Os primeiros meses do governo Trump

Os primeiros meses do governo Trump derrubam coesão interna, confiança e credibilidade gerais

Com certa maestria acadêmica, o Papa Bento XVI (Caritas in Veritate -2009, Cap III) aborda a questão da coesão social e da confiança para gerir os mercados nas sociedades modernas, chamando a atenção para o fato de que – coesão, confiança e credibilidade são essenciais à gestão do desenvolvimento econômico-, mas são valores externos à Economia, sem os quais esta teria seu funcionamento seriamente comprometido.

Chamo a atenção para esta reflexão  do Papa Bento XVI, precisamente para destacar neste início do governo Trump à perda rápida de coesão social e confiança interna e externa, a níveis alarmantes, ao invocar explicitamente o valor do protecionismo econômico para fazer “a América grande outra vez”.

Independentemente da posição política do observador, o que fica muito claro na situação presente, é a perda de confiança social na orientação técnico-política que se está querendo propor ou impor. Perde-se a substância do rumo apontado, na forma algo caótica do seu anúncio, derrotando a iniciativa de saída, naquilo que esta declara perseguir.

Ora, mesmo que a política do cerco unilateral de tarifas pelo mundo inteiro no atual estado de coisas tivesse fundamentos racionais tecnicamente sólidos, que não é ocaso, a maneira caótica de como o Presidente Trump vem agindo neste campo, retira coesão e confiança aos próprios agentes do mercado, que se pretende governar. Ao invés de expectativas positivas a determinado rumo econômico, desperta-se a ‘incerteza dura’, de que nos fala Keynes na ‘Teoria Geral’ (Cap, 5). E esta incerteza quebra a capacidade de cálculo econômico prospectivo dos agentes de mercado, sinalizando e propagando crise profunda.

Por outro lado, o papel político internacional do Estado norte-americano na gestão da paz, aparentemente muito pouco avançou nas tratativas para o fim da Guerra da Rússia contra a Ucrânia. Mas retrocedeu completamente a gestão sobre o genocídio palestino em Gaza, assumindo o discurso e a prática do governo de Israel, algo que retira toda possibilidade de pacificação e pior ainda impede o bloqueio do genocídio de uma população sofrida e encurralada em Gaza. E como se não bastasse esses fracassos, de consequências trágicas, o Presidente ameaça com a abertura de um novo campo de guerra, desta feita contra o Irã, supostamente para conter o seu programa nuclear. Mas o próprio estilo de falar e agir do Presidente, que já ameaçou de anexar a Groelândia e também o Canadá, deixa-o no limite mais negativo da credibilidade, não obstante seus enormes poderes para promover a guerra.

Por motivação de prioridade política, parece que a verdadeira guerra que o governo Trump se prepara para fazer, é a guerra comercial, especificamente contra a China, quebrando de vez um importante sustentáculo do padrão-dólar- moeda reserva internacional. Mas é também sobre o dólar que se dão os altíssimos ‘deficits’ comerciais dos EUA para com a China, tendo por contrapartida os não menos relevantes ‘superavits’ financeiros da China para com os EUA.

Rompida essa relação, que se aprofunda neste Século XXI, quebram-se também as condições de viabilidade política ao padrão dólar (inconversível ao ouro desde 1971); e pulariam na frente as propostas de novas moedas – reserva, desbancando o dólar da confortável posição atual.

Muito provavelmente o que a gestão Trump significa no momento, seja de maneira consciente ou não, é a erosão profunda da hegemonia norte-americana do Pós-Guerra.

Nesse quadro crítico, penso que o Brasil atua corretamente posicionado ao participar e promover o multilateralismo internacional. Mas sofre também na conjuntura os efeitos diretos e indiretos da guerra comercial iniciada pelo governo Trump.

Os próximos passos da ação política norte-americana deixam-nos apreensivos, não tanto pelo teor específico da declaração do Presidente do dia; mas principalmente pelo caráter caótico desse agir mediante falas contraditórias, aparentemente perseguindo vantagens táticas negociais, mas na verdade dando tiros estratégicos nos próprios pés, o tempo inteiro.


Guilherme Delgado é doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Imagem: Ismael Guimarães de Oliveira. Ruínas do Eden #01, 2020. Óleo e acrílica sobre tela. Enciclopedia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

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