“Decifra-me ou te devoro”
Guilherme C. Delgado
A força expressiva desta declaração, originalmente proclamada pelo mito da esfinge de Tebas na Grécia antiga, impõe ao visitante uma pergunta fatal sobre o ser humano, antes de este ingressar na cidade, que pode lhe custar à própria vida.
Mas o que nos leva a utilizar o título deste artigo e seu apelo ao mito da esfinge de Tebas, é o tema contemporâneo da crise ecológica ou de uma Questão Ecológica em aberto na história do tempo presente, cujo caráter grave e cumulativo cm o passar do tempo, exige resposta verdadeira à própria sobrevivência das espécies. E obviamente não aceita respostas na linha do ‘negacionismo’, nem tampouco da banalização de respostas falaciosas, sob pena de destruição do(os) interpelado(os).
A cada ano que passa, os ‘sinais dos tempos’ vão ficando cada vez mais graves para aquilo que aqui estamos denominando de Questão Ecológica, tema que infelizmente é comunicado à sociedade pela grande mídia em linguagem exaustiva de repetição dos fenômenos naturais observados, cada ano mais frequentes – enchentes, secas, queimadas, desmatamentos, poluição planetária etc; evitando-se sempre nessas informações, apurar responsabilidades e causalidades; como se o acaso e a fatalidade fossem os sujeitos ocultos da história.
É bem comum na tradição histórica brasileira postergar a solução de Questões Sociais graves, a exemplo do trabalho escravo desde os tempos da independência política (início do Sec. XIX); ou para nos situarmos em horizonte histórico mais recente, da Questão Agrária, que é assumida oficialmente pelo Governo Goulart antes de sua queda, e objeto de tergiversação pelo Governo Militar, mesmo depois deste proclamar o Estatuto da Terra, ora completando 60 anos. E nesse exercício de postergação perpétua o campo conservador opera com a expectativa do “decurso de prazo”, recurso aparentemente sucedâneo às mudanças estruturais, que não lhes interessam.
Por outro lado, a ‘Questão Ecológica’ que estamos nos propondo a decifrar, ora já sob o peso do enigma de Tebas, contém componente físico ao agravamento da crise climática, que apresenta caráter cumulativo no tempo, face às respostas ‘negacionistas’ ou banalizantes. Daí que, tratar desta Questão à moda conservadora brasileira, gera agravamento sem precedentes – do presente em que já convivemos com a crise ao futuro em que o peso da destruição e da morte é decorrência normal da resposta banal.
A ficha do “decifra-me ou te devoro”, originalmente uma simples metáfora sobre três etapas da vida humana – infantil, adulta e idosa-, transforma-se quando aplicada à Questão Ecológica em tema da maior relevância ao espaço público, com destaque no caso brasileiro às políticas públicas dirigidas ao espaço rural. Este, transformado neste século, em campo ilimitado de aplicação da “Revolução Verde” (anos 60 do séc. XX) e desmesurada expansão do mercado de terras, converteram-no concomitantemente em campeão mundial da emissão de dióxido de carbono. E tal conversão se deu e continua a ocorrer sob intensa mediação das políticas de Estado, mediante volumosa transferência de recursos públicos por meio das políticas agrícola e fundiária de Estado.
Finalmente, “para que não digam que não falei de flores”, resposta verdadeira ao enigma ora considerado, passa necessariamente por mudança significativa rumo à transição ecológica no espaço rural, que ora é hegemonicamente governado pelo sistema de agronegócio; sem o que este também será devorado pelas muitas pulsões por morte que carrega nas próprias entranhas, antes, porém destruindo parte expressiva da vida em geral, incluindo humana, socialmente menos protegida.
Guilherme Delgado é doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Imagem em destaque gerada por IA: Dalle-e.
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