Escrever rezando

Joana Eleuthério

O que fiz, O que faço, O que farei por ti, Senhor?
(EE 53)

No dia do Senhor, fui arrebatado pelo Espírito,
e ouvi atrás de mim uma voz forte,
como de trombeta, a qual dizia:
O que vais ver, escreve-o num livro”.

(Apocalipse de São João 1,10)

Alguém já disse que a nossa vocação primeira é o dom extraordinário e gratuito de nos chamarmos e de sermos, de fato, filhos amados e filhas amadas de Deus. Mas só nos tornamos cristãos buscando conhecer o Deus-Pai por meio do seu filho amado, vivendo a proximidade misericordiosa de ambos em todo instante da nossa vida. Como seria bom compreender verdadeiramente essa presença e expressá-la com clareza nas diferentes etapas e circunstâncias de minha vida!

Jesus já nos disse que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por vezes, Ele me parece decepcionado conosco:

Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, 
certamente conheceríeis também a meu Pai." (João 8, 19)
"Eu e o Pai somos um." (João 10,30)

Vejo que Jesus espera que atendamos o chamado do Pai, que veio através do Filho Amado em sua humana divindade, para que sejamos seus colaboradores na construção do Reino no meio de nós. Quando Jesus nos diz “Segue-me.”, Ele nunca diz para que todos façamos as coisas do mesmo jeito. Creio que posso afirmar que Ele nos diz para fazermos as mesmas coisas: “Ide e evangelizai o mundo inteiro. “; “Amai-vos uns aos outros, como vos amei.”? Ou mesmo ser suas testemunhas como rezamos nos Atos dos Apóstolos 1, 8: “O Espírito Santo descerá sobre vocês e lhes dará força e vocês serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria e até os confins do mundo.”

Qual seria a nossa segunda vocação? Seria a nossa missão particular para descobrir como seremos capazes de fazer aquilo que Jesus nos ordenou ou espera de nós, conforme o parágrafo acima? Talvez o texto abaixo esteja nos apresentando uma resposta plausível:

“Jesus pouco antes de sua paixão e prestes a deixar os seus discípulos, num gesto de extremo cuidado, assegura-lhes que essa sua missão será expandida pelo Espírito da Verdade, o Paráclito, o Defensor. […] A experiência histórica do encontro com a Trindade nos seduz, nos atrai e estimula-nos a viver em intimidade com esta ‘família divina’ e a sermos a sua imagem no meio em que ‘vivemos, existimos e somos”’. Como imagem do Pai, termos a iniciativa de buscar o protagonismo da nossa própria história, realizar opções de gratuidade, sair ao encontro do outro com ternura, solidariedade, misericórdia. Como imagem do Filho, que é a eterna receptividade, sermos capazes de receber o amor e fazer-nos habitar por este dom maior. Como imagem do Espírito Santo sermos presença inspiradora, capazes de abrir-nos às novidades do momento presente, atuando diante dos desafios com ousadia e criatividade” Aparecida Maria de Vasconcelos, teóloga leiga.

Nestas dezenas de anos já vividos por mim, antes de conhecer a espiritualidade inaciana, creio que minha maneira de lidar com as dificuldades da vida, eu tenha dado um bom testemunho, até mesmo sem compreender direito as situações ou as circunstâncias. Quando outras pessoas julgavam ser uma catástrofe insuportável ou um motivo suficiente para eu perder o rumo e me revoltar, sei que Jesus estava presente para me fortalecer e me consolar. Muitas vezes, essa consciência vinha depois de passadas as tempestades. Não que eu tenha visto ou ouvido algo como aconteceu com tantos santos e santas. Eu conseguia não me desequilibrar, mesmo passando por grandes sofrimentos ou decepções. De repente eu tinha a sensação de estar vivendo uma manhã cheia de luz e percebia que tudo tinha passado e a vida continuava nos eixos.

Nos anos mais recentes, já no século XXI, comecei a minha experiência de oração, exercitando-me e rezando conforme a metodologia dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio. A questão da missão foi aparecendo e crescendo aos poucos. Eu me cobrava e me sentia cobrada também. Por um tempo, achei que minha missão era primeiro ser ‘presença’ em minha própria família, como avó, como mãe, sogra… E acho mesmo que é aqui que o “amai-vos uns aos outros como vos amei” é o grande desafio da nossa rotina vivencial e da dinâmica familiar.

Recentemente, depois de um trimestre meio ‘retirada’, rezando muito ao Espírito Santo, recomecei a escrever e me lembrei de que, no primeiro retiro de oito dias dos Exercícios Espirituais, o padre, depois de ler algumas coisas que escrevi, me falou que escrever, provavelmente, seria uma missão para mim.

“Escrever sobre a sua relação com o mundo é sua missão sagrada.”
(Alguém me disse ou li esta frase.)

Passar pela angustiante dúvida no momento em que me vejo face-a-face com Jesus, reconhecendo-o no Vivo nos meus irmãos e nas minhas irmãs mais frágeis, que estão presentes em minha vida ou mesmo no Cristo Vivo, que encontro na minha caminhada familiar, profissional e cristã – dentro e fora da Comunidade a qual pertenço, é um rico material para a oração, para o testemunho, para amar, chorar, perdoar…

Assim, venho me exercitando no ato de escrever rezando como uma missão. Faço-o com mais seriedade e responsabilidade. Sempre pedindo a graça da humildade para que eu não comece a me envaidecer pelos eventuais elogios. Outro dia me deparei com essas palavras, que caíram em meu coração como um afago:

“Escrever é uma das principais atividades da história da ascese, isto é, da prática de si, cuja meditação demorada e registrada se dá nas anotações pessoais, quando a escrita serve ao desenvolvimento espiritual do sujeito, e não a trabalhos meramente burocráticos.”
Etty Hillesum

Rezando o Evangelho de hoje [Mt 8, 18-22], me senti mais em paz com as minhas dúvidas, com as minhas questões.  Citando o exegeta francês Jean Debruynne, Raymond Gravel nos diz que

“Tomé nos presta um grande serviço: as perguntas que ele faz em voz alta, são as mesmas que nós fazemos em voz baixa. Tomé nos tranquiliza, uma vez que ele, um incrédulo, chega à experiência da fé. Isso deveria nos livrar de muitas das nossas dúvidas. Não precisamos refazer a busca, Tomé já a fez! ” 

Dessa maneira, sempre peço a graça da maior intimidade com o Filho, para mais conhecer e amar Jesus e poder segui-lo com maior fidelidade, sinto-me feliz e abençoada quando faço meus textos orantes. Orantes, tanto porque os escrevo rezando como espero que quem os ler, também reze comigo. E que, de alguma forma, o texto faça sentido para muitas outras pessoas que também estão nessa trajetória do amadurecimento espiritual.

É com muita gratidão que eu finalizo o texto de hoje, dizendo: Senhor, eu creio, mas me ajude para que minha fé continue amadurecendo e que ela seja sempre destemida e audaciosa.

“A tua fé te salvou” é o que ressoa no fundo do meu coração…

Brasília, 3 de julho de 2019.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Imagem: Marc Chagall. Le Cantique des Cantiques V.

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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