Os anjos do Brasil e os que me protegem

Diário de um desespero – ou quase – X

João Carlos Pereira

A cena foi descrita por Mario Quintana e eu a utilizei, como recurso de trabalho, há uma semana, na primeira aula virtual que ministrei na vida, depois de uma jornada de quatro décadas como professor. Foi assim: havia um Ogre que, por esporte, adorava exibir seu ar de ferocidade. Não se sabe como, porque o poeta não disse, o monstro entrou na casa onde havia um inocentinho chamado Malaquias.  Aproveitando-se de um descuido dos pais, roubou o bebê.

Com requintes de perversidade, pegou a criancinha, colocou-a sobre a mesa, atou um guardanapo ao pescoço e já ia devorar o pobrezinho, quando Nossa Senhora – Nossa Senhora de Nazaré, com certeza – interferiu com um milagre. Malaquias criou asas e saiu voando, todo confuso, coitado, janela a fora. Ogre (sobre essa parte não há detalhes) ficou furioso, deve ter pulado numa perna e noutra, porque viu sua refeição desaparecer no ar. “Dada, porém, a urgência da operação,” escreveu o meu Quintana, “as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros.”

Essa é a história do anjo Malaquias.

O que vem a seguir não é coisa muito alegre. Todos nós, em situação limite de dor ou de solidão, segundo depoimento do próprio Mario Quintana, ouvimos, mesmo sem saber do que se trata, o choro agudo do anjo Malaquias.  Nesse confinamento horroroso, tenho certeza de que, em mais de algum momento, escutei um pranto sofrido, distante, maltratado, longo e frio, nascido dos olhos do único anjo com asinhas na bunda.

O anjo Malaquias (imagem da internet)

Enquanto o anjo Malaquias se ocupa daqueles que fazem besteiras, como o sujeito “que aposta o ordenado, o sapato dos filhos, o vestido da mulher, a conta do vendeiro;  da mundana que pinta o rosto; do orador que para em meio a uma frase e do tenor que dá uma nota em falso”, outros anjos, todos brasileiros de nascença, embora sem asas sobre os ombros, têm cuidado de seus irmãos.

Eles surgem diariamente na televisão, realizando pequenos gestos de solidariedade ou então agem na sombra, sem que ninguém lhes reconheça a face, distribuindo comida, roupa, alimentos e remédio aos que nada têm e vagam pelas ruas, como os pobres venezuelanos, neste calvário de amargo desamparo.

As correntes de solidariedade, agora, se multiplicam e se fortalecem com uma velocidade impressionante.  Vejo na internet pessoas agindo para que não falte comida na mesa dos asilos e orfanatos. Como por um milagre, isso não tem acontecido.  Não sei, aí é limitação minha, se anjos operam milagres ou se apenas ajudam os seres humanos porque estão muito próximos de nós. De qualquer forma, os anjos brasileiros, inclusive aqueles que saem no Círio, vêm conseguido maravilhas, quando é necessário abundar o pouco pão.

O amor, às vezes, ganha outros nomes, quando se trata de espalhar alegria entre as pessoas. Há quem chame certos gestos de altruísmo, de generosidade, de caridade, de filantropia, de humanidade, de compreensão, de piedade, de bondade, de beneficência, de benevolência, de benfeitoria e de tudo mais que signifique mão estendida, mas, no fim, a palavra certa é amor.

É isso que tenho visto multiplicar-se Brasil, não apenas na pandemia. Basta que a chuva inunde uma cidade, ou um canal encha e  acabe com os pertences de algumas famílias, ou que um rio transborde e alague o sonho de toda uma gente, ou uma barreira se rompa, para que brotem asas invisíveis nos ombros das pessoas e, num piscar de olhos, o amor se espraie abundantemente.

Ninguém pede créditos por esses atos de enorme generosidade. Criaturas que, eventualmente, nem possuem o suficiente para si mesmas, repetem o gesto da viúva, aquela que deu ao templo o que era de sua subsistência para a causa do Senhor. Jesus estava lá e viu. Todos depositaram o que lhes sobrava. Ela ofereceu o que não podia, mas o fez com muito amor. Logo, a oferta da viúva, embora pouca, foi a mais valiosa aos olhos do Criador. O brasileiro age assim.

Entre os anjos que conheci na vida, muitos apareceram sob a forma de um amigo. Recentemente, uma pequena legião se cercou de mim e está me dando a força de que necessito, nesta hora desconcertada e cheia de exasperação: os meus colegas da TV Liberal.

Num instante em que o desespero bate à parta e a autoestima despenca para abaixo do tornozelo, estão sendo decisivos. Impedido, por causa da idade, de ajudá-los como gostaria, eles é que cuidaram de mim. Tenho estado nos telejornais, falando sobre religião e outros temas. A emissora manda equipamento para casa – que paparico, meu Deus! – e eu participo da programação, tornando-me útil, num cenário em que pareço ter mãos e pés engessados.

Eles são tantos, inúmeros, a bem dizer todos, que me cobrem com atenção e carinho para que eu me sinta necessário. Jamais, nem que viva mais 20, 30 Círios, saberei ser grato o suficiente a essa equipe, que deveria ser chamada de família. A lista é longa, e eu poderia citar, pelo circuito fraterno que formam, o Fernando, o Paulo, a Simone, o Márcio, a Tayse, o Péricles, a Priscila, a Jalília, a Josy, a Val, o Lucas, todos os meninos do estúdio, e mais uma quantidade enorme de seres revestido da maior humanidade que, agora, se confundem com asas à minha volta.

Não são mais colegas, companheiros ou amigos. São anjos.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

Crônica

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