Sínodo: um Novo Sinal da Igreja em Missão

Pe. Paulo Lisbôa, SJ

No término de um evento eclesial tão importante como o de um Sínodo, eu não podia deixar de torná-lo crônica especial, despertando-a/o para novos tempos de mudança, na esperança teologal. A grande questão que se colocava aos mais de 500 participantes desta última sessão de 2024, era o como ser uma Igreja Sinodal. Esse parece ter sido o grande interesse dessa maioria de Cardeais, Bispos, Religiosos/as, Leigos/as e Teólogos/as reunidos neste mês de outubro, na mesma grande sala Paulo VI, de 2023.

Em uma das últimas reuniões com jornalistas na Sala de Imprensa do Vaticano o subsecretário do Sínodo que se encerrou no dia de ontem, Dom Luís Marin de San Martin, fez uma consideração muito oportuna desta Assembleia. Entre os pontos apresentados sobre o processo em si destes quase 4 anos de caminhada, pessoalmente prefiro destacar o que ele disse em sua análise, como especialista no assunto:

[…] A mudança que temos que fazer é sinodal em
sua essência, assim como a Igreja é missionária, assim a Igreja é comunhão em si mesma. Isso vem da Igreja primitiva. É por isso que as fontes são a Sagrada Escritura, os Padres da Igreja, o Magistério, a História, o desenvolvimento canônico… Tudo isso é um processo: como eu gostaria de que tudo mudasse de um dia para o outro! Contudo, não há varinhas mágicas, as coisas não mudam de um dia para o outro, são processos de renovação e dependerá de cada um de nós, de nossas paróquias, de nossas dioceses, de nossos grupos tornar tudo isso concreto.

Eu posso dizer que na última afirmação do Bispo já aparece uma ótima proposta para a nossa caminhada futura, como pessoas que desejamos ser fiéis à renovação eclesial. Na medida do possível e ali onde nos situamos, podemos concretizar a temática central deste Sínodo que foi,
segundo o Papa Francisco: “Igreja verdadeiramente em missão“. Mas isso vai supor boa vontade para que todos e todas nos coloquemos em situações pessoais e comunitárias, na escuta do mesmo Espírito Santo que conduziu este último Sínodo.

No último dia 26 de outubro as mais de 500 pessoas que participaram dos trabalhos sinodais se reuniram pela última vez na sala Paulo VI, para concluir os cansativos trabalhos desta sessão 2024. O texto do documento final, analisado nos dias precedentes foi votado e a seguir
aclamado com grande satisfação e alegria por toda a assembleia. Esta ainda teve a oportunidade de ouvir algumas palavras de agradecimento e louvor ao Espírito Santo que encaminhou este tempo de busca na escuta e no discernimento. Contudo, o que a mim mais me chamou a atenção foi a exortação final do Papa Francisco, dirigido não só aos Padres e Madres sinodais presentes, mas a toda a Igreja, Povo de Deus em comunhão. Portanto, exortação a cada um dos católicos, espalhados pelo mundo todo. Em síntese, o Papa então dizia que “devemos nos tornar uma espécie de centro no qual pessoas tão diferentes possam se reconhecer como irmãos e irmãs, filhos de um único Pai“. O mesmo Papa ainda desejou que o Documento final seja valorizado como Magistério oficial. Ele quis dar o sentido de sinodalidade ao trabalho realizado pelos sinodais e por isso decidiu que o documento substituísse o costume da Mensagem do Papa.

Pensando nesse resultado final desejo ainda que você tome conhecimento do que os dois Cardeais responsáveis por toda a caminhada sinodal falaram aos jornalistas, na última Coletiva de Imprensa. O Cardeal Grech, secretário Geral do Sínodo disse que “há um documento que não está escrito e é a experiência, uma experiência que no último ano foi maravilhosa. O primeiro fruto é o método sinodal, que, ao mesmo tempo, é a chave para podermos tratar de outras
questões…

E o Cardeal Hollerich, um jesuíta e relator geral do mesmo Sínodo, se manifestou, lembrando que “no ano passado, havia grupos majoritários e minoritários reciprocamente
suspeitos na Assembleia. Com o crescimento do método, essa atitude mudou. Algumas opiniões, continuam diferentes, isso é inevitável, mas este ano (2024), realmente vivemos a sinodalidade. Ninguém ficou triste (a ‘satisfação’). Agora precisamos nos tornar embaixadores deste fruto. De
fato, não nos reunimos apenas para analisar as estruturas da Igreja ou para travar uma batalha entre facções…

Acredito que os aspectos apresentados acima já despertaram o seu ânimo com o desejo de participar em sua paróquia ou comunidade, daquilo que for programado em termos de Igreja
mais sinodal e missionária. Espero que todas as instâncias pastorais aqui no Brasil terão essa nova visão de Igreja, em tudo aquilo que fará parte de sua nova evangelização. E já se tem uma ótima oportunidade de colocar o Sínodo na prática de sua vida pessoal, vivenciando o que será seu ‘Ano Santo’ de 2025!

O Sínodo estava na última semana e já os teólogos interessados em refletir o que se passou na Igreja Católica nos últimos decênios se movimentavam para realizar um simpósio teológico pós sinodal, coisa aliás já pensada e organizada antecipadamente, deverá ter suas repercussões. Então, saiba do que se trata. Hoje, 28 de outubro, está se iniciando essa Conferência Internacional
no salão nobre da Universidade Gregoriana de Roma. Ela tem como tema: “Do Concílio ao Sínodo” Ela irá até o dia 30 próximo. O que se depreende é que será uma espécie de releitura dos 60 anos do documento conciliar “Lumen Gentium” (Luz dos Povos, sobre a Igreja). Eu sinto que
será momento importante para os teólogos que ali estarão reunidos de olharem melhor a caminhada eclesial e perceberem melhor a dinâmica Concílio 1964 – Sínodo 2023/2024. Portanto, uma boa releitura do atual Sínodo à luz do Concílio e o Concílio à luz do Sínodo.

Eu me sinto feliz e agradecido por estarmos juntos a presenciar que Deus continua a realizar suas maravilhas, conforme seu Projeto de Amor. Não foi somente um acaso, a
coincidência da Missa Solene de término do Sínodo ontem realizada na Basílica de São Pedro e presidida pelo Santo Padre. As imagens televisivas desta Celebração enviadas para o mundo, tinham um objetivo claro de apresentar uma particularidade especial de aproximações significativas: a maravilha de um bom final de Assembleia com a maravilha da restauração artística do baldaquino de Bernini e da Cátedra de São Pedro.

O querido Papa Francisco na bela homilia desta Missa Solene interpretou muito bem o significado providencial do acontecimento. É oportuno então que eu termine esta crônica com a visão que ele nos deixa ao final da homilia, para hoje e para a posteridade da Igreja em saída
missionária:

[…] Enquanto damos graças ao Senhor pelo caminho percorrido em conjunto, podemos ver e venerar a relíquia da antiga Cátedra de São Pedro, cuidadosamente restaurada.
Recordemos que esta é a Cátedra do Amor, da Unidade e da Misericórdia segundo o preceito que Deus deu ao apóstolo Pedro
de não exercer o domínio sobre os outros, mas de os servir na Caridade.
E admirando o majestoso baldaquino de Bernini, mais resplandecente do que nunca, descobrimos que ele enquadra o verdadeiro ponto focal de toda Basílica, isto é, a glória do Espírito Santo.
Esta é a Igreja Sinodal: uma comunidade cujo primado está no Dom do Espírito que nos torna irmãos em Cristo e nos eleva até Ele”.

Que o mesmo Espírito Santo a/o ilumine,
e a/o faça mais aberto/a e participante às suas
maravilhas. Carinhosamente,
Pe. Paulo Lisboa,

28 X 2024
IHS

Pe. Paulo Lisboa, SJ é licenciado em Letras e bacharel em Filosofia e em Teologia, é sacerdote jesuíta com grande experiência na formação de jovens jesuítas e na orientação dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (EE). 

Imagem: Ateliê 15

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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