Uma casa perdida no ar e a poesia do momento

Diário de um desespero – ou quase – XV

João Carlos Pereira

Semana passada, anunciei que ia preparar um prato especial para o jantar, mas minha filha mais velha, que, por questões profissionais, trabalha com agenda, pediu que esperasse o final de semana para aproveitarmos melhor a iguaria. Como o confinamento conseguiu debulhar o calendário, tirando do mês cada um de seus diazinhos, deixando a triste imagem de um sabugo sem alma, ser hoje, ou final de semana, para mim, é tudo igual. Os dias viraram, sem distinção, feriado nacional. Mas agora, contra toda lógica absurda da pandemia, é final de semana, é domingo e eu sinto muita falta de ser domingo de verdade, porque é Domingo de Ramos.

A partir do Domingo de Ramos, em tempos normais, meus sentidos se voltavam para a vivência da Paixão do Senhor.  Participaria da Procissão de Ramos e voltaria para casa com um raminho de palmeira.  Ontem, na conversa  que tenho todos os dias com o muito querido Édson Salame, falamos sobre a impossibilidade do ato presencial, porque a coisa está feia, bem mais feia do que se diz, e ele lembrou que sua mãe mantinha duas tradições: pegar palha benta, tecer uma cruz e amarrá-la atrás da porta de entrada da casa, como sinal de proteção; e, na quadra junina, ia buscar aquele pãozinho redondo, distribuído no dia de Santo Antônio, a fim de colocá-lo na lata de farinha, para que nunca faltasse comida.

Em casa se cultivava a mesma prática. Cresci vendo a cruz feita de palha, o ano todo, nos protegendo, e o pãozinho na lata, o que garantia mesa farta, mesmo em épocas difíceis. Os galhos bentos ainda preservo, mas já não tenho latas de mantimentos. As despensas sumiram da arquitetura moderna, porque os supermercados tornaram esses espaços completamente dispensáveis.  Precisou de alguma coisinha, é só correr e comprar.

Sempre falo da casa onde nasci, porque ela ficou de tal modo impregnada em minha memória, que as referências mais antigas brotam de lá. Na memória de uma criança, tudo é muito grande. Recordo de minha amiga professora Guilhermina Nasser contar que achava imensa a igreja de sua infância, em Portugal, onde se colocava “ao pé do padre”. Um dia, já adulta, retornou ao seu lugar de origem e percebeu o templo “encolhido”. Acho que em casa era assim também: tudo muito grande aos meus olhos.

Tantos anos se passaram e o imóvel foi demolido para dar lugar ao edifício do Tribunal Eleitoral, na Cidade Velha.  Ela começava na João Diogo e o quintal acabava na São Francisco. A planta acompanhava o padrão de todas as moradas do mesmo nível, no bairro: dois janelões (ou seriam quatro?) e porta alta, sala de estar, alcova, sala de jantar com área mais íntima, corredor e as inúmeras janelas, que davam para algo que hoje se chama de jardim interno, muitos quartos, um único banheiro, cozinha e despensa.

Era neste pequeno cômodo que ficava o rancho da casa. Grandes latas pintadas de verde, onde se armazenavam feijão, arroz, farinha e açúcar. Latas de banha, de manteiga e chouriço também havia, assim como material de limpeza, incluindo a cera, que era espalhada por um aparelho desparecido e transformado em peça de museu: a enceradeira.

Para lustrar o piso de madeira dos grandes cômodos era preciso, primeiro, raspar a camada anterior com uma palha de aço bem grossa, o que garantia um brilho maior. Só depois se espalhava a cera. De primeiro eram as manuais, com base de ferro presa a um cabo de madeira, pesadíssimas, com flanela na parte inferior. Depois veio a elétrica, leve, funcional, mas que dava muito choque. A geladeira, movida a querosene, foi luxo que apareceu já no final dos anos 50. Até então, peixe, camarão, frango e carne, tudo fresquinho, era levado na porta. O que sobrava preserva-se numa caixa de isopor, coberto com gelo da fábrica Guarani, nossa vizinha.

No quintal da casa de Cidade Velha havia uma sequência de quartos, onde moravam as pessoas que vinham  do interior, a fim de trabalhar para minha bisavó. Era uma ruma de gente, tanto de um lado, como de outro. Os primeiros donos tiveram cinco filhos, a mais velha, minha avó, mãe de meu pai, se chamava Edithe, de quem minha irmã e minha prima, Lilian Edithe, herdaram o nome. As mulheres casaram todas lá e o único filho morreu jovem. Além dos familiares e empregados havia uma categoria transitória, os agregados, crias da casa, que não eram parentes, nem aderentes, mas iam ficando. Trabalhavam, porém não eram empregados. Nem sei se recebiam alguma coisa, mas tinham um teto, comida, roupa lavada e estudos garantidos. Alguns ficaram conosco até a morte.

Não sei precisar a idade de minha bisavó, mas ela morreu, no começo dos anos 60, com mais de 90 anos. Fazendo uma conta rápida, deve ter nascido em 1870, mais ou menos, quando D. Pedro II ainda reinava. Era pernambucana, de Olinda, e cresceu numa família de posses e gente muito branca, num país onde a escravidão era legalizada. Talvez por isso ela e o marido, coronel de patente adquirida, coisa mais normal deste mundo, tenham se acostumado a uma espécie de casa-grande, sem senzala, graças a Deus, mas com muita gente para servir. Sempre ouvi histórias lindas a seu respeito e sobre a imensa generosidade para com os mais pobres e os netos, sobretudo para com meu pai, a quem coube educar e amar como se filho fosse. Minhas tias diziam que sua mãe era uma alma santa e falavam maravilhas a seu respeito. Papai compartilhava as mesmas informações.

A cruz de palha trançada, o pãozinho na lata de farinha, o hábito de todos se reunirem em volta do rádio para escutar as novelas da PRC-5, o costume de ter cadeiras na calçada, no final da tarde, o pão e o leite deixados, ainda de madrugada, na soleira da porta, de onde jamais foram surrupiados, a casa onde se praticava um catolicismo pré-conciliar, tudo isso passou. Tudo isso virou memória e está prestes a se transformar em esquecimento.

Minha família de origem deu à Igreja um cardeal, que era irmão de meu bisavô e foi primaz do Brasil; um padre, meu querido primo Carlos Coimbra, e, salvo engano, duas freiras. Era dever das gentes de outrora abastecer os seminários e conventos com pelo menos um filho. Eu bem que quis, mas não tive a necessária coragem. Meu confessor e pai espiritual, padre Luciano Cimam, várias vezes tentou tirar da minha cabeça a ideia de entrar para o sacerdócio. O problema não era a falta de fé, nem de vocação. Era a indisciplina. Igualmente quis que minha filha mais nova ingressasse no Carmelo e fosse carmelita descalça, mas as irmãs trataram de desviá-la do caminho. Hoje, acho que poucas meninas desejam ser freiras. E impor uma vocação deveria ser crime.

Penso em todas essas coisas, no dia em que se começa a celebrar a Semana Santa, a cujas cerimônia assistirei pela televisão. Sinto muita falta de ir à missa e de viver em comunidade os momentos que virão, mas, como se diz agora, é assim mesmo. Faz parte. Uma hora termina. E se posso copiar Mario Quintana, cantarei que nem ele:

Esse coronavírus que está aí
atravancando meu caminho,
ele passará
eu passarinho.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

Imagem: Lígia de Medeiros – Flor geométrica (azulejo)

Crônica

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