Vou bem ali, não demoro e já volto

Diário de um desespero – ou quase – IX

João Carlos Pereira

Houve um tempo, e nem era tão recuado assim, em que eu podia atravessar o jardim e sair para a vida, desbravar o mundo, conquistar terras. Era fácil organizar expedições para outras luas e caminhar sem conhecer o rumo. Houve um tempo, e ele pode ser um quase-ontem, em que minha casa era um ponto de chegada e de partida.  Esse tempo se perdeu no calendário e, até uns dias, eu estava confuso entre ser terça ou a quinta. Não havia mais diferença entre quarta e sábado, domingo ou nunca mais. O que era plataforma, virou porto (in)seguro de angústias.

Descobri que nosso jardim, nosso pequeno jardim, todo feito de verdes, sem nenhuma outra cor, é mais bonito do que alguns pelos quais caminho, quando estou do outro lado do mar. Mas que mar? Hoje não existe nada para além de minha janela. O “mar sem água”, diria Ruy Meira*, poeta extraordinário,  no título de seu único livro que equivale, em beleza e densidade, a uma obra completa, é uma possibilidade real.

Não vejo o mar, mas o rio que passa ali adiante não é, nem de longe, o mais belo desta aldeia. É cheio de vontades, arrogante, sempre disposto a medir força com o outro que se lhe avizinha. Falo do rio Guamá, que enfrenta, todos os dias, o Pará, este mais doce, talvez por ser mais próximo das gentes do Ver-o-Peso, tomou-se de humanidade.  De casa, eu conseguia divisá-lo. Subiram tantos edifícios, que mal percebo a curva descrita para entrar em Belém.

Difícil compreender o que se passa. Não há amparo no passado de um século. Palavras inexistem para entender o que se impôs, nem o que não há, que é o amanhã. Bastou  alguém me perguntar, com verdadeira agonia, “o que vai se nós”, para que a ausência de uma resposta, por mais vazia que fosse, passasse a me torturar.

Para que dormir, a não ser para nos tornar mais próximos do fim, uma vez que amanhã pode nem acontecer? Deita-se hoje para acordar em qualquer dia. Passei a inventar coisas para me distrair e fingir que não me importo com o tempo. Fica difícil manter rotina, quando a vida toda flutua. Deitar na rede pode comparar-se ao movimento do pêndulo de um grande relógio e, a partir dele, tentar o improvável.

Inventei de escrever uma crônica todos os dias e publicá-la nas redes sociais. A experiência foi muito além do que poderia imaginar. Antes das postagem, recebia duas ou três solicitações de amizade por semana. Agora, são pelo menos 50, diariamente.  Hoje, quando me preparava para postar, já havia dado ok a quase 70. A realidade virtual é, realmente, uma maravilha, da qual, por absoluta inabilidade, custei a entrar. Estou me achando o máximo. Imagine quando, de fato, souber usar as ferramentas.

O tempo-solidão que impõe o distanciamento também traz algumas doces lembranças. Uma vez, conversando com o Edwaldo Martins, ele se revelava en-can-ta-do com um aparelho do qual, hoje, ninguém mais ouve falar e, com certeza, já virou peça de museu: o fax. Para quem não liga o nome à pessoa, fax era um telefone que enviava e recebia mensagens, bem parecido com o telex, outro monstrengo do qual ninguém lembra. Na época, jornal algum podia viver sem eles e quem tinha um fax em casa, possuía uma linha direta com o universo. “Imagina que eu coloco uma lista de discos que quero e passo para minha amiga em Nova Iorque. Se eu fosse dizer o nome de um por um, a ligação demorar uma eternidade. Com o fax, não custa nem um minuto e não tem jeito dela copiar errado, porque vai tudo escrito”, me dizia, feliz da vida, o querido Didi, enquanto sonhava com os discos que Vera Pinheiro lhe traria.

Nunca fui a Nova Iorque e, se me permitem a sinceridade, nem tenho vontade. Curiosidade, então, passou longe. Ando tão acomodado dentro de mim mesmo, que, quando me era permitido sair, preferia ficar em casa. Era opção, não regra a ser cumprida. A vontade louca que sentida viajar, parece que me abandonou. Ou, pelo menos, esfriou. No começo do ano precisei resolver assuntos de família em Portugal e nem me animei para tomar um avião passar uns diazinhos em Paris. Estava tão perto… e não fui. Preferi assim. Os lugares, consigo perceber, estão dentro de mim. Não necessito mais de paisagens para ser feliz.

Do jardim, diviso a rua inexistente e os caminhos improváveis da minha solidão. Esta quarentena já me parece ter quarenta anos e não uns poucos dias. O que não aprender, nesta hora, sobre a vida, os afetos, o tempo, o jardim e o mar, jamais me será permitido estudar novamente.

Ir bem ali e voltar,  neste momento, é muito mais do que atravessar o oceano.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
jcparis1959@gmail.com

* MEIRA, Ruy de Bastos. Mar sem água: poemas. Belém: Grafisa, 1991.

Imagem: Jardin de l’artiste à Vétheuil. Monet, 1881.

Crônica

1 comentário Deixe um comentário

  1. Esta crônica suave me levou ao meu rio querido o Guamá, os popopos, cortando suas águas, o ondular de suas pequenas ondas, o vento no meu rosto, o picolé de taperebá. Paradinha que fazia no Vadião após dar aulas ou ir ao BB. Agora não posso, “ir ali e voltar já”.
    Gostei muito.

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