Que realeza está em jogo? Uma reflexão sobre o Exercício do Reino

A meditação do Rei Eterno inaugura a segunda semana dos exercícios espirituais. Trata-se de um exercício adequado para inaugurar o tempo de oração sobre o seguimento e o encantamento com o projeto de vida de Jesus, o Reino de Deus. Essa meditação nos situa desde nossa experiência pessoal para olhar a realidade da vida de Cristo. A espiritualidade inaciana tem essa vantagem: raramente nos levar a abstrações desencarnadas da vida concreta. E essa é uma das riquezas do itinerário espiritual de Inácio: provoca-nos mais do que um entendimento. Os EE não são uma prática espiritual desenvolvida a partir de conceitos – ideias – distantes da realidade. Com efeito, é como nos lembra um princípio caro ao magistério do papa Francisco: a realidade é superior à ideia (Evangelii Gaudium, n. 217-237).

Em termos de finalidade, o Exercício do Reino está inspirado em uma antiga prática da teologia medieval: a busca do conhecimento da Revelação de Deus por meio da analogia. Se atribuía a Deus uma característica observada na realidade, potencializando-a a um nível divino: “assim como fulano é bom, muito mais é Deus”, por exemplo.

O exercitante saído da experiência de rezar o Princípio e Fundamento e a primeira semana, onde espera-se que descubra que o amor incondicional de Deus supera toda experiência de rejeição, e que a misericórdia divina é expressão da superabundância da graça que suplanta o que era tido como pecado, abre-se agora para a etapa do seguimento de Jesus e seu projeto de vida.

Os EE muitas vezes são experiências de fé que transformam e purificam a imagem de Deus que as pessoas carregam. Herdamos muitas falsas compreensões sobre como Deus Pai nos olha e nos trata. O mesmo acontece sobre quem é Jesus. No imaginário coletivo, Jesus é uma espécie de super-homem, com poderes especiais (que chamamos milagres) que tem consciência e conhecimento de tudo (heresia contrária ao dogma da humanidade de Cristo). Muitas vezes, rezar a segunda semana dos EE demanda a redescoberta de quem é o Jesus que nos propomos a seguir. Requer um encontro pessoal e genuíno com Ele, em sua humanidade que é igual a nós em tudo, mas não pecou (Hb 4,15-16).

Quando o exercitante carrega consigo uma imagem ainda meio turva de Deus Pai ou do próprio Jesus, essa imagem obnubilada pode aparecer aqui, no Exercício do Reino, através da analogia com o “rei temporal” que o exercitante fizer memória.

Explico-me: Quem ou o que é lembrado como inspiração e modelo de vida? Inácio convida a fazer memória de um “rei temporal”, isto é, uma pessoa que o exercitante admira.

Nessa meditação, pode ocorrer de o exercitante fazer memória de uma pessoa famosa, de uma autoridade política, eclesiástica, um artista, esportista, filantropo, subcelebridade e até mesmo de um influenciador digital. Há, ainda, exercitantes que evocarão instituições, grupos e também pessoas canonizadas ou com fama de santidade. E essa variedade, de per si, não é um problema. Por meio do itinerário dos EE, Deus, em sua liberdade e misericórdia, pode agir “por caminhos só por Ele conhecidos” (Ad Gentes, n. 7). De fato, “o Criador fala diretamente com a criatura e a criatura com o seu Criador” (EE 15).

Seja lá quem ou o que for lembrando pelo exercitante, estará em analogia direta com o “rei eterno”, Jesus Cristo e seu seguimento. Por isso, essa escolha é reveladora da compreensão sobre o que é o discipulado e de quem o exercitante acredita ser Jesus. Figuras inspiradoras lembradas pelo seu ‘poder temporal’, por exemplo, revelam uma provável crença em um ‘Jesus poderoso’, ‘milagroso’, ‘onipotente’, e assim por diante. Uma forma distinta de fé em Jesus como amoroso, misericordioso, etc.

Certa vez, durante a pandemia de Covid-19, escutei um jovem dizendo em uma transmissão online na internet que estava decepcionado com a cantora Madonna, da qual ele era um grande fã. A diva pop teria dito que podia andar por aí sem máscara de proteção e abraçando as pessoas. Ela pensava que porque já tinha pegado a doença, era imune e não transmitia mais o vírus. Os estudos científicos ainda eram iniciais à época da declaração da cantora, e sua postura foi encarada como uma tremenda irresponsabilidade. Madonna é uma figura pública que influencia muitas pessoas. Não vou entrar no mérito da atitude da cantora – que também me pareceu irresponsável. O que mais me chamou a atenção foi o que um outro rapaz disse a esse jovem: “Eu acho importante que a gente se decepcione com essas figuras por quem a gente tem tanta admiração. Isso vai te permitir se firmar nas suas próprias pernas”.

De fato, bom seria que não nos decepcionássemos, mas pode ser uma experiência de amadurecimento se frustrar com os “reis temporais” para abrir espaço para o seguimento do Rei Eterno e se firmar com as próprias pernas no caminho de uma fé adulta. E não me refiro somente às frustrações com as divas do pop estadunidense, mas até com os santos da Igreja. O papa Francisco chegou a afirmar que “nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. O que devemos contemplar é o conjunto da sua vida, o seu caminho inteiro de santificação” (Gaudete et Exsultate, n. 22).

Modelos de santificação. É isso que está em jogo. Poucas pessoas hoje associam o conceito de santificação com o seguimento de Jesus Cristo. Na cabeça do povo, santificação tem mais a ver com perfeição do que com discipulado. “Sede perfeitos, como vosso Pai é perfeito” (Mt 5,48). Contudo, nos Evangelhos, perfeição é sinônimo de misericórdia: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Segundo o papa Francisco, misericórdia “é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem [sic], porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (Misericordiae Vultus, n. 2).

Tenho consciência da imagem de Jesus que carrego e que me faz eleger uma imagem de “rei temporal” que seja parecida com a Dele?

Que realeza está em jogo quando rezo a meditação ‘Exercício do Reino’ (EE 91-99)?


João Melo é professor, escritor e paulistano. Descendente de retirantes da seca de 1915, no Ceará e Piauí; e de apanhadoras de flores sempre-vivas da Serra Negra, em Itamarandiba (MG). É licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, mestrando em Educação na UERJ. Tem livros e artigos publicados em periódicos, revistas e portais digitais. Atualmente, vive no Rio de Janeiro.

Imagem: El Greco — Cristo abraçado à cruz, c. 1602. Museo Nacional del Prado.

Espiritualidade cristã João Melo

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Descendentes dos retirantes que enfrentaram a seca de 1915 (PI/CE) e das apanhadoras de flores sempre-vivas ao pé da Serra Negra em Itamarandiba (MG). Paulistano que vive no Rio de Janeiro. Autor de “Entre Eva e Mapana” (Editora Pluralidades, 2023) e de livros da série “Ensaios Teológicos Indecentes” (Editora Metanoia, 2024).

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