Da história de Patrick – o pequeno migrante e o peixe Coió

Joana Eleuthério

Rezando a terceira pesca milagrosa

O tema que se quis dar à Festa deste ano (2018) – Palermo Bambina [Palermo Menina] – nos orienta para que possamos olhar a cidade dos homens a partir dos menores, isto é, das crianças. E essa é a aposta de uma nova civilização.

Dom Corrado Lorefic

Contemplação

Na pele de Patrick,
camiseta do Real Madrid
encharcada de gasolina e xixi,
fui resgatada em uma boia de náufragos
no mar Mediterrâneo.
Aqueles odores não mais
incomodavam. Esqueci da
fadiga e dos horrores dos três dias no bote
— O “bote das crianças” ou, mais exatamente,
 o “bote dos órfãos”, porque
ninguém ali tinha pai.

Agarrada a meu sonho,
eu gritava para os socorristas
que apenas queria ver um peixe de verdade.
Encontrei uma linha, joguei na água
para pescar um peixe vivo.
Todos me explicavam que não era
tão simples assim…
Mas eu insistia e todas as outras
vinte e uma crianças vieram me
ajudar a pescar o peixe verdadeiro.
— Tumulto geral …
Então criou-se a “pesca ao tesouro”,
muitos desenhos com peixinhos e baleias
espalhados pelo barco para distrair
a gente. E foi muito divertido.

Logo nos lembramos do que a gente
queria – era um peixe de verdade.
Corremos para a proa
olhando o fundo do mar.
O pequeno Ibrahim,
campeão da pesca ao tesouro,
estava bem do meu lado.
Uma coisa saiu voando da água
e veio parar dentro do Mare Jônio.
Era um peixe de verdade? Voador?

Saltamos para trás … Medo…
O bicho aterrissou entre meus pés.
Eu pulava e gritava e
todas as crianças me acompanhavam.
— medo e alegria.
Alguém disse: “é a terceira pesca milagrosa.
Foi Jesus que jogou o peixe aqui para você.”

Como fomos salvos do afogamento,
mamãe me disse para deixar o
bichinho continuar vivendo na casa dele.
Eu estava com medo de pegar,
então ela me ajudou e eu
pude me despedir dele.
Encanto e pavor a cada movimento em minhas mãos…
Atirei ele na água de novo.
Ele saiu nadando aos pulinhos,
como que dançando agradecido.

“Acima de tudo, dirijo-me aos jovens e às jovens: quem os ajuda, na verdade, não é o político que lhes promete favores, o padre que lhes aconselha, o poderoso que lhes pede em troca o sacrifício da liberdade de vocês, não é aqueles que dizem que resolverão de modo simplista e sumário os problemas de vocês! Quem os ajuda é qualquer pessoa que lhes lembre da beleza de ser jovens, qualquer pessoa que tenha respeito e confiança em vocês, qualquer pessoa que esteja disposta a dar um passo atrás para lhes dar espaço, qualquer pessoa que renove em vocês a força de estar junto, a esperança de encontrar caminhos novos, a alegria de viver paixões não tristes, mas vibrantes, por serem feitas de participação e de dom. Quem lhes dá uma mão são aqueles que lhes dizem que um mundo diferente é possível e que a brecha entre aqueles que têm e aqueles que não têm, pode ser anulada por um pensamento de autêntica partilha.” (Dom Corrado Lorefice, no texto citado acima.)

Brasília (DF), 2 de setembro de 2019.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Imagem: Danielle Le Bricquir – Tribunal des poissons

Espiritualidade

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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