A vida com e sem bússolas, mapas e GPS

Diário de um desespero – ou quase – XI

João Carlos Pereira

Das tantas coisas que passei pela vida sem  conseguir aprender, três, agora, me vêm à cabeça, quando busco um norte para vida confinada: usar mapa, seguir bússola e me entender com GPS, ainda que seja em português, mas preferencialmente não no português de Portugal, porque aí que me atrapalho todo.

Mapa sempre foi um problema insolúvel. Primeiro porque é grande demais para segurar aberto, com aquelas dobraduras aerodinâmicas, parece feitas para levantar voo e me perturbar. Muitas vezes, como nos filmes de comédia, andando com as janelas do carro abertas, mapas voaram na minha cara. Quando são menores, mais difíceis se tornam. Não consigo enxergar direito e me perco. Com bússola, piorou. Nem gosto de dizer que fui aspirante a escoteiro, porque isso desmoralizaria a classe. Aprendi várias normas, todos os hinos da República, regras básicas de higiene, mas mexer com bússola, jamais.  Com GPS, porém, a desgraça é maior.

Dirigir pelas estradas de Portugal é como andar sobre um tapete, sobretudo as  grandes rodovias. Quando o caminho, eventualmente, me obriga a entrar pelas rotas antigas, cheias de curvas, atalhos e prolongamentos, algumas até de terra batida, eu enlouqueço. A mulher do GPS diz: “volte para trás”. Aí me dano e pergunto, sabendo que não me ouvirá e sem dar-lhe chance de me responder ou explicar, como se volta para frente. Só se for como no filme “de volta para a futuro”.  Se ela orienta, na rotunda, “sair na quarta saída”, além de me aborrecer com a redundância, quase uma “rotundância”, raramente acerto e pego uma antes. Mas aí o problema já é meu. O trajeto é recalculado a todo minuto e a viagem não acaba nunca. 

Uma única vez, me achando o tal, peguei um GPS em francês e me danei pelo sul da França, certo de que estaria em casa. A mulher do aparelho só podia pensar que eu era leso e repetia as orientações várias vezes. Na primeira, eu comemorava: “beleza, é por aqui. Tranquilo”. Logo depois, falava a mesma coisa e eu me estrepava não em verde e amarelo, mas em azul, branco e vermelho, as cores da bandeira que tanto amo. Claro que não cometo essa imprudência em Paris, porque não sou louco de dirigir naquela cidade, mas em Avignon, não deveria ser difícil. Para mim, porém, que me perco até em Icoaraci, tudo é um desafio enorme.

Se não aprendi a mexer com a tecnologia mais simples da modernidade, que é o GPS, e a mais remota, que guiava os homens por mares nunca dantes navegados, se aprumando pelas estrelas e de olho no astrolábio, orientados por uma simples bússola, pelo menos, agora, consegui lidar com o passado graças à terapia; olhar para frente, sem me apoiar no vazio, e, sim, nas possibilidades; viver o presente com liberdade, resultado de um autoconhecimento sofrido e verdadeiro; e, nesta hora infame, pensar em quem está à direita e à esquerda, bem mais fragilizado do que eu.

Olhar para mim, em qualquer que seja o momento, é um exercício de vida. Custei muito a mirar no alvo mais precioso de minha existência, que é meu mundo interno, e a entender que paisagens são meros complementos da vida, diante das quais as coisas se dão. Paisagem existe como complemento, como cenário.

Os melhores caminhos, as melhores rotas, a mais importes trilhas estão do lado de dentro. Para conhecê-los, precisei me embrenhar por florestas escuras e perceber, ao longe, os passos de onças na noite perdida, o movimento das cobras e o pio das corujas, o riso aterrorizante das matintas.  Andar sobre mortos e enfrentar a própria morte, que me visitava a cada dia para levar partes minhas em completo desuso ou em decomposição, como a vaidade desmedida e o escudo da dissimulação.

O movimento que fiz para os domínios da alma em sua fase minguante, sem sol, foi a mais difícil de todas as experiências que vivi. Como é muito difícil consertar um avião em pleno voo, o Senhor me permitiu descansar várias vezes. Parei o trabalho, interrompi   pesquisas e comecei novas, finalizei, ainda que temporariamente, laços de ternura, entrei por labirintos escuros em busca daquele a quem, por tanto tempo, sufoquei: eu.

A volta à luz não se deu por caminhos floridos ou iluminados, mas esbarrando pelos muros que levantei para me afastar da vida. Quando, enfim, deixei de ouvir as vozes que vinham do fundo do poço, estava reconciliado comigo próprio e deixado para trás uma enorme quantidade de pele morta.

Reformas íntimas não acontecem como que por milagre, mas cada vez que se faz uma grande faxina, o trabalho diminui consideravelmente. Teoria e prática precisam estar em constante afinação. Quando mais se removem entulhos da alma, máscaras da face, sobrepeso do coração, melhor a vida flui.

Bússolas, mapas e GPS internos se tornaram desnecessários. Aprendi todos os caminhos da minha vida. Para andar pelas estradas cobertas de asfalto, ainda preciso de instrumentos e de um auxiliar na direção. Para trafegar nos meus jardins, ficaram obsoletos. Eu virei meu próprio farol.  Não voltei outro da busca interior. Voltei eu mesmo.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

Crônica

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