé para ter esse merecimento, mas não custa sonhar com a esperança distante e quase invisível.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Manabu Mabe — Destino, 1969.

Crônica

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