Quem coleciona quem? A história de bicho que adota gente.

Diário de um desespero – ou quase – LVI

João Carlos Pereira

Chicó é uma das personagens mais divertidas da literatura brasileira. Até o “Auto da Compadecida”, obra de Ariano Suassuna , chegar às telas, ele era pouco lembrado. Depois, virou a cara do ator Selton Mello e, dificilmente, alguém fará um Chicó melhor e mais verdadeiro. Fenômeno semelhante, mas igualmente curioso, se deu com Carlos Vereza, na versão cinematográfica de “Memórias do Cárcere”, onde interpretou o autor do livro, Graciliano Ramos. A viúva do escritor ficou de tal modo impressionada, que comentou, à época, ter associado a imagem do marido à do ator.

Chicó era muito engraçado e eu gostaria, de verdade, de ter uma porção Chicó dentro de mim. Medroso que só a moléstia, mais frouxo que calça em porta de loja, fingia que dava gosto. Se metia em encrencas a todo minuto e contava histórias que, de tão absurdas, nem ele mesmo sabia explicar a lógica. Quando lhe perguntavam como aquilo era possível, dizia com a cara mais deslavada: “não sei. Só sei que foi assim”.

Uma de suas histórias mais incríveis, no sentido de ser mesmo “não crível”, é a de uma experiência no amazonas, onde, em vez de ter um pirarucu de estimação, era o peixe quem o tinha. Numa pescaria, fisgou um pirarucu tão grande, impossível de ser domado. O peixe fez tanta confusão, que acabou enrolando seu pescador na linha e saiu o homem arrastando por três dias e três noites, como se estivesse esquiando, até que morreu cansado de tanto nadar. Chicó contava isso com a maior desfaçatez e, quando lhe perguntavam se não teve sede, dizia que não, mas que danada mesmo era a vontade de fumar.

História de gente que tem bicho é comum demais, mas de bicho que tem gente é coisa preciosa. Agora mesmo estou vivendo uma. Há dois cachorros aqui em casa, que não me pertencem. Por mim não haveria nenhum. Mas as meninas gostam e quem sou eu, um quase eterno voto vencido em tudo, para discordar? Minha mulher diz que fui eu que dei as duas de presente e, por isso, não tenho direito de reclamar. É verdade. Mas como pode um cristão suportar tamanha pressão? De minuto a minuto eu ouvia a choradeira: “eu quero um cachorro, eu quero cachorro, eu quero cachorro”, que acabei cedendo.

Mesmo a criatura tendo vendido o cachorro da marca errada, acabou ficando. O bicho virou demônio na minha vida. Late até para sombra. Se passar avião, berra. Se trovejar, faz escândalo. Logo depois apareceu um filhote da marca desejada e veio para casa. Essa é uma besta. Da raça conhecida como cachorro dos monges, onde a deixarem, fica. Dorme o tempo todo e só quer estar onde tiver gente. Viraram dois azucrinadores da minha paciência. Mas não são eles que nos têm. São umas osgas.

O povo aqui em casa acumula medo e nojo desses bichinhos. Como eles não foram convidados e nem são bem-vindos, acredito que nos adotaram como seus. Nó somos a família de estimação dessas osgas. O Paulo Chaves sempre disse que, no mundo das obras de arte e, sobretudo, de antiguidades, se dá o mesmo. Para ele, as peças nos escolhem, decidem ficar conosco e nos possuem como fieis depositários, leais guardadores. Disso posso dar testemunho, porque me sucedeu um caso impressionante.

Numa daquelas minhas muitas idas a Buenos Aires, achei, num antiquário, uma placa de metal extraída da porta de uma carruagem, com uma linda paisagem, em relevo, de uma moça tocando flauta, diante de um lago, com cisnes por perto. “Art nouveau” puro. Eu já possuía uma e desejava fazer o par. Como estava no fim da viagem, o dinheiro já era contado. O valor não era tão alto, trezentos dólares, eu calculo. Pensei até em pedir emprestado a um amigo, a quem restituiria até na mesma hora, transferindo dinheiro da minha conta para a dele. Fui tão severamente advertido pela esposa, que desisti. Voltei para casa sem minha placa.

Um ano depois, retornei à cidade e procurei a loja, cuja dona se chamava Elza. Como era freguês, entrei perguntado pela peça que tanto desejava. Eu sabia onde ficava pendurada e fui procurando na parede, até que a vista bateu nela. “É aquela, dona Elza”. A mulher me olhou com uma cara de espanto e disse: “o senhor acredita que toda vez penso em tirá-la de lá e colá-la num lugar mais visível? Faz um ano que não toco nela. Isso não é normal”. Para mim, era. A placa estava ali, à minha espera, mas caí na ingenuidade de pedir que a reservasse. Ela só fez me olhar e perguntou: “guardar? O senhor está doido? Isso não se guarda! De repente chega um e leva. E se o senhor não voltar?” O diabo da placa ficou um ano me esperando e, justamente naquela hora, viraria objeto de disputa.

Ofereci cem dólares de entrada, ali, cash, na mão, e doa Elza abriu um sorriso enorme: “el plato es suyo, señor Juan. Pague el resto cuando pueda, pero no se demore”. Dias depois, voltei com os duzentos que faltavam e ela estava embaladinha, pronta para a viagem. Em casa, abri o pacote com o coração saltado de felicidade. Ia, enfim, ter meu par de porta de carruagem. Pense numa decepção, minha senhora. Não era o outro lado da porta. Era o mesmo. Logo, em vez de ter um par, tinha duas iguais. Me deu uma raiva tão grande, que coloquei a placa à venda por quatrocentos dólares e consegui. Lucrei cem, é verdade. Mas continuou sem o par. Agora não faço mais questão. Minhas prioridades, realmente, são outras e o tempo de acumular acabou.

Claro que as osgas não sabem, mas viraram nossas donas, já que não as chamamos, nem as alimentamos, como fazemos com os passarinhos que, todos os dias, vêm cantar na sacada, à espera do café da manhã. Mas por que não vão embora? Por que não se mancam? Comida não lhes oferecemos. Não fica nada de fora. Mesmo assim, circulam, o que nos obriga a redobrar os cuidados com a higiene, o que, nesta época, virou obsessão.

Quando são flagradas, basta que se bata o pé e correm para dentro do rodapé ou somem pela janela. Umas surgem com o rabo cortado, embora ninguém as maltrate. Se elas se alimentam de mosquitos ou de carapanãs, aqui passam fome. Frutas não consomem porque não deixamos. Seu papel na cadeia alimentar desconheço e nem quero saber. A única coisa que desejo compreender, sobre osgas, é a razão de nos haverem adotado e de ficaram nos espreitando.

Se alguma vez alguém me perguntar como é isso de osga adotar gente, vou dizer que não sei. Só sei que acontece.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
E-mail | Facebook | Série Diário de um Desespero – ou quase

Imagem: Alex Vallauri — Lagartixa, s/d,

Crônica

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