Eu sei quem tu és

Joana Eleuthério

A fé não é uma instância, é um caminho.

José Tolentino Mendonça

Eu estava contemplando e meditando a relação de João Batista e Jesus, quando a narrativa evangélica me apresentou o início da vida pública de Jesus depois da notícia da morte de seu primo, que clamava no deserto para que os caminhos do Senhor fossem preparados. De uma oração e de seus respectivos textos, saltei para outra oração e outros textos, embora muito relacionados.

Dessa maneira, logo me vi como alguém ali da região que, sem timidez alguma, se aproximou de Jesus e caminhava com Ele pela praia do Mar da Galileia em uma tarde de brisa fresca. Não éramos muito conhecidos. Meio desconfiado, apenas cumprimentei-o e fui andando ao lado dele. Eu sabia somente o que todo mundo sabia: Aquele homem, com ares de nobreza, era um nazareno que trabalhava em uma carpintaria com o seu pai. Ele caminhava silenciosamente, parecia rezar…

Após uma caminhada de alguns minutos, ele parou. Eu também. Ele ficou observando dois homens em um barco fazendo tentativas de pescar alguns peixes, certamente para vender na feira da aldeia mais próxima. De repente, Ele chamou pelo nome de um deles e eu até imaginei que já fossem amigos. Os dois homens conduziram o barco até bem pertinho da praia e Jesus então lhes disse: “Sigam-me e eu farei de vocês pescadores de homens.” Os dois homens amarraram o barco ali mesmo e, imediatamente seguiram Jesus, era Simão Pedro e seu irmão André. Logo depois, vi o velho Zebedeu e seus filhos consertando um barco onde, habitualmente, também pescavam – a pesca era para eles uma tradição familiar. Jesus aproximou-se deles e chamou os jovens, fazendo-lhes o mesmo convite que fizera antes aos dois irmãos que já o seguiam. Para minha surpresa, vi Tiago e João deixando tudo para trás – o pai, os empregados e os barcos. Então eles seguiram os três homens, sem nada perguntar. “Coisa de louco”, falei comigo mesmo.

Como não me senti convidado, depois de caminhar mais um pouquinho com o grupo, voltei e fui conversar com o velho Zacarias porque imaginei que ele ia precisar de mais gente para ajudá-lo com os seus barcos de pesca. O velho parecia meio confuso com tudo aquilo, mas imediatamente me contratou. Eu estava desocupado há algumas semanas, precisando demais de voltar a trabalhar. De longe, pude observar que os cinco estavam indo em direção a estrada de Cafarnaum…

Poucos dias depois, a narrativa evangélica falou-nos da primeira atividade pública de Jesus, que aconteceu na Sinagoga de Cafarnaum, cidade escolhida por Jesus para ser a residência de sua primeira comunidade de apenas quatro seguidores, inicialmente. Era um sábado e Jesus, estando na sinagoga como um homem já adulto, poderia tomar a palavra e comentar aquilo que havia sido proclamado nas primeiras atividades regulares do culto. E foi o que Ele fez, deixando os populares encantados com os seus ensinamentos, tanto pela forma quanto pelo conteúdo – Jesus fazia-o com simplicidade, serenidade e autêntica autoridade. João Batista, quando apresentou aquele que viria como “o mais forte ” (Mc 1, 7), também havia afirmado que Jesus era um homem cheio do poder do Espírito Santo, conforme podemos ver na nas palavras de Enzo Bianchi – A Jornada de Cafarnaum.

Na minha oração contemplativa dessa passagem evangélica, esta frase sempre sobressaiu no texto, como se estivesse em negrito, caixa alta ou em alto relevo.

Eu sei quem Tu és: Tu és o Santo de Deus.

Mc 1, 21-28

Por que? – é o que me pergunto continuamente. Sempre me intrigou o fato desse homem, tomado pelo demônio. dissesse com tanta certeza e segurança, a ponto de gritar para que toda a sinagoga pudesse ouvi-lo (Mc 1, 24): “Eu sei quem tu és: tu és o santo de Deus.” Enquanto isso, podemos observar que até mesmo os discípulos mais próximos de Jesus – conhecidos como “os doze”, em tantas circunstâncias, tenham manifestado insegurança sobre a identidade de Jesus, como está em alguns textos evangélicos (Lc 9,18-20; At 1,6; Jo 6,64 etc.). O próprio João Batista, quando na prisão, teve dúvidas e enviou mensageiros para saber a identidade verdadeira de Jesus (Mt 11,2-3).

Contudo, o que me inquieta e angustia é o fato de nem sempre me sentir capaz de reconhecer na história de Jesus, o Filho de Deus vivo. Eu conheço a história Dele desde a visita do anjo Gabriel à Maria, sua mãe. Nos Exercícios Espirituais, pude contemplar a infância e a vida pública de Jesus e seria capaz de repetir toda a história de sua vida desde a gruta em Belém, seguida da fuga de Sua família para o Egito para escapar da mão de Herodes. Mas, o que me falta mesmo é sentir que caminho com Ele todos os dias; o que me falta mesmo é perceber Sua presença do meu lado como meu irmão, amigo e mestre.

“Quem é para nós esse Profeta da Galileia, que não deixou atrás de si escritos, mas sim testemunhas? Não basta que Lhe chamemos ‘Messias de Deus’. Temos de seguir dando passos pelo caminho aberto por Ele, acender também hoje o fogo que queria pôr no mundo. Como podemos falar tanto Dele sem sentir a Sua sede de justiça, o Seu desejo de solidariedade, a Sua vontade de paz? ” (José Antônio Pagola)

Como diz Pagola, não basta repetirmos incansavelmente o Seu mandato de amor. É necessário adorarmos em Jesus o Mistério do Deus vivo, encarnado no meio de nós. “Não basta confessar a sua condição divina com fórmulas abstratas, afastadas da realidade e incapazes de tocar o coração dos homens e mulheres de hoje. Temos de descobrir nos Seus gestos e palavras o Deus Amigo da vida e do ser humano.”

Reconhecer Jesus, como o Deus encarnado no meio de nós implica “manter sempre viva a sua inquietude por caminhar para um mundo mais fraterno, promovendo um amor solidário e criativo para com os necessitados. Que sucederia se um dia a energia do amor movesse o coração das religiões e as iniciativas dos povos?

Neste momento, releio meu texto e percebo que tudo que falei até aqui é muito impessoal. Mas se Jesus, que caminha comigo nesses quase setenta anos de minha vida, me perguntasse de repente: “E você, Joana, o que me diz que eu sou?” Acredito que eu responderia: Você é o meu porto seguro, o amigo que nunca falha, que conversa comigo todos os dias, que me anima, que me instrui e corrige e me ensina muito do Seu amor incondicional. Embora, eu seja pequena, confusa, fraca … Às vezes, duvido, me sinto confusa…

“Eu sinto que a procura de Deus é a dimensão mais forte da minha existência. Em última análise é dessa procura – humilde, inacabada, sempre a ser refeita – que me alimento. Vivo na sua expectativa, deslumbro-me com a revelação surpreendente e polifônica da sua presença, sofro e interrogo o seu silêncio… Com a consciência profunda, porém, de que estes contornos mais intensos ou mais frágeis da minha procura não são os mais importantes. Importante é, nas horas da graça ou naquelas de densa escuridão, saber-se buscado, saber que é Deus quem nos procura…” (José Tolentino Mendonça)

Essas palavras de Tolentino me abraçam, me confortam. Com ele disse, o nosso maior desafio é o de viveremos na confiança verdadeira, lembrando e acreditando nas palavras de Jesus: “Eu estarei convosco todos os dias, até ao fim dos tempos”.  Assim, o que me consola é saber que nas contemplações inacianas, tão presentes na experiência de Santo Inácio, há um segredo típico desse modo de orar, que é perceber a linguagem da alma, trazendo-nos as imagens que tocam o nosso coração provocando as moções do Espírito Santo. Portanto, as palavras nunca são o mais importante.

Diante das imagens que permanecem ao terminar este texto, talvez inconcluso, brigo com o estilo de Jesus em algumas afirmações muito difíceis de alcançar a significação como: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Ou mesmo na sua forma de responder a eventuais perguntas, como esta de dois discípulos sobre o local onde morava, Ele disse apenas: “Vinde, e vede.” Vê-se que eu esbarro com pequenos entraves, dificuldades que merecem uma oração silenciosa e atenta para dar espaço para a ação do Espírito de Deus. Como Jesus nos prometeu em sua despedida logo após a Ressurreição, temos hoje um Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai nos enviou a pedido do Filho, que pode nos ensinar e explicar todas as coisas e nos lembrar de tudo o que Jesus disse.

Como o papa Francisco nos disse hoje em uma homilia: “O essencial é a sua relação com Deus. E nós muitas vezes esquecemos disto, como se tivéssemos medo de ir propriamente ali, onde há o encontro com o Senhor, com Deus.

Portanto, peçamos a Deus-Pai rico em misericórdia que sejamos merecedores da seu amor incondicional diário e que sejamos capazes de reconhecer o fogo do Espírito, ardendo em nossa vida para transformar o nosso olhar para que possamos reconhecer Jesus – o filho amado, que continuamente está no meio de nós. Assim, seguindo os passos Dele, estaremos capacitados a proclamar para todo mundo ouvir: “Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus”. Amém.

Brasília, 18 de janeiro de 2020.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

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