O matrimônio no plano original do Criador

Dom Oscar Romero

a) O caso do repúdio

A preciosa página citada pelo próprio Cristo: “É lícito ao homem repudiar sua esposa, divorciar-se dela?” era um caso discutido entre os rabinos, porque, em Deuteronômio, Moisés falou de uma permissão, de um costume que já existia como um mal menor. Para não deixar a mulher repudiada abandonada, Moisés ordenou que fosse dado um libelo, um documento de repúdio, mas o objetivo era principalmente uma legalidade religiosa. Se o homem se separasse de sua esposa e ela tivesse relações com outra pessoa, não poderia voltar a ser a esposa do primeiro marido. Era uma ilegalidade de natureza religiosa, ofenderia a Deus.

— No princípio, não foi assim

Quadro Romero

Eles perguntam a Cristo: “Nesta situação que está sendo discutida hoje, o que você diz?” E Cristo diz claramente: “Moisés permitiu que por causa de sua teimosia (isto é, é um mal menor), não é essa a vontade de Deus!” E hoje vamos colocar o casamento em sua própria situação, assim como Deus queria. “No princípio, não foi assim.”

b) Catequese do casamento cíclico

A princípio, o que aconteceu está na página de Gênesis que foi lida hoje, uma bela página que não devemos interpretar como uma estória infantil de Deus fazendo bonecos de barro, dando um sopro para que tenham vida, mas é uma maneira primitiva de dizer uma psicologia profunda que existe no casamento.

— Os animais… a mulher… o sonho de Adão

Somos apresentados a Deus criando o homem, todos os animais e ordenando ao homem que dê nome a cada animal. Existe uma espécie de análise de toda a vida no universo fora do homem. O homem não encontrava entre todos os animais um ser semelhante a ele. Então, Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só”. E nos comenta o Concílio Vaticano II [Gaudium et spes, 32], quando ele fala da dignidade do homem, que Deus criou o homem não solitário, mas fê-lo capaz de formar uma unidade e fez a mulher como o primeiro elemento dessa necessidade do homem que é um ser, por natureza, social. No casamento, se realiza a célula primária do que deveria ser a sociedade.

Vemos descrito aqui em Gênesis como criando a mulher da costela do próprio homem: nem deve ser entendido materialmente, mas uma espécie de parábola viva para dizer: ela é da mesma a vida do homem, formam um único princípio vida, eles atraem um ao outro e de acordo com a mente de Deus, o casal deve formar uma só carne. De tal maneira que ninguém pode separar o que Deus uniu. O sonho, referido por Gênesis, é uma expressão da natureza religiosa como para garantir a ação sublime, criadora do Senhor, para criar a primeira mulher e a fazer o primeiro amor que une um homem e uma mulher. É maravilhoso, então, pensar que o casamento surge da iniciativa de Deus.

— Uma instituição estável

“O bem-estar da pessoa – comenta o Concílio [GS, 47] — e da sociedade humana e cristã está intimamente ligado à prosperidade da vida conjugal e familiar… a dignidade desta instituição não brilha em todos os lugares com o mesmo esplendor, uma vez que é obscurecida por muitas faltas… no entanto, um fato mostra claramente a força e solidez da instituição matrimonial e familiar: as profundas transformações da sociedade contemporânea, apesar das dificuldades que essa sociedade gerou, têm levado, com muita frequência manifestam, de várias maneiras, a verdadeira natureza de tal instituição.”

Em outras palavras, o Concílio nos diz que, embora tenha havido muitas variações da história, desde a primeira página do Gênesis até hoje, sempre se salvou a instituição de amor entre o homem e a mulher. E assim, quando se celebra o matrimônio, o sacerdote recorda a única instituição que não foi abolida, nem pelo castigo do dilúvio, mas que sobreviveu às catástrofes da história e se mantém, eu penso assim, como quando uma floresta é desmatada: todos os pecados podem destruir o matrimônio, no entanto, a partir daquelas árvores cortadas, a vida começa a brotar novamente. Sempre haverá casamento de acordo com a mente de Deus, mesmo quando os homens quiserem destruir uma instituição tão santa e tão nobre. Permanecerá a palavra: “O que Deus uniu, o homem não pode desunir”.

c) Importância do matrimônio para as mudanças no mundo

Em Puebla, eu gostaria de destacar também o fato de que o casamento para nossa situação atual na América Latina é uma instituição de caridade: um grande elemento para as mudanças necessárias em nossa sociedade. Puebla  diz:

« A sociedade, para que funcione, requer as mesmas exigências do lar: formar pessoas conscientes, unidas em comunidade de fraternidade para fomentar o desenvolvimento comum. A oração, o trabalho e a atividade educadora da família, como célula social, devem pois orientar-se a trocar as estruturas injustas pela comunhão e participação entre os homens e pela celebração da fé na vida cotidiano. “Na interpelação recíproca que se estabelece no decorrer dos tempos entre o Evangelho e a vida concreta pessoal e social” (EN 29), a família sabe ler e viver a mensagem explícita sobre os direitos e deveres da vida familiar. Por isso, denuncia e anuncia, compromete-se na transformação do mundo em sentido cristão e contribui para o progresso, a vida comunitária, o exercício da justiça distributiva, a paz» [587]

Em outras palavras, o projeto primitivo de Deus ao criar o matrimônio, também estava nos oferecendo, para situações de crise, como as que El Salvador está vivendo hoje, uma tábua de salvação, no lar.

Irmãos, como eu disse aqui, faço um chamado a todos vocês, arquitetos de tantas famílias, construtores de tantos lares: que cada família em El Salvador não seja um obstáculo para as mudanças urgentes necessárias na sociedade. Ninguém se casa apenas para serem felizes ambos: o casamento tem uma grande função social, tem que ser uma tocha que ilumine, ao seu redor, outros matrimônios, caminhos de outras libertações. O homem deve deixar sua casa, a mulher capaz de promover, mais tarde na política, na sociedade, nas mudanças da justiça, as mudanças que são necessárias e que não serão feitas enquanto os lares se opuserem. Por outro lado, seria tão fácil quando, a partir da intimidade de cada família, se vão formando os meninos e as meninas que não ponham seu desejo de ter mais, mas de serem mais. Não em acumular tudo, mas em dar-se, com as mãos cheias, aos demais. É preciso educar para o amor. Não é outra coisa a família que amar e amar, é dar-se, é amar, é entregar-se ao bem estar de todos, é trabalhar pela felicidade comum…

Este foi o princípio, o matrimônio, enquanto permanecer fiel — palavra dura, mas deve ser dita — porque a fidelidade e o amor são inseparáveis, é por isso que o casamento tem que ser o que Deus uniu no amor: ninguém pode desunir.

Catedral de San Salvador, 7 de outubro de 1979

 

 

XXVII Domingo do Tempo Comum – Ano B.
Das homilias de Oscar Romero.
Tradução de Dalmo Coelho.

* Dom Oscar Romero (1917 – 1980),  foi  arcebispo de San Salvador no período de  1977 a 1980.

Comentário ao Evangelho Família

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