Uma Santa como Nós

Ligia de Medeiros

Durante três anos e meio, na Casa da Martinha (Marta Vieira), em um sábado de cada mês, acontecia o encontro dos que queriam mergulhar na vida de Santa Teresa, dos que ansiavam por orar como ela, escutar suas poesias e cânticos, aprender com Teresa como amar mais perfeitamente ao Senhor. Adotamos o livro Teresa de Ávila, de Marcelle Auclair, da Editora Quadrante, indicado pela Marta, nossa orientadora espiritual.

Não havia um acordo formal: Tínhamos o combinado da leitura do capítulo, mas não a cobrança, o compromisso de comparecer, mas se não desse, tudo bem. E, incrivelmente, houve uma constância e uma fidelidade à proposta, que foram impressionantes. Começamos, mais ou menos com vinte pessoas e terminamos com igual número. Na partilha do último dia, uma das participantes que entrou na última leva, disse que se sentia como aquele que foi contratado para trabalhar na vinha na quinta hora, mas que recebera a mesma moeda dos outros que tinham começado o trabalho desde cedo. Ela se sentia generosamente retribuída e grata, pois afinal havia percebido que o Senhor sempre estivera presente na vida dela.

Alguns do grupo já tinham relações de amizade entre si; outros, não, apenas o foco em Teresa. Apesar dessa diversidade, o interesse na Santa nos uniu, e foi razão para surgir no meio de nós uma conivência e amizade fraternas.

Foi um processo muito fecundo, e esse resultado se deveu a vários motivos: À Marta, que de coração aberto nos abriu a sua casa; pela partilha tão generosa do seu amor, conhecimento e fé em Santa Teresa; à Claudinha, que de sorriso largo nos recebia à entrada; aos lanches cheios de gostosuras — uma contribuição caprichada de cada um; às leituras preparadas por duas pessoas do grupo, encarregadas de apresentar os capítulos da vez; e, depois, a partilha, cheias de observações que mostrava que, se algo escapava de um, o outro não deixava passar em branco. Juntos, vivemos momentos comoventes, onde, às vezes, o sentimento brotava com força — e o grupo acolhia com um abraço, uma palavra, carinhosa, um olhar receptivo. Acontecia que a vida, às vezes, dava prioridade sobre o que nos tinha levado até ali, e que precisavam ser desabafadas e divididas na família teresiana. E Santa Teresa pacientemente esperava, ou mesmo ajudava, quando, internamente perguntávamos à Teresa como ela agiria naquela situação. E foram tantas as lições de vida que ela nos deu…  No último dia do nosso encontro, o grupo foi se apresentando espontaneamente, e dizendo qual o legado que santa Teresa deixou na vida de cada um de nós.

Um que me pareceu unânime, se não, de uma boa parte do grupo, foi o de que, para ser santo não é preciso ser perfeito e fora do mundo. Santa Teresa tomava conhecimento de tudo o que acontecia nos conventos que inaugurava. Tinha espírito prático e objetivo, era arguta e sempre se preocupava em ajustar as despesas à renda.  Cuidava dos gastos e da contabilidade de suas casas como uma contadora de grande tino, inaugurando um novo jeito de ser santa, onde ela passava, sem transição, do espiritual para o material sem perder o foco no Senhor, « afinal, tudo era feito para a sua maior glória ».

Era inteligente, espirituosa, e uma observadora dos estados da alma como ninguém, o que fez dela uma psicóloga avant la lettre. Apesar de ter vivido no século XVI, com todas as restrições que as mulheres sofriam naquela época — e, aparentemente, se submeter a elas — sabiamente as contornava e conseguia o que queria. E, ainda colocava a responsabilidade no Senhor, “que quis assim”.  A Teresa do « Muero porque no Muero » percebeu que quanto mais se submetia à vontade do Senhor, mais livre era na sua vontade.

Esta divina unión,
y el amor con que yo vivo,
hace a mi Dios mi cautivo
y libre mi corazón;
y causa en mí tal pasión
ver a mi Dios prisionero,
que muero porque no muero.

O arrebatamento desse amor divino nos fez perder o acanhamento e nos deu coragem para desejar o mesmo: viver em comunhão profunda com o Senhor. E, pressinto que, em muitas de nós, a ousadia aconteceu. De acordo com o testemunho de uma do grupo:

« As palavras de Teresa têm grande impacto sobre mim — atravessam meus sentidos, meu corpo, meus músculos e se prendem à minha alma ».

O Senhor fortalece o espírito dos que procuram a perfeição n’Ele. Foi assim também com Santa Teresa, que antes, na sua vida mundana, era vista como bela e sedutora. Proveniente de família abastada, culta, no convento, deixava as visitas no parlatório encantadas, cativadas pela sua agradável conversação. Ela escolheu ser a esposa do Senhor para escapar das agruras de algum possível casamento opressor (situação vivida pela sua irmã). Depois de passar por crises de fé, é seduzida e se rende ao seu esposo real. Mas antes precisou abandonar confortos materiais quase que fundamentais, e sair em busca do seu castelo interior, o lugar onde se dá o encontro da alma com o seu Ser divino. É essa mesma Teresa que, no fim da vida, se comove com os lençóis de cama, que, à proximidade da morte lhe foram ofertados como uma benesse, e que há tanto tempo não via.  Em sua hora derradeira se despediu, dizendo-se filha da Igreja, e, recitando salmos, pedia ao Senhor que a mantivesse contrita e humilde até o final.

O que nos encanta em Teresa é a sua a enorme humanidade, e a possibilidade de nos reconhecermos nela em algum aspecto. E, quem sabe, um dia, sermos santos – nem de longe a santa que Teresa foi – mas, como diz o papa Francisco, um santo de pé de porta, um santo da classe média dos céus.

Inauguramos em 2017 a nossa caminhada com o ano da Misericórdia, fechamos, em 2018, o ano do Laicato, e vamos inaugurar, em 2019, o ano Missionário. Continuemos o nosso itinerário de peregrinos a caminho da missão, tendo Teresa de Jesus como nossa madre intercessora. Sigamos amorosamente atentos, na escuta da vontade do Jesus de Teresa sobre a nossa vontade, para que sejamos livres das amarras do pecado, pois quem provou do Amor divino, não deseja mais nada.

— Dezembro 2018


Lígia de Medeiros é artista, designer, educadora e carioca.

Espiritualidade

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