Companhia de Jesus em Brasília: uma reflexão

Luiz Fernando Krieger Merico
Ana Maria Lopes da Silva Merico

De graça recebeis, de graça dai

A história do Brasil que gerou a cidade de Brasília não voltará nunca mais. Os terrenos que foram de graça distribuídos às ordens religiosas fazem parte de um momento histórico único. Possuir um amplo terreno com construção na área central de Brasília posiciona bem qualquer organização para alcançar seus objetivos. Como obra apostólica o Centro Cultural de Brasília (CCB) estaria no coração de Brasília, capaz de ao mesmo tempo influenciar os fazedores de opinião e as periferias satélites de uma cidade pulsante que pode influenciar o resto do país.

Como as últimas administrações do CCB tiveram dificuldade de visualizar este fato irrefutável, a Companhia vai comercializar o que recebeu de graça e vai abrir mão de ser um centro irradiador da fé e da experiência de Deus – que é o que está escrito embaixo do nome de Dom Luciano à entrada do CCB.

O prejuízo será definitivo e a ação de promover a evangelização vai ser mais uma vez deixada às outras igrejas que, estas sim, tem posições audazes e não desperdiçam nem uma salinha qualquer em qualquer canto… ao mesmo tempo que nós nos escondemos… Por sinal, o próprio atual arcebispo de Brasília – presidente da CNBB, nos pediu para espalhar os Excícios Espirituais (EE) e auxiliar na formação de todas as pastorais. Objetivo digno de Santo Inácio… mas os administradores jesuítas do século XXI não tem a marca da audácia e coragem.

O mal travestido de bem

Quem quer que seja que tenha passado pela segunda semana dos EE sabem muito bem que o mal, muitas vezes, se traveste de bem. Sob o falso argumento de que se precisa investir em outras áreas – no caso o apelo equivocado é a região amazônica – se cedeu ao apelo do mau espírito para destruir um enorme potencial da igreja do Brasil, não apenas da Companhia, com consequências irreversíveis.

A decisão de evangelizar a Amazônia não tem nada a ver com a des-evangelização da capital irradiadora-antena do país. Desculpe-nos, mas justificar uma coisa com a outra é vergonhoso, senão falacioso. Utilizou-se, nas últimas gestões do CCB, a lógica governamental brasileira de deteriorar o ambiente ao máximo para depois facilitar o discurso de que “estão vendo??, não funciona! temos que vender…” Pudemos conhecer este processo de perto, pois tentamos, e muito, convencer a necessidade de melhorias administrativas e apostólicas, reiteradamente desconsideradas pela nova província do Brasil.

O discernimento foi precário, a participação dos leigos foi afastada e o espaço para soluções viáveis foi bloqueado. Lamentamos que, o que poderia ter sido uma lição prática de discernimento comunitário, tenha terminado tão mal. Escolheu-se o medo, esconderam-se os talentos. Pensamos em Jesus, de chibata na mão, espantando os vendilhões do templo…

15 de agosto de 1534

Sete homens (Francisco, Pedro, Simon, Bobadilla, Laínez, Salmeron e Inácio) em uma pequena capela projetam um futuro audacioso e grandioso, nem sempre de vitórias, mas sempre de muita entrega e luta. Após a missa presidida por Pedro, Inácio não esconde seu júbilo. Sabe que um punhado de gente (mesmo que sem recursos nenhum…) decidida a espalhar a boa nova pode mudar a face da Terra.

Esse profetismo decidido é que faltou nas decisões do CCB, enquanto abundou um pragmatismo árido desconectado com a trajetória projetada dos sete amigos na capela em Paris. Os profetas incômodos e chatos não foram ouvidos – éramos muitos – sim, somos todos profetas, uma vez que fomos batizados.

A julgar pela fragilidade desta decisão, que futuro se pode projetar para novas obras da Companhia de Jesus no Brasil? Será que conseguem ouvir a voz de Anchieta, o barulho de seus passos a andar incansavelmente o Brasil para cima a para baixo, construindo obras, atraindo o povo e espalhando o bem? Será que conseguem ouvir a Santo Alberto Hurtado – santo da terra onde vivemos atualmente – chamando os pobres, desvalidos, sem teto, desfigurados, pelas ruas de Santiago e levando-os a uma obra que ele começou e resiste até hoje apontando o rumo do que deveria ser a Igreja e suas pegadas? Será que conseguem ouvir Francisco Xavier pregando em Cochín, na Malásia ou no Japão, arrastando com sua energia a multidões a engrossar a nascente Companhia? A quem ouvem os provinciais de hoje?

Cristãos, jamais desanimeis

O provincial pode contra-argumentar que ainda sobrará um pedaço, que o Shopping Center tomará apenas 2/3 da área e a Amazônia é importante. Que é importante, sabemos. Eu mesmo como membro da CVX Global de Ecologia estive junto no processo inicial de formulação do projeto – o que já figura no Suplemento 72, publicação da CVX global.

Desejo o maior sucesso do mundo a este projeto. Mas que ele justifique a comercialização da obra apostólica de Brasília, nos parece uma pegadinha já denunciada por Inácio nas regras de discernimento da segunda semana.

Queríamos pular este 31 de julho porque pensamos que ele envergonha a memória de Inácio. Não merecemos. Ninguém merece. Nem será possível dimensionar o prejuízo no presente e para as futuras gerações, pois não se refere a uma contabilidade econômica ou matemática. Perdemos todos.

Mas cristãos são pessoas de esperança. Somos do sul, por isso lembramos Santa Paulina: Jamais desanimeis, embora venham ventos contrários… Cabe muito bem à esta reflexão.

 

Santiago do Chile, domingo, 22 de julho de 2018.

Jesuítas

3 comentários Deixe um comentário

  1. Acho que seria digno celebrarem a festa de sto. Inácio fora da Capela… no gramado, no estacionamento de brita, sob as mangueiras.
    Se a Capela é lugar para comércio, se o espaço é tirado forçadamente da sua comunidade… pois bem, se não temos Capela para celebrar, celebramos fora dela, mas celebramos a Eucaristia.
    Ainda que ela esteja de pé por mais uns dias, não há como festejar ali. Como protesto, celebramos sim a herança que Sto. Inácio nos deixou mas fora dali, pois seu fim é contratestemunho do que Inácio, a SJ e até o papa Francisco nos exultam.

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  2. Celebremos, sim!!! Meio tristes, sim. Mas celebremos na Capela, no gramado e principalmente em nossos corações agradecidos. Portanto, peçamos a graça de acolher aquilo que nos foge a compreensão. Concordo com a metáfora do “grão de trigo” escolhida, creio pelo Padre Iglésias. Esse grão de trigo morto caiu em terra boa e vai germinar de dar muitos bons frutos. Tenho essa santa esperança. Sejamos todos e todas muito abençoados para fazer um novo caminho e construir um CCB também novo, com o Espirito Santo à frente de tudo.

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  3. Quando ouvi a primeira notícia sobre o fim do CCB fiquei extremamente pesaroso. Na ocasião me disseram que a decisão foi tomada, pois o espaço era grande e subutilizado, o que pareceu não ser uma boa justificativa, pois aqueles que já fizeram os Exercícios Espirituais no CCB sabem o quando seus jardim são importantes para contemplar e meditar. Depois vieram as outras argumentações, descrita no texto, e comecei a me resignar com a ideia. Mas ao ler esse texto senti motivado a explicitar o que sinto. Faz muito diferença para experiência dos EE estar de um ambiente natural e tranquilo no qual cada participante pode encontrar o espaço que mais lhe põe em contato com Deus. Para mim, isso torna o colóquio muito mais fluido que em um ambiente igualmente tranquilo mas feito de concreto. A análise apenas da frequência de uso de um espaço não traduz nem sua importância prática muito menos espiritual. Certamente seria necessário estimular que esses espaços sejam mais utilizados, mas uma decisão de concentrar tudo que era feito em todo o CCB em 1/3 do espaço atual me parece tornar inviável a existência de locais suficiente para a atividades realizadas hoje e também para um jardim contemplativo e vivencial. Por fim, assim como os atores, desejo o maior sucesso do mundo a este projeto, mas não poderia deixar passar o que senti ao ler esse texto.

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