Sinodalidade e diferença de gênero

Maria Clara Lucchetti Bingemer

A sinodalidade está na ordem do dia. O Sínodo sobre a Sinodalidade convocado pelo Papa Francisco terminou no ano de 2024 sua segunda fase e lançou um documento final. Desde o início, o Santo Padre deixou bem claro que não se tratava de um sínodo sobre um tema teológico ou pastoral. Tratava-se de um tema básico e fundamental para o sentir da Igreja como um todo. O tema do Sínodo é a sinodalidade mesma. E essa sinodalidade deve ser o modo de toda a Igreja ser.

A palavra – sinodalidade – é antiga e muito presente na Tradição da Igreja. Desde o Concílio Vaticano II, o conceito e a expressão vieram a ganhar cada vez mais relevo. E, em palavras do Papa Francisco, é este o caminho que Deus espera da Igreja no terceiro milênio. E embora o termo não tenha sido usado em nenhum documento do Concílio Vaticano II, o que ele expressa está no centro do processo de renovação conciliar. Daí a importância de abordar as suas implicações para a vida e a missão da Igreja.

A palavra sínodo é antiga e venerada na Tradição da Igreja. É composta pela preposição, com, e pelo substantivo, caminho. Indica o caminho feito pelo povo de Deus unido. Lembra inevitavelmente o modo e as palavras pelos quais Jesus se apresenta como “caminho, verdade e vida” e como seus primeiros seguidores foram chamados de “discípulos do caminho”. Por isso, a sinodalidade não é mais do que “caminhar juntos” como Igreja. Ela exprime um modo de viver e de agir da Igreja, Povo de Deus, que se manifesta “no caminhar juntos, no reunir-se em assembleia e na participação ativa de todos os seus membros na sua missão evangelizadora”.

A sinodalidade propõe, assim, não apenas uma reflexão teórica sobre a Igreja, mas faz uma proposta concreta de um modelo para que a própria Igreja seja o que deve ser. Exige uma conversão que visa, inicialmente, a conversão da própria Igreja. A partir dela, pretende chegar às pessoas, aos grupos, às famílias, às sociedades, aos países e até a ordem mundial, na justiça e na paz, na solidariedade e na misericórdia.

A sinodalidade, portanto, quer alcançar e tratar de todas as questões dentro e fora da Igreja. Quer alcançar todos os segmentos, os estados de vida, os carismas e ministérios. Quer iluminar a questão da identidade da Igreja. E deseja convocar a uma dinâmica de escuta, diálogo e discernimento a todos os cristãos de todas as latitudes. Dentro desse esforço de reflexão universal, a questão das mulheres não pode ser deixada de lado. Sobretudo quando se torna cada vez mais claro que a Igreja Católica apresenta um rosto e uma visibilidade bastante masculinos.

Para que a Igreja no presente e no futuro seja efetivamente sinodal, talvez uma das primeiras e mesmo a primeira conversão que deveria dar-se seria, portanto, aquela que diz respeito ao lugar das mulheres na comunidade eclesial. Se não houver escuta, diálogo e caminho comum entre homens e mulheres; se a humanidade não conseguir caminhar conjuntamente com sua “outra” metade, de outro gênero, como se pode esperar que o caminho sinodal aconteça em diferentes e ampliadas dimensões? Como se pode pretender uma sinodalidade universal sem que exista uma real reciprocidade entre homens e mulheres?

A imagem divina é encontrada tanto nas mulheres quanto nos homens. Se o Deus em que acreditamos pode ser percebido como tendo características e modos de se comportar e agir tanto masculinos quanto femininos, então, para descrever Deus, será sempre, e cada vez mais, necessário usar palavras, metáforas e imagens que sejam tanto masculinas quanto femininas. Se as mulheres, assim como os homens, são teomórficas, isto é, feitas à imagem de Deus, é imperativo que esse Deus, de quem ambos são imagem, não seja descrito ou pensado como simplesmente andromórfico, – com palavras e símbolos masculinos – mas como antropomórfico pois assim foram desejados pelo Criador. Tal como diz o livro do Genesis: “A sua imagem os criou, macho e femea os criou”(Gem 1.27). Esta será a única maneira possível de concebê-lo e descrevê-lo como teomórfico. Sabemos que sempre teremos que lutar contra a pobreza da linguagem humana, limitada em expressar a majestade e a inefabilidade do divino. Enquanto isso, tentaremos combinar os dois símbolos, duas linguagens e duas metáforas – masculina e feminina – alcançando uma melhor aproximação do divino. E para isso, o paradigma trinitário parece ser um caminho fecundo.

A fé trinitária, que confessa um Deus Pai, Filho e Espírito Santo pode certamente dar uma contribuição preciosa para este retorno à casa paterna e materna pela qual o ser humano do século XXI tanto anseia, embora muitas vezes sem o saber ou nomear. Mas para que isso aconteça, é necessário que mulheres e homens se entendam como companheiros de um mesmo caminho, respeitando-se em suas diferenças e através delas agindo. Só assim será possível construir um mundo mais humano para todos. Só assim será possível uma Igreja mais focada no encontro, na comunidade e no amor. Em suma, mais de acordo com o sonho de Deus, que é que os diferentes caminhem juntos anunciando uma verdade sinfônica e uma unidade plural.

Caminhar juntos é o modo constitutivo de existência da Igreja porque é condição para seguir Jesus e anunciar o seu Evangelho em tempos tão feridos e doloroso como os nossoss. Mulheres e homens caminhando juntos revelam o verdadeiro rosto do Deus que Jesus de Nazaré ensinou seus contemporâneos a chamar de Pai e de quem o Espírito do Ressuscitado derramado sobre toda carne ensina ser Pai e Mãe. Ali se pode experimentar o verdadeiro espírito da sinodalidade, o modelo desejado e buscado pela Igreja hoje.


Maria Clara Lucchetti Bingemer é teóloga, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro desde 1982. Autora de Crônicas de cá e de lá (Editora Subiaco), Teologia latino-americana:raízes e ramos (Editora Vozes), Viver como crentes no mundo em mudança (Editora Paulinas), O mistério e o mundo: Paixão por Deus em tempos de descrença (Editora Rocco), entre outros livros.

Imagem: Lígia de Medeiros. Variação 3.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

1 comentário Deixe um comentário

  1. Muito bom, o texto da profª Maria Clara. Fazia tempo que não via os posts de vocês, deste de hoje gostamos muito. Realmente, a Divindade não tem sexo e, se as pessoas prestassem mais atenção ao conhecimento filosófico da questão, atentariam para esse fato. Aproveitamos para avisá-las(os) que fizemos uma homenagem especial no nosso blog ao Dia Internacional da(o) Nascitura(o), que foi 25 de março, o Papa Francisco ainda estava vivo. Creio que vocês irão apreciar.

    Atenciosamente,

    A Equipe da Escola Feminista.

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