Rezar como quem deve, rezar como quem ama

Duas imagens de Deus, duas lógicas de oração: Rezar como quem deve, rezar como quem ama

Duas pessoas rezam e fazem a revisão de suas orações. Aparentemente, fazem a mesma coisa: meditam o mesmo texto, gastam um bom tempo no diálogo íntimo com Deus, e, na revisão, anotam os pensamentos, apelos e sentimentos que as sobrevieram durante a oração. Entretanto, essas duas pessoas podem rezar a partir de lugares opostos.

A primeira reza com a cabeça baixa de quem deve. Sente que recebeu algo grande demais (a salvação!) sem merecê-lo, e que agora precisa, de algum modo, compensar. Sua oração é feita de desculpas, de promessas de renúncia, de uma vigilância ansiosa sobre os próprios prazeres. No fundo, ela imagina um Deus que cobra. Quando se sente feliz, sente também uma ponta de culpa ou de vergonha, como se a alegria fosse uma conta não paga.

A segunda reza com a leveza de quem foi surpreendida por um presente. Não se sente em dívida; sente-se amada. Sua oração é feita de gratidão e de espanto. Espanto por descobrir-se valiosa, olhada com ternura por Alguém que é amor antes de ser juiz. E é justamente esse encantamento que a faz querer viver bem, fazer o bem, amar como foi amada.

A diferença entre as duas não está na execução dos passos de oração. Está na imagem de Deus que cada uma carrega. E essa imagem, por sua vez, depende da (de)formação catequética e teológica a que cada uma teve acesso, ou privilegiou, ao longo de sua vida cristã.

Para a pessoa cristã, a imagem de Deus, o rosto do Pai (Misericordiae Vultus) é revelado pelo Filho, Jesus Cristo.

“Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. O Pai, “rico em misericórdia” (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a Moisés como “Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade” (Ex 34, 6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina” (Papa Francisco, Misericordiae Vultus, n. 1).

A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus nos revelam o rosto do Pai. Contudo, em diversos momentos da história da Igreja, pessoas e até mesmo correntes teológicas buscaram dar razão de sua fé (1Pd 3,15) em Jesus por caminhos que não correspondiam ao caminho, verdade e vida (Jo 14, 6) que Jesus apontava e era Ele mesmo (Jo 10,30). Assim, nas origens dessas discussões estava a própria razão da encarnação de Jesus (Jo 1,14).

O motivo da encarnação

Qual é o motivo da encarnação de Jesus Cristo? Há duas respostas principais que foram elaboradas ao longo da história do cristianismo: Uma delas é a redenção dos pecados. A outra é a nossa divinização (comunhão com a Trindade Divina), isto é, a nossa plena humanização (fim para o qual fomos criados [EE] 23).

Essas duas respostas têm defensores ao longo da tradição da Igreja. De um lado, a soteriologia da satisfação: o pecado instaura uma dívida do humano para com Deus, e a redenção é o pagamento dessa dívida; a encarnação é condicionada à queda. De outro, a tese da encarnação incondicional: ainda que não houvesse pecado, Cristo se encarnaria, porque o motor da encarnação não é o resgate, mas o amor e a comunhão. A finitude humana não é defeito a ser corrigido, e sim a condição na qual Deus deseja habitar.

O Deus que cobra

A primeira vertente carrega um risco: o de degenerar numa compreensão mágica da relação com Deus. Se a salvação é um benefício imenso concedido a quem não o merecia, é fácil deslizar para a imagem de um Deus credor. Um Deus que se sacrificou, que abriu mão de algo com dor e contrariedade, e que agora cobra o benefício prestado.

Pense no parente que paga os estudos de um sobrinho e, dali em diante, faz da generosidade uma corrente. A cada jantar, a cada decisão de vida, retorna a lembrança do favor: depois de tudo o que fiz por você. O presente que deveria libertar passa a aprisionar; a dádiva vira fatura, e o vínculo, que deveria ser de afeto, vira contabilidade. Quem recebeu já não ama livremente, mas vive devendo.

Transposto para a vida espiritual, esse Deus credor espera que o humano viva como ele supostamente viveu: abrindo mão. Como, nessa lógica, Deus não se entregou propriamente por amor (e então por quê? movido por qual sentimento?), espera que o humano também renuncie a amar em abundância e sacrifique a ele a própria alegria, o prazer, a felicidade. Envergonhado de ser favorecido sem mérito, o ser humano passa a oferecer a Deus a renúncia à própria felicidade como forma de pagamento. Sente-se errado por ser feliz. E crê que esse sacrifício agrada a um Deus que o quer eternamente penitente. Um Deus que se regozija com o não-amor.

Ora, esse Deus é uma falsificação (um ídolo). É uma imagem turva do Deus de Jesus Cristo. Santo Inácio de Loyola o nomearia como o mau espírito, disfarçado de “anjo de luz” (EE n. 332). O inimigo da natureza humana disfarçado de bem, que induz a alma a sacrificar a vida plena na expectativa mágica de que a renúncia, por si só, agrade a Deus e desencadeie favores. A causalidade, aqui, é mágica e sem vínculo com a realidade, isto é, com a construção concreta do Reino.

O Deus revelado em Jesus

O Deus que Jesus revela não se agrada do sacrifício da vida, dos amores, dos prazeres. É o Deus da vida, e da vida em abundância (Jo 10,10). Ensina a amar plena e incondicionalmente.

E o sofrimento de Jesus não contradiz isso. Jesus não sofre porque deixou de viver, mas precisamente por ter vivido e amado em excesso: por comer com pecadores, sentar-se à mesa com os impuros, curar no sábado, tocar leprosos, acolher mulheres, despejar amor sobre os mais desamados, construindo paz, alegria e justiça. A vida lhe é tirada não para satisfazer um Deus que aprecia a dor do Filho, mas como consequência da perseguição dos que não suportam esse excesso de amor. A cruz não é o preço de uma dívida; é o lugar até onde o amor incondicional se deixa levar. E a ressurreição, longe de ser um prêmio por obediência, é a própria vida mostrando-se mais forte; é a confirmação de que aquela existência inteira, e não só a morte, era salvífica.

É aqui que as duas orações do início se separam radicalmente. O que o Deus de Jesus suscita não é o medo da dívida impaga, nem a vergonha da indignidade, nem qualquer sentimento pesaroso e sombrio. O que ele suscita é gratidão porque faz a pessoa perceber o próprio valor, a própria dignidade, e sentir-se amada e envolvida por um Deus que é amor, e não cobrança. É esse encantamento, e não o temor, que faz o discípulo. O amor recebido em abundância basta, por si só, para despertar o desejo de viver do mesmo modo: passando a vida fazendo o bem.

A oração que nasce da primeira imagem é negociação com um credor. A que nasce da segunda é o transbordamento de quem se descobriu amado de graça. Talvez toda a vida espiritual consista em migrar, lentamente, da primeira para a segunda, em deixar de rezar como quem deve para começar a rezar como quem ama.

Na parábola que Jesus conta sobre o fariseu e o publicano (Lc 18,9-14), os dois homens sobem ao templo para rezar. O fariseu reza a partir do mérito e da contabilidade (jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de tudo): é a lógica da dívida e do crédito, só que invertida. Ele se crê credor de Deus. O publicano não consegue sequer levantar os olhos e pede pura misericórdia. E Jesus diz que foi este, e não aquele, quem desceu justificado. A justificação não vem da prestação de contas; vem do reconhecer-se amado por graça.

O fariseu da parábola não é alguém “do Deus que cobra” no sentido penitente e envergonhado. Ele é a outra face da mesma moeda contábil. Onde há contabilidade, ela tanto pode produzir o devedor angustiado quanto o credor orgulhoso. As duas figuras pertencem à mesma lógica mercantil de relação com Deus. O publicano é quem rompe a lógica inteira. A alternativa ao “Deus credor” não é eu me tornar credor, mas sair da economia da dívida.

O Magistério da Igreja

Na discussão teológica, quando se separa cristologia (estudo teológico sobre a pessoa de Cristo, quem ele é como verdadeiro Deus e verdadeiro homem) e soteriologia (estudo teológico sobre a salvação, o que Cristo realiza, como e por que ele salva), o risco é circunscrever a encarnação à remissão do pecado: Jesus se encarnaria apenas para nos resgatar. Quando, ao contrário, cristologia e soteriologia permanecem em relação, a encarnação já não está motivada somente pelo pecado humano, mas busca a nossa divinização. E há uma consequência decisiva: separadas, elas limitam a redenção à morte de Jesus, e não à totalidade de sua existência. O que Ele fez em vida não tem importância, não transmite valores, não inaugura o Reino de Deus, não revela o rosto do Pai. Nessa perspectiva desordenada da teologia, Jesus teria se encarnado para morrer, e não para viver e dar vida em abundância (Jo 10, 10). O motivo de sua encarnação erroneamente é compreendido como ser morto para resgatar o ser humano dos pecados a partir de um ritual sacrificial. Nesse caso, a ressurreição deixaria de ser redentora e passaria a ser mero benefício outorgado na troca por uma vida sacrificada; como que um prêmio pelo cumprimento de um contrato, e não plenitude do próprio mistério salvífico. Que imagem de Deus estaria por trás dessa lógica? Que sentimentos a relação com essa imagem de Deus pode nos despertar? Como essa imagem de Deus influencia a forma como vejo meu lugar no mundo e como me relaciono com os demais e com a Casa Comum?  

Vale dizer que o Catecismo da Igreja Católica enumera quatro razões da encarnação como uma só unidade: para nos salvar, para que conhecêssemos o amor de Deus, para ser nosso modelo de santidade e para tornar-nos “participantes da natureza divina” (CIC 456- 460; cf. 2Pd 1,4), retomando o antigo axioma de Atanásio, segundo o qual o Filho de Deus se fez humano para nos fazer Deus. Embora a doutrina oficial da Igreja não negue a motivação da remissão dos pecados, ela também não afirma que, caso não houvesse o pecado, Jesus não teria se encarnado. Teria (e tem) o motivo de desejar fazer comunhão conosco e de nos dar a conhecer o rosto misericordioso do Pai em seu amor incondicional. A Trindade quis estar conosco.

“Na “plenitude do tempo” (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa, Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus. Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação.” (Papa Francisco, Misericordiae Vultus, n. 1-2).

O Concílio Vaticano II formula com força: “só no mistério do Verbo encarnado o mistério do ser humano encontra verdadeira luz” (Gaudium et Spes, n. 22). Aqui o eixo não é a dívida, mas a revelação: Cristo revela o ser humano ao próprio ser humano. É dessa chave, a do amor, da comunhão, da dignidade, que vive a espiritualidade que não nasce do medo.

Muros que ensinam: a imagem de Deus de quem fica do lado de fora

A parábola de Lucas fala de “dois homens” que sobem ao Templo (Lc 18,10) não por acaso, mas porque eram homens que podiam avançar até os pátios internos onde se concentrava a oração de que a parábola fala. Uma mulher rezaria, mas a um cômodo de distância, literalmente barrada por um muro de acesso que o fariseu e o publicano cruzavam sem pensar.

Como esse interdito condicionava a imagem de Deus de uma mulher judia daquele tempo? Que Deus era esse que lhe vedava o que franqueava aos homens? A distância imposta no espaço de culto não educava essas mulheres a se sentirem, também elas, mais distantes de Deus e menos dignas de seu amor incondicional? A geografia do sagrado é uma pedagogia silenciosa: ela ensina ao corpo, antes que à mente, quem pode e quem não pode aproximar-se.

E essa pedagogia não ficou na época do Segundo Templo de Israel. Ainda hoje, em muitas tradições cristãs, inclusive na Igreja Católica Romana, há espaços mais sagrados reservados apenas aos homens. O mesmo vale para outras formas de distância: que imagem de Deus pode brotar na fé de quem é educado a entender que seus afetos e sua identidade são rejeitados por Deus, como acontece com as pessoas LGBTQIAPN+? Levadas a crer que sua própria constituição é desordenada ou contrária aos desígnios divinos, excluídas de sacramentos como o matrimônio, o que aprendem sobre o amor de Deus? Em todos esses casos opera a mesma lógica do Templo: uma geografia (agora espacial, sacramental, existencial) que ensina a quem foi posto “mais longe” que está, de fato, mais longe de Deus.

Não surpreende, então, que muitas mulheres e muitas pessoas LGBTQIAPN+ rezem como quem carrega uma dívida. Sentem que Deus as aceita, sim, mas a certa distância porque haveria nelas algo de errado, algo que não atende ao padrão esperado. Em sua vulnerabilidade, tornam-se as mais expostas à imagem do Deus credor, e as que mais dificilmente alcançam o Deus do amor.

Mas é precisamente aqui que o Evangelho rompe o muro. O Verbo “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14); e o verbo grego diz, ao pé da letra, que ele armou a sua tenda no meio do povo. Deus deixa de estar trancado atrás de pátios e cortinas, ao alcance de uns e vedado a outras. Encarnando-se, ele desfaz a economia do acesso restrito. Não há pátio interdito para quem o Pai olha com ternura. A boa-nova, para quem foi ensinado a se sentir longe, é que a tenda de Deus já está armada exatamente onde se está. E que rezar pode deixar de ser pagar uma dívida para tornar-se, enfim, descobrir-se em casa.


João Melo é professor, escritor e paulistano. Descendente de retirantes da seca de 1915, no Ceará e Piauí; e de apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra Negra, em Itamarandiba (MG). É licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestrando em Educação na UERJ. Tem livros e artigos publicados em periódicos, revistas e portais digitais. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.

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Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).

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