O que é uma peregrinação?

Regina Lúcia Moreira Carvalho *

A peregrinação é uma jornada realizada por um devoto de uma religião, a um lugar considerado sagrado por essa mesma denominação religiosa.

A visão aqui abordada tem como marco a obra Autobiografia de Santo Inácio de Loyola que, na verdade, foi escrita pelo seu secretário Padre Luís Gonçalves da Câmara, também jesuíta, mas relatada pelo próprio Inácio. Em tal obra, encontramos o caminho de um peregrino seguindo Jesus Cristo, buscando se afeiçoar mais a Ele e à sua proposta.

Sabemos que o ato de peregrinar e as peregrinações são um fato religioso anterior ao Cristianismo, pois no judaísmo já encontramos o profeta Elias indo ao Monte Horeb, em busca da tradição de Moisés, ou Elcana e Ana, pais de Samuel, indo a Silo, onde se encontrava a Arca da Aliança.

As primeiras peregrinações do Cristianismo datam do início dos séculos IV e V, e tinham por destino a Terra Santa. Sua importância, na vida religiosa na Idade Média, movimentava pessoas a procurar os lugares santos percorridos por Jesus, de modo a explorar os sentidos externos para encontrar internamente a Deus. Foi assim que muitos se aventuraram em busca de perdão e reconciliação, buscando Deus no encontro consigo mesmos.

Não obstante a diversidade das motivações, comumente se utiliza o termo “peregrinação” como uma marcha de devoção, primeiramente a Jerusalém (palmeiro), a Roma (romeiro) ou mesmo a Santiago de Compostela (peregrino).

Susani Silveira Lemos[1] aponta em sua obra que a peregrinação passou a fazer parte de um conjunto legislativo: No século XIII, aquele que é o principal conjunto legislativo da Península Ibérica, as Sete Partidas de Dom Afonso X (1221-1284), distingue os destinos das viagens “para servir a Deus”, especificando que “romeiro é quem partia de sua terra e ia a Roma”, para reverenciar os corpos dos mártires Pedro e Paulo e daqueles outros que ali sofreram martírio.

Quanto ao termo “palmeiro” designava aquele que retornava de Jerusalém com um ramo de palmeira, e o termo “peregrino” começou a significar o estrangeiro que ia a pé a Santiago de Compostela. Hoje o termo “peregrino” é utilizado indistintamente para qualquer viajante piedoso no Cristianismo, no Islamismo ou em outras denominações religiosas.

Para peregrinar há de se considerar que não se trata apenas do ato de caminhar ou executar um trajeto determinado. Os frutos da peregrinação são colhidos a partir das moções do Espírito motivado do “por” ou “para algo”. A peregrinação tem, assim, um sentido e um valor acrescentado que é necessário descobrir a cada pessoa que a faz.

O peregrino, mais do que um viajante, busca uma experiência e aproximação com o Transcendente, e para os discípulos e discípulas de Jesus sabemos que todos caminhamos em direção à Jerusalém celeste. O caminhar aos lugares sagrados e tirar maior proveito, é necessário lembrar os fatos ali ocorridos e contemplá-los à luz da vida de Jesus, dos Santos ou das personagens bíblicas.

No início do cristianismo[2] destacamos alguns “peregrinos” como são Jerônimo (347-420), santa Paula (347-404), o anônimo de Bordeaux  que foi a Jerusalém no ano de 333), a beata Egéria (viajou em torno de 530)[3] que faziam a peregrinação aos Lugares Santos mostrados nos Evangelhos, tendo como inspiração a Santa Helena, mãe do Imperador Constantino que primeiro o fizera. As peregrinações, pois, tinham preceitos específicos e visavam o aprimoramento espiritual; nos séculos posteriores VII a XI, a peregrinação passou a ser para alcançar indulgências, venerar relíquias ou enfrentar os inimigos da fé (Cruzadas!), em buscando da salvação.

Na atualidade, muitos viajantes escolhem os lugares sagrados para conhecer outras culturas, outros valores, e apreciar in loco os que atualmente habitam esses lugares, além dos vestígios arqueológico da época de Jesus. Essa imersão cultural e religiosa é importante para que, enquanto peregrinos, possamos conviver fraternalmente num mundo global e cada vez menor.


* Regina Lúcia Moreira Carvalho é advogada aposentada da Advocacia-Geral da União (AGU), membro da Comunidade de Vida Cristã.

Notas

[1] FRANÇA, Susani Silveira Lemos; NASCIMENTO, Renata Cistina de Sousa; LIMA, Marcelo Pereira. Peregrinos e peregrinação na Idade Média. Petrópolis: Vozes, 2017. (Série A Igreja na História). p. 41.

[2]. Idem 12.

 

Peregrinações

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