Uma mulher como as outras… pero no mucho…

Ligia de Medeiros *

Teresa de Ávila, em obediência a seus superiores, escreveu em 1577 um tratado luminoso sobre a oração, e que até hoje não foi (e dificilmente será) superado: o Livro das Moradas.

Sempre que seus padres confessores pediam-na que escrevesse um novo livro, ela relutava, mas o fazia sorrindo e, graciosamente, dizia que se lhe confundiam as palavras, que não sabia latim, que não nasceu para escrever, que não tinha saúde nem cabeça para isso. Mas ela não sabia dizer não aos amigos, e sempre cedia por obediência. Como tinha horror ao pedantismo, fugia das palavras técnicas e de citações das escrituras. Com razão, a redação desse livro a fez ficar exultante. E, nesse tempo, ela já tinha seduzido até o próprio inquisidor de Toledo, que não queria deixar de lado a sua última obra, o Livro da Vida.

Teresa explica que no livro das Moradas, “…são mais delicados os esmaltes e lavores porque o ourives que a fez (a própria autora) diz que não sabia tanto naquele tempo; agora o ouro tem mais altos quilates, ainda que as pedras não estejam tão à vista como naquelas (do Livro da Vida). Tudo foi feito por indicação do Lapidário (o Senhor)…”

Como Teresa explica a sua humildade, que não se restringe ao exaltar a sua própria obra? A humildade absoluta não tem a ver com os trejeitos da falsa modéstia. É nas suas Moradas que diz: “A humildade consiste em andar na verdade”. E assim ela não louva a si mesma, mas Àquele que nela vive e inspira.

O Senhor, em uma visão, a fez contemplar o plano da sua obra: mostrou-lhe um belíssimo globo de cristal, em forma de castelo, com sete moradas e, na sétima, no centro está o Rei da Glória com grande resplendor. As expressões “fiquei fora de mim”, ou “voltei a mim” são expressões que falam do nosso espaço interior que, mesmo que não se saiba, é habitado por presença divina. A conquista da alma significa o domínio de todos os níveis de consciência que, em consequência, livra a pessoa da personalidade temporal, e a faz ascender aos planos mais elevados do espírito.

Essa grande escritora mística era uma mulher que não vivia de modo diferente do resto das mulheres; vale lembrar de que, naquela época, as mulheres não tinham direito à instrução, e Teresa estava longe de reivindicar para si uma tarefa de tamanho porte.

Ao escrever As Moradas, mais uma vez, ela expõe as vias de acesso às maravilhas do reino interior — as aventuras da alma em marcha para a conquista de si mesma através das sete moradas do castelo interior, até chegar à fusão completa em Deus. Nas efusões do seu amor divino, ela utiliza a linguagem mística da época, inspira-se no Cântico dos Cânticos, e nos romances de cavalaria, nos quais ela se deleitava. Em três meses, apesar das fortes dores de cabeça que a acometiam, Teresa escreveu o livro que foi colocado no papel em letra nítida e sem rasuras.

Assim quis o Senhor que ela deixasse para nós uma obra que deleita, ensina, e nos inspira a chegar até Ele. A receita está dada, o que estamos esperando para saboreá-la?

— set. 2018


* Lígia de Medeiros é artista, designer, educadora e carioca.

Espiritualidade

2 comentários Deixe um comentário

  1. Que bom ler seu texto, Lígia. Leve. um estilo que nos leva a saborear cada frase, cada palavra … E, para mim, veio como um presente porque você abordou o tema da última reunião das “Teresas e Teresos” e eu não estava lá.
    Parabéns e um grande abraço.

    Joana

    Curtido por 1 pessoa

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