Os milagres de Jesus revelam sua divina humanidade

Assim se cumpriu a predição do profeta Isaías: Compreendeu as nossas
fraquezas e cuidou de nossas enfermidades.


Mt 8, 17; Is 53, 4

Cristo não é um mago que faz desaparecer as doenças, o sofrimento e a morte, mas alguém que acompanha, que alivia, que reconforta, que libera e que ressuscita. Essa missão de acompanhar, de libertar, Cristo a confia aos seus discípulos em todos os lados, onde eles estejam…
— Raymond Gravel

Quando contemplamos os milagres e mistérios da vida de Jesus, percebemos o quanto ele foi sempre movido pela misericórdia e pela compaixão – não excluindo nem discriminando ninguém. É costume dizer que os milagres de Jesus são sempre didáticos porque nos ensinam alguma coisa para a vida e a convivência. Toda a Sua existência como Filho de Deus foi dedicada a curar a vida e aliviar o sofrimento – semeando gestos de bondade; ensinando-nos a solidariedade, a misericórdia e o perdão; falando-nos da salvação e de tudo o que nos vem de Deus nosso Pai, por pura gratuidade e pelo seu amor incondicional por nós – suas filhas e seus filhos.

Para mim a autêntica sensibilidade e a profunda generosidade, tão presentes no conjunto das mais de três dezenas de milagres de Jesus narrados pelos evangelistas, são um ensinamento e um exemplo preciosos para nós cristãos e cristãs. Ele acolhia de forma amorosa e fraterna a todos os que dele se aproximavam: feios, bonitos, ricos, pobres, jovens, velhos e até gente de má fama…

— Para o escândalo dos mestres, sacerdotes e doutores da lei, Ele se sentava à mesa com pessoas de diferentes classes sociais – nenhum preconceito transparecia na sua maneira de se relacionar.

Aqui encontramos a diferença entre a “loucura” e a “Sabedoria” no sentido bíblico. Contudo…

A reflexão sobre a lógica divina do amor não deve nos impedir de olhar o que os evangelhos nos dão para ver, de escutar as palavras pronunciadas e de sopesar os silêncios. Certamente os evangelistas são muito sóbrios em suas descrições, e, assim, não se demoram no que Jesus está sentindo.
— Marcel Domergue

Dessa maneira, vemos que Jesus, sem nenhum escrúpulo, curava os seus amigos, como aconteceu na ressurreição de Lázaro e na cura da sogra de Pedro; curava endemoniados como o desfigurado geraseno – um pobre coitado “possuído de muitos demônios, que há muito tempo não se vestia e habitava em um cemitério”; leprosos, paralíticos e muitas outras pessoas de origem humilde como o filho da viúva de Naim ou o solitário paralítico de Betesda, o homem da mão seca, a cura da mulher que sangrava, os dois andarilhos cegos etc. Jesus interessava-se de fato pelas pessoas e não por qualquer rótulo que lhes coubesse naquela antiga sociedade. Como é de se esperar, Ele também curava pessoas importantes e quase suas adversárias, como aconteceu na cura da filha de Jairo – um judeu, que era alto funcionário da sinagoga e na cura do servo do centurião romano, que nos deu um belo exemplo de humildade e verdadeira fé.

— O Filho amado do Pai acolhia as multidões, as ‘ovelhas sem pastor’, como Ele dizia e falava com todas as pessoas sobre a boa notícia do Reino de Deus: abençoando, aliviando e curando a todas as pessoas que precisassem do Seu amor sem limites.

No primeiro milagre – as Bodas de Caná – Jesus, junto com sua mãe e alguns amigos, demonstrou grande alegria, aquela alegria que caracteriza os encontros fraternos e festivos. A pedido de Maria, ele transformou água em vinho para que a confraternização não terminasse no melhor da festa e pudessem continuar dançando e cantando entre pessoas queridas.

No milagre da primeira grande pesca, Jesus caminhava na praia, ao longo do mar da Galileia (imagino que contemplava a beleza da criação e rezava), quando viu alguns pescadores. De imediato, os irmãos Simão e André chamaram-lhe a atenção: já estavam cansados e insistiam na pesca, mas não tinham sucesso. Aí, como Jesus já estava perto deles, disse a Simão: “Reme para o alto mar e só então lance as suas redes” – pegaram tanto peixe que precisaram chamar os amigos para ajudar. Ali estavam dois outros irmãos: Tiago e João, filhos de Zebedeu, que consertavam as redes com o pai. Eram pessoas simples, provavelmente analfabetas, mas os escolheu e convidou para que o seguissem e se tornassem ‘pescadores de homens’.

Na multiplicação dos pães e peixes, a numerosa multidão que seguia Jesus desconhecia por completo aquele a quem seguiu. Como é a nossa humana tendência, queremos interpretar as pessoas conforme gostaríamos de vê-las – de acordo com os nossos desejos e as nossas projeções para certificarmos se elas cabem em nosso ‘quadradinho’. Temos a ambição, talvez a vaidade, de querer decidir o que é bom e o que é mau, tanto para nós como para os outros. Da mesma forma, aquela multidão de seguidores não estava disposta a aceitar o Profeta e Messias manso e humilde de coração, conforme os planos de Deus, ela queria um rei glorioso, segundo os critérios mundanos dos que acreditavam que Jesus seria o poderoso Rei de Israel. Muito ao contrário, Ele pregava a humildade, o amor, a tolerância e combatia o pecado da hipocrisia, da soberba e da crueldade para com os mais fracos e oprimidos, conforme sua missão, que era salvar e jamais condenar alguém. Naquele dia, com cinco pãezinhos e dois peixes, que um garoto trazia com ele, Jesus alimentou cinco mil homens, os quais queriam fazer de Jesus um grande rei, segundo a lógica do mundo.

Na segunda grande pesca, já ressuscitado, Jesus novamente encontrou Pedro e mais alguns apóstolos, quando o dia amanhecia no Lago de Genesaré. Entristecidos, confusos e sem saber como levar a vida para frente, o grupo foi pescar, mas não fisgaram um peixinho sequer. Depois da longa e difícil noite, estavam cansados e famintos, mas Jesus apareceu-lhes e, uma vez mais, orientou-lhes quanto ao lugar onde deveriam lançar a rede. Quando eles a puxaram de volta para o barco, quase se afundaram devido ao peso da enorme quantidade de peixes. Delicado e atencioso, Jesus ainda os surpreendeu com peixes e pães no braseiro colocado na areia da praia, servindo-os, pois ”é maior aquele que serve”. Nesse dia, imagino que Jesus deve ter transformado mais água em vinho, como aconteceu nas Bodas de Caná.

— Vejo com certa inquietação, a sensibilidade seletiva de muita gente que chega ir às lágrimas ao ver um animalzinho machucado na rua, mas não se comove nem estende a mão, dedicando alguns minutos de atenção e cuidado para com pessoas frágeis e até doentes, muitas vezes na própria família.

São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais, nunca deixou de cuidar de uma pessoa – um de seus ‘pobrecitos’ – para cuidar dos animaizinhos, que ele tanto amava. Para o santo, toda criatura era um irmão, uma irmã, mas se doía muito ao ver leprosos, bandoleiros, nobres ou plebeus – qualquer um que necessitasse de cuidados, de alimentos ou mesmo de uma palavra ou oração. O Santo irmanou-se de toda criatura – de seres humanos, de elementos da natureza e também dos animais. São Francisco e Santa Clara deixavam de comer para alimentar os mendigos famintos nas ruas de Assis e passavam frio para poder aquecê-los. Esse estilo de vida dos dois atraiu muitos outros jovens ricos para a vivência da caridade franciscana, que a caracterizou em seus primórdios, é o que nos conta o ex-franciscano e grande teólogo brasileiro.

Era um grupo de jovens ricos, vivendo em festas e serenatas e que resolveram fazer uma opção de total despojamento e rigorosa pobreza nos passos de Jesus pobre. Não queriam fazer caridade para pobres, mas viver com eles e como eles. E o fizeram num espírito de grande jovialidade, sem sequer criticar a opulenta Igreja dos Papas.
— Leonardo Boff

Crendo ou não em um Deus Criador, o milagre da vida é muito real e inquestionável. Lembro-me agora do bichinho da seda, tão caro a Santa Teresa de Ávila nas explicações do que ocorre em nossa vida interior. Aceitemos ou não – a nossa vida é movida por alegrias e aflições, realizações e frustrações, mas é uma maravilhosa arte tecida pelo nosso Senhor e Pai, com muito amor e com muito engenho. O bichinho da seda realiza um magnífico milagre da vida, como tantos outros que nos passam desapercebidos.

— Que a nossa sensibilidade e compaixão alcance a beleza e a autenticidade do amor e da caridade praticada por Jesus, São Francisco, Santa Clara e por tantos outros santos, muitos deles completamente anônimos.

Amém!!!

Brasília (DF), 17 de junho de 2019.


Imagem: B. J. O. Nordfeldt — Cristo andando sobre as águas, 1951. Smithsonian American Art Museum.

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Joana Eleuthério Visualizar tudo →

Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses – uma buscadora incansável.

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  1. De um texto que acabei de ler: “Jesus toma-os então consigo, conduzindo-os à parte para um retiro, num lugar próximo da cidade de Betsaida. Mas as multidões, sabendo para onde Jesus se tinha retirado, seguem-no obstinadamente. E eis que Jesus as acolhe: tinha procurado um lugar de silêncio, solidão e repouso para os discípulos regressados da missão e para si, mas perante àquela gente que o procura, que vai até Ele e o segue, Jesus, com grande capacidade de misericórdia, acolhe-a. É o estilo de Jesus, estilo hospitaleiro, estilo que não afasta nem declara ninguém como estranho.”
    Fonte: https://www.snpcultura.org/Corpo_de_Deus_a_mesa_do_Senhor_e_sempre_mesa_para_o_faminto.html

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