Acolher, proteger, promover e integrar

Marlene Antonia Helena
Maria do Socorro Laurentino de Carvalho

Compartilhando a viagem:

Em uma das meditações dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, o santo na sua sabedoria nos orienta a “imaginar Cristo, Nosso Senhor, sobre a cruz diante de si, fazer um colóquio, perguntando como, de Criador, ele veio a fazer-se homem, da vida eterna chegou à morte temporal e assim veio a morrer por nossos pecados” (EE 53). Nesta meditação, somos convidados a olhar para nós mesmos e indagar:

O que tenho feito por Cristo,
o que faço por Cristo e
o que devo fazer por Cristo?

À luz da história da salvação podemos considerar o fenômeno migratório um desafio a ser enfrentado e enaltecido como “sinal dos tempos”, na construção de uma sociedade revigorada e no anúncio da Boa Nova. O fenômeno migratório, todavia, pode ser o anúncio do mistério pascoal, para o qual a morte e a ressurreição tendem à criação da humanidade nova, nem escravo nem livre, nem estrangeiro, pois todos são um em Cristo Jesus. (Gl 3,28).

A voz do Senhor ao povo de Deus outrora, é também um apelo a nós cristãos, católicos hoje sobre a questão migratória: «eu vi a aflição do meu povo, eu ouvi o seu clamor, eu conheço seu sofrimento e eu desci para libertá-lo» (Ex 3,7-10; Dt 26,5-10). Esta preocupação de Deus mostra a experiência de um Deus que esteve e está atento às nossas vidas, que é sensível e solidário, com aqueles que sofrem, caminhando com eles ao longo de sua história.

O trabalho com os migrantes é um apelo a voz de Deus: «O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque foste estrangeiro na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus» (Lv 19, 34).

E foi ouvindo o clamor do povo em suas necessidades que o Papa Francisco conclamou o povo de Deus a «acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e os refugiados», promovendo a cultura do encontro e convocou a Cáritas para encabeçar uma grande campanha mundial em favor dos migrantes e refugiados.

Acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e os refugiados, é acolher Jesus como estrangeiro. «Cada forasteiro que bate à nossa porta é ocasião de encontro com Jesus Cristo, que Se identifica com o forasteiro acolhido ou rejeitado de cada época» (Papa Francisco; cf. Mt 25, 35.43).

E foi em uma manhã de domingo “que um forasteiro” bateu a porta do Instituto Migrações e Direitos Humanos / irmãs scalabrinianas para buscar comida para ele e a companheira grávida.  Jesus identifica-se com o forasteiro que tem fome, está aflito, é peregrino e necessita de ajuda. Neste momento estávamos em uma reunião da Pastoral do Migrante na casa das irmãs. O que aconteceu aqui foi reconhecidamente uma curiosidade, uma coincidência significativa singular. Se alguém se impressionasse com esta coincidência, poderíamos chamá-lo de pequeno milagre (Jung. Obra Completa. A Dinâmica do Inconsciente – Sincronicidade).

«Este pobre clama e o Senhor escuta» (Sl 34,6): Esta gente deixou o país, a família e tudo o que tinham para viverem em outra terra. Eles nem se consideravam indianos, se diziam que eram apenas filhos de Panjab, “estado indiano de maioria Sikhis, a noroeste da Índia.

Neste dia fomos indagadas pela irmã responsável pelo Instituto de Mobilidade Humana, se poderíamos assistir àquela família que estava vivendo em Brasília. Fomos impelidas a viver a cultura do encontro, como nos pede o Papa Francisco, e, como se ouvíssemos a voz misteriosa de Deus, aceitamos o desafio: «Eu era estrangeiro e vocês me acolheram» (Mt 25,35).

A assistência prestada à família foi além da ajuda fraterna, procuramos viver essa cultura do encontro estando o mais próximo possível deles, visitando-os com frequência, na tentativa de construir relações fraternas e valorizando-os em suas habilidades.  De modo que foi possível construir uma rede de solidariedade de amigos que durante vários meses esteve muito próximo da família dando-lhe o suporte que necessitava.

Entretanto sentimos dificuldade em protegê-los, acolhê-los e integrá-los, tendo em vista que são projetos a longo prazo e que requer empenho das sociedades política e civil que propiciem a cultura do bem viver na comunidade migrante. Ciente da magnitude do problema migratório, o Papa exorta aos líderes políticos para que aprovem os acordos globais aprovados na ONU e dedicados aos migrantes e refugiados.

Temos consciência da importância desta rede de assistência no momento da chegada do migrante ao país de destino, mas é imprescindível que os agentes de pastorais vão além da ajuda fraterna. Nós cristãos devemos ser promotores de uma autêntica cultura da acolhida, sabendo apreciar os valores verdadeiramente humanos dos outros, acima de todas as dificuldades que comporta a convivência com quem é diferente de nós  (Pontifício Conselho da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes. Instrução Erga migrantes caritas Christi, 39).

Terminamos a nossa história que coincidiu com a família de imigrantes indo para o Canadá onde encontrou trabalho. Quando perguntados o que eles lembrarão do Brasil quanto estiverem no Canadá, os dois foram unânimes em dizerem: a minha filha que é Brasileira, os amigos, os laços de amizade, mas iremos sentir saudades do suco de maracujá e por isso estamos levando na bagagem sementes de maracujá. É o semeador que está saindo para semear, semear a flor do desejo do maracujá, a flor da vida, a flor do passado e do futuro. Que A Passiflora lhes dê muitos frutos.

 

A PASSIFLORA

Neste meu declinar é minha flor querida
Chamem-na outros embora só flor da Paixão,
Eu chamo flor da vida:
Há pois diferença? Não.
D’espinhos tem a coroa,
E escada aos céus s’elevando;
Divinas gotas escoa,
Hissipo ou mel destilando.
Tem do luto o arroxado,
É alegria ou dor que causa;
Berço ou tumba de finado.
É pois em declínio a minha flor querida;
Do dia que enlaguesce tem o claro escuro.
É ela a imagem da vida;
É o passado; é o futuro.

Dom Pedro II *

 


Marlene Antonia Helena é funcionária pública aposentada, pertence à Comunidade de Vida Cristã (CVX) Dom Hélder Câmara, é Agente da Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Brasília (DF).

Maria do Socorro Laurentino de Carvalho é funcionária pública, pertence à Comunidade de Vida Cristã (CVX) Dom Luciano, é Agente da Pastoral do Migrante da Arquidiocese de Brasília (DF).

* PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. [Poema integrante da série versões; tradução do poema “La Passiflore”, da Condessa de Chambru].

Mobilidade humana

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