Francisco, Jesus e a Cátedra de São Pedro

Joana Eleuthério

Tu és Pedro, e sobre esta pedra eu irei construir a minha Igreja, e as portas do inferno não irão derrotá-la.

Mt 16,18

Nesses últimos tempos, no Brasil e no mundo inteiro, estamos vivendo períodos de muita turbulência tecnológica, cujos recursos mal utilizados acabam gerando muita desarmonia e grande divisão entre pessoas e comunidades. Sem essas ferramentas, também na época de Jesus, existiam conflitos e incompreensões. No início da vida pública do filho de Maria e José, quando Ele foi batizado por João Batista, uma enorme quantidade de pessoas vindas de diversas regiões da Galileia puderam assistir aquele belo momento. Quando Jesus saía das águas depois de receber o batismo, os céus se abriram e de lá ouviu-se a voz do Pai:

Tu és o meu Filho amado!
Em ti encontro o meu agrado.

Lc 3,22

Mesmo assim, muita gente ainda duvidava da verdadeira identidade de Jesus.

Em seguida, o Filho Deus encarnado afastou-se do rio Jordão e, conduzido pelo Espírito Santo, dirigiu-se para o deserto de Judá, onde passou 40 dias em oração e jejuns, em diálogo e intimidade com o Pai.  Já no final de seu tempo de ‘deserto ‘, Jesus homem sentiu fome e sede. Mais de três semanas já haviam se passado e o demônio, aproveitando de Sua fragilidade física, foi perturbá-Lo (Lucas 4, 1-13). Foi a primeira grande tentação sofrida por Ele, pois estava realmente muito debilitado, como qualquer homem, qualquer mulher em situação análoga e isso nos mostra também a vulnerabilidade e humanidade do Filho de Deus, o Verbo encarnado no meio de nós. Jesus enfrentou outros tipos de tentação como quando se encontrava, em suas andanças, pregando a boa nova pelas vielas da região. Algumas pessoas importantes e respeitadas naquela sociedade primitiva – os mestres do templo, fariseus, sacerdotes e escribas viviam seguindo-O para provocá-Lo, uma vez que eles não tinham “ouvidos” para o Seu ensinamento. Na verdade, eles não queriam entender e nem aderir ao projeto do Reino dos Céus, por medo de perderem poder.

Como já acontece há algum tempo, sempre me vejo preocupada e mesmo indignada, com a rejeição que o Papa Francisco vem enfrentando, principalmente por parte de alguns católicos muito “fervorosos”, de comunhão diária e de muitas adorações semanais ao Santíssimo. Rezando essas circunstâncias e também as da vida pública de Jesus, me ocorreu um texto bem pequeno, que foi o evangelho há poucos dias.

Naquele tempo, os fariseus vieram até a beira do Lago, apenas para discutir com Jesus e questioná-lo, como faziam sempre que tinham oportunidade. E, na tentativa de colocá-lo à prova uma vez mais, como gostavam de fazer, pediam-lhe um sinal do céu. Jesus deu um profundo suspiro, demonstrando todo o Seu esgotamento e toda a Sua humanidade. Ele já estava cansado dessas provocações sem nenhum sentido. Então, disse para seus discípulos: “Por que esta gente está pedindo um sinal? Querem uma prova de que sou o Filho de Deus? Verdadeiramente, a essa gente nenhum sinal lhes será dado.” Então Jesus seguiu Seu caminho, como enviado do Pai, para cumprir a sua missão e trabalhar como tinha aprendido com Ele. Então entrou de novo na barca e se dirigiu para a outra margem – o seu trabalho iria muito além daquela margem, que todos ali eram capazes de ver. (Conforme Marcos 8,11-13)

Os insultos dos que te ofenderam caíram sobre mim.

Romanos 15,3

Nosso humilde e sereno Papa Francisco tem encontrado com muitos fariseus e escribas em seu caminho pastoral. Guardadas as devidas proporções e diferenças contextuais e de época, acredito que as provocações sofridas pelo nosso sumo pontífice talvez sejam até piores do que as que Jesus suportou durante Seu trabalho, antes da crucificação. Contudo, percebemos Francisco sempre procurando manter-se misericordioso e generoso, vislumbrando as muitas margens que ele terá de atravessar como fiel e autêntico seguidor e representante de Jesus Cristo e do nosso amoroso Pai – o Deus Trindade. Nosso papa não perde tempo, segue com a agenda da Santa Sé e com os diversos projetos assumidos como herdeiro da cátedra de São Pedro. Assim, o que assistimos diuturnamente é a sua dedicação e seus esforços constantes, demonstrando muita coragem e serenidade, como alguém que realmente escuta o Sopro e segue sua direção. Durante os seis anos de pontificado, o Papa Francisco tem procurado dialogar com os países e povos que, historicamente, já estavam distantes do Vaticano. Como nos disse Pagola, o ilustre teólogo espanhol:

Os cristãos devem saber para qual direção o Espírito de Deus empurra Jesus, pois segui-lo é precisamente caminhar na sua mesma direção. […] Não é possível viver e anunciar Jesus Cristo se não é desde a defesa dos últimos e a solidariedade com os excluídos. Se o que fazemos e proclamamos desde a Igreja de Jesus não é captado como algo bom e libertador pelos que mais sofrem, que evangelho estamos a predicar? Que Jesus estamos a seguir? A que nos estamos a dedicar? Dito de forma mais clara: que impressão têm os cristãos? Estamos caminhando na mesma direção que Jesus?

José Antônio Pagola

O nosso atual Papa tem sido muito inspirado. Guiado pelo Espírito Santo, protegido e orientado por Maria, vem assumindo imensos desafios e atravessando novas e antigas margens para também cumprir sua missão. Como Jesus, ele não ignora as incompreensões, maledicências e agressões de fiéis, de parte do clero, de parte do episcopado católico e até mesmo de auxiliares na Cúria. O foco do Papa Francisco não permite que essas “encrencas” o paralisem, o seu olhar e o seu coração são mesmo inspiradores: “Pai, estamos divididos. Torna-nos unidos!

Neste ano de 2020, em meados de março, teremos o esperado e muito bem preparado “Encontro Economia de Francisco” – que é bom que se esclareça, não é a economia do Papa Francisco – mas a Economia segundo os critérios e a visão de São Francisco de Assis, por isso o encontro acontecerá naquela cidade italiana. Os protagonistas principais desse evento, como já foi amplamente divulgado, serão jovens economistas, empreendedores, doutorandos e pesquisadores com menos de 35 anos. Já são mais de dois mil inscritos, provenientes de 115 nações do mundo inteiro, e o Brasil é um dos países com mais inscritos dentre os que irão discutir e pensar o futuro, que será mesmo deles. Também serão convidadas pessoas reconhecidas na área, inclusive dois ganhadores do Prêmio Nobel, que atuarão no fundo das discussões e decisões, como consultores compartilhando as suas experiências. Além desse encontro, como diz o velho refrão, “Educação é tudo.”, teremos ainda o Pacto Educativo Global. Não menos importante que a economia, é a educação – o Pontífice decidiu dedicar um dia a esse tema que lhe é muito caro, no próximo dia 14 de maio. Ele então fez um apelo dirigido àqueles que têm responsabilidades políticas, administrativas, religiosas e educativas para pensarem juntos. O encontro não vai elaborar programas, mas reencontrar o passo comum a fim de lembrar o compromisso com as novas gerações. O pacto educacional será revolucionário e está prevista a criação de um Observatório Mundial nos próximos anos.

Com uma agenda sempre apertada, o Papa Francisco também realizou uma Audiência com o corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé, quando falou de suas viagens em 2019 e das regiões e conflitos que lhe trazem mais  preocupação como a Síria, o Líbano, Iêmen, Líbia etc., como também o aumento da tensão entre o Irã e os Estados Unidos e o Iraque. O pontífice comentou ainda eventos importantes para a comunidade internacional, como a X Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que acontecerá em abril nos Estados Unidos, na cidade Nova Iorque.  O pontífice também falou um pouco do Sínodo Pan-amazônico e do que ele significa para a região e seus povos – na verdade, para a vida de todo o Brasil e de todo o mundo.

Como uma pessoa que deseja e consegue realizar tanto, preocupando-se com a construção do Reino de Deus no meio de nós, terá ainda que se ocupar com pormenores, como quem poderá receber para não causar polêmicas? Ou mesmo com as brigas entre os que são favoráveis ou não favoráveis à ordenação de padres casados e de diaconisas? Por vezes, eu fico pensando como nos falta uma boa educação, que nos ensine a gostar de ler, a ler mais, a refletir mais e falar bem menos, bem menos… As pessoas criticam, dizem que a Igreja tem prioridades maiores do que o Sínodo, mas a maioria não se deu ao trabalho de ler nenhum dos três importantes textos relativos ao Sínodo Pan-Amazônico: o documento preparatório – o Instrumentum Laboris, o documento final – AMAZÔNIA: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral e a Exortação Apostólica – Querida Amazônia.

O nosso pontífice vem mostrando muito dinamismo em sua gestão e em suas atividades pastorais. Ele tem um fôlego e uma energia realmente admiráveis.

O Papa jesuíta de 83 anos também publicará importantes documentos em 2020, e provavelmente alguns outros também. Ele continuará viajando pelo globo, possivelmente indo a lugares aonde os antecessores desejaram ir, mas tiveram negadas suas entradas. E não há dúvida de que ele acrescentará mais figuras ao ilustre grupo dos cardeais a partir dos quais irá surgir o próximo Bispo de Roma.

Robert Mickens

Voltando ao tema do Sínodo, é sabido que a Amazônia é um bioma com uma imensa biodiversidade, por isso é um dos pulmões do mundo, como também a bacia do Rio Congo. Contudo, somente a Amazônia é um bioma, ou seja, é um sistema interativo e vivo que não apenas beneficia quem mora lá, mas também toda a humanidade. O Papa Francisco vem nos ensinando a caminhar, ele quer fazer de nós uma Igreja que caminha, uma Igreja que não olha para trás. Lembremo-nos de Jesus nos dizendo que aquele que é chamado não olha para trás para se fazer apto a entrar no Reino dos Céus (Lucas 9,62). Olhar para trás, neste momento, significa parar a Igreja, e a Igreja, com o poder do Espírito Santo, não para, continua avançando sempre. Como disse o nosso papa, “precisamos de uma Igreja livre, simples, sempre em saída”.

A Igreja está em movimento, talvez devagar, mas ela escuta esses gritos daqueles que não querem caminhar juntos, daqueles que querem uma Igreja à sua medida, mas a Igreja avança, e avança com a graça de Deus. Estamos apenas começando e, neste aspecto, Francisco nos exorta a caminhar com ele, na presença de Cristo, anunciando com entusiasmo, firmeza e com um compromisso muito claro que é Jesus Cristo quem nos diz: vá por todo o mundo, vá para a Amazônia, como local de encontro com Ele e encontro com os irmãos. E da Amazônia, procurar uma ecologia integral, que foi a proposta prematura para o Sínodo.

Cardeal Pedro Barreto

Em sua exortação a respeito do Sínodo, o Papa Francisco deixou claro que estava referendando o documento final da Assembleia Especial para a região Pan-Amazônica e, por isso, não iria repetir nem substituir aquele documento. Mas ele gostaria de ajudar e orientar para uma acolhida harmoniosa, criativa e frutuosa de todo o caminho sinodal e do referido documento.  Desta forma, fica implícita uma tarefa para todos nós – Francisco faz um claro apelo para que “nos sentemos à mesa comum, lugar de diálogo e de esperanças compartilhadas“. Ele quer nos encorajar a sonhar, sonhar com uma humanidade que respeita os direitos humanos de maneira irrestrita, pois a vida deve ser respeitada, mas não apenas ela, também o nosso entorno comum, ou seja, a nossa “Casa comum”, também a natureza e todas as criaturas de Deus.

Concluo que tudo o que Jesus sofreu, parece que seus mais autênticos seguidores tendem a passar pelos mesmos sofrimentos ou sofrimentos muito semelhantes aos Dele. Rezo e convido às leitoras e aos leitores que também rezem comigo para que nos tornemos capazes de sonhar e realizar como o nosso querido Papa Francisco. Como ele, estejamos confiantes em que Deus quer “que toda a Igreja se deixe enriquecer e interpelar por este trabalho, que os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis-leigos da Amazônia se empenhem na aplicação do Documento Final, que, de alguma forma, possa inspirar todas as pessoas de boa vontade” (Exortação Apostólica – Querida Amazônia, nº4). Juntemos nossa voz à do papa e também rezemos a nossa mãe, que Jesus nos deixou:

Em Vós confiamos, Mãe da vida!
Não nos abandoneis nesta hora escura.
Amém.

(Da oração poética de Francisco na conclusão da Querida Amazônia.)

Brasília, 23 de fevereiro de 2020. Dia da Cátedra de São Pedro.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. Servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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