E a Mãe de Jesus estava ali

Adroaldo Palaoro, SJ


Eles não têm mais vinho

João 2,3

É frequente estar perto e não ver os outros, estar junto e não se dar conta dos problemas das pessoas.
Quão importante é reaprender a olhar! É decisivo ativar um “olhar contemplativo”, capaz de “ler” por detrás das situações e compreender o que está oculto no mais profundo de cada um.
Todos “estavam” no casamento, em Caná, mas nenhum percebeu que “estava faltando vinho”. Só a Mãe de Jesus foi capaz de dar-se conta de que a festa iria terminar mal. E sai em defesa dos recém-casados, que também não estavam inteirados da situação. Graças a ela, aquilo que poderia terminar em um problema, converteu-se em festa.

A mãe Maria representa o caminho de esperança da história israelita; ela vive ainda na carência, nos tempos da lei, rito de purificações, mas conhece sua falta, sabe descobri-la e colocá-la diante de seu Filho. Dessa forma supera já o tempo de negatividade e se adianta, conhecendo e preparando aquilo que não pode resolver por si mesma. Por isso, faz o pedido ao “bom filho messiânico”, o Servidor das Bodas da humanidade, que é Jesus. Ela, a que estava presente no casamento, propicia que seu filho revele sua “hora”.
Ela não está ali para pôr condições, nem para dar conselhos, nem para proibir e controlar seus filhos, mas para desejar que “todos tenham vinho”, que possam viver em amor e bom vinho, e serem felizes.
Maria, é mãe de todas as mães que querem o melhor vinho do amor para seus filhos. Este mundo se salvará se houver mães que dizem: “eles não têm mais vinho”.

A passagem das Bodas de Caná é um relato messiânico, que marca o sentido de todo o evangelho de João, o sentido da vida cristã como festa de casamento, como festa de família. Não se diz que Maria tinha sido convidada. Ela já pertence ao espaço e tempo das Bodas, fundadas no caminho da promessa e busca humana. Em sua função de mãe messiânica, ela não é o Messias, mas está presente nas Bodas, deixando refletir nela e atualizando a experiência e esperança israelita.

Não sabemos se é que havia outros que viram e sentiram a carência de vinho, à chegada de Jesus, mas sabemos que Maria o avisou. Ela olha atenta às necessidades dos noivos, satisfeita diante de uma festa de casamento que promete felicidade a todos os que dela participam. Poderíamos dizer que ela está a serviço da festa do amor e da vida: quer que haja prazer, que haja vinho e, enquanto outros estão talvez perdidos em afazeres de menor significado, ela sabe manter distância e descobrir as necessidades das pessoas, o mesmo que fez no seu canto do Magnificat.

O evangelho de hoje destaca a carência de vinho na festa de casamento. Faltava alegria e prazer naquele ambiente judaico, obcecado em lavar-se e purificar-se. Faltava entusiasmo nas pessoas que se preparavam para a chegada de um Deus que não reconheciam. Isso sim, havia abundância de água: centenas de litros de água e de normas que não desembocavam no louvor nem na alegria. Aí é onde Maria aproveita a ocasião e situa o seu filho no centro da história de todos eles. Aí é onde Jesus antecipa a manifestação de sua autoridade: “Enchei as talhas de água!”; “agora tirai e levai ao mestre-sala!”

João começa seu evangelho recordando Jesus participando de bodas, homem da festa, a serviço do amor e da vida. Este é o Jesus verdadeiro, iniciador de Bodas, homem de festa e de vinho, promotor de uma esperança de paz (shamom), simbolizada na alegria dos convivas.

Nesta cena, há uma característica que deveria estar sempre presente na comunidade dos(as) seguidores(as) de Jesus, a Igreja: devemos passar das bodas de água e purificação (muitas leis, muitas proibições, muito rito, pedras e mais pedras…) às bodas do vinho. Que todos os homens e mulheres da terra, todas as casas, tenham o necessário para viver (pão, água, casa…), mas também o bom vinho, que é o prazer da vida, o que inspira a convivência alegre e festiva, reforçando os laços de comunhão entre todos.

Nesse sentido, a recordação da presença da Mãe de Jesus, nos revela que ela é uma mulher festeira, promessa de vinho e de amor para as pessoas sobrecarregadas sob o fardo de leis, de medos e normas que paralisam (os cântaros de pedra para a purificação).

Maria, a mãe de Jesus, quer vinho, não para ela, mas para a comunidade festiva, para todos os que buscam e querem seguir seu Filho, para todos os homens e mulheres da terra.

Ela é Virgem de Caná de Galileia, iniciadora de evangelho, de vinho e bodas, de alegria esperançada.

A Mãe de Jesus se faz presente em todas as Bodas humanas (antes judaicas, hoje cristãs) e descobre nelas muita água para as purificações, mas carente do vinho de vida, que é a alegria dos noivos que se irradia e se expande a todos os convidados.

Maria deixa transparecer uma lucidez especial e, em gesto de serviço aberto, descobre a carência da vida. Sabe que os seres humanos foram criados para celebrar as festas do amor, para as bodas do vinho em plenitude, e por isso sofre ao vê-los carentes, sofridos, incompletos, submetidos à água dos ritos e purificações do mundo. Sua presença inspiradora quer conduzi-los à nova família do Reino, onde a festa não terá fim.

A mãe sabe olhar, mas não pode remediar. Ela se encontra diante de um mistério que a ultrapassa, diante de uma carência que não pode solucionar por si mesma. Logicamente acode ao seu Filho: “Eles não têm mais vinho”. Ela leva até Jesus as carências das pessoas. A indicação é delicada, respeitosa para com o momento do seu Filho.

Isto significa que a hora, o tempo e o gesto de Jesus não é marcado por Maria. No entanto, se considerarmos com mais profundidade, descobriremos que a mesma resposta negativa de Jesus deixa emergir um tipo de assentimento implícito: Jesus não rejeita a observação de sua mãe, não nega a carência de vinho. Simplesmente indica que a “hora” se encontra nas mãos de seu Pai dos céus.

Ela aceita a palavra de Jesus, sua transcendência. Sabe que não pode impor-lhe nem mandar n’Ele, traçando para Ele um caminho neste mundo. Mas ela pode, sim, dirigir-se aos responsáveis da festa, a todos os homens e mulheres da terra: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”

Assim, Maria deixa a resposta nas mãos de Jesus, deixa o tempo de sua “hora” e, colocando-se no plano dos servidores, apresenta-se como a grande “diaconisa”, a primeira servidora da festa: prepara assim o ambiente para que a transformação das Bodas aconteça. Está ali para ocupar-se das pessoas, daqueles famintos e oprimidos que querem chegar até as bodas da alegria e da vida da terra, mas não podem fazer isso porque falta o vinho do amor e da vida, a alegria da festa.

Ela está ali presente, realizando uma função superior: prepara os servidores (diakonoi) do banquete, ensinando-os a acolher e a escutar seu filho Jesus.

Ela está com os diáconos, servidores do banquete, anunciando e preparando a felicidade prazerosa que se aproxima. Ela está a serviço do festim de manjares suculentos e vinhos generosos que o Deus de seu Filho Jesus Cristo preparou sobre o monte da terra, conforme Is 25,6.

Evangelho:  Jo 2,1-11

Na oração

Sinta tudo o que há de água depositada e parada em sua vida, com a desculpa de usá-la como purificação na relação com Deus; sinta-se como talha de pedra, fria e rígida, que o(a) torna incapaz de mobilizar sua vida em favor da vida.

– Reconheça e agradeça tudo o que na sua vida se parece com o vinho, que lhe dilata e lhe dá sentido de festa.

Vinho expansivo que provoca alegria, abundância, reconstrução de novas relações…


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta.

Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil, solenidade.

Imagem: Giotto, séc. XIV. Bodas de Caná – Cappella degli Scrovegni, Pádua.

Comentário ao Evangelho Evangelho de João Solenidades e festas

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